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Afronta, vaidade ou quimioterapia: elas contam por que rasparam o cabelo

Ana Bardella

De Universa

11/12/2019 04h00

Feminilidade, vaidade, charme: são muitas as palavras associadas ao cabelo feminino. No Brasil, a valorização dos fios é tão significativa que impacta a economia: o país é o quarto maior mercado consumidor de produtos capilares no mundo, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, estando atrás somente dos Estados Unidos, da China e do Japão. Na vida prática, é ainda mais fácil perceber a importância da cabeleira no cotidiano da brasileira: basta observar a variedade de xampus, óleos, finalizadores e tinturas disponíveis nas prateleiras. Isso sem contar o número de influenciadoras digitais cuja principal atividade é produzir conteúdo sobre beleza, especialmente dicas e testes de produtos para os fios.

Nesse cenário, o que leva uma mulher a se desapegar completamente do próprio cabelo a ponto de raspá-lo? Confira a seguir histórias de quem passou pela experiência:

"Gosto de afrontar a sociedade"

Drica - João Regis / Instagram - João Regis / Instagram
Imagem: João Regis / Instagram

"Eu cresci em um abrigo. Lá, a diretora responsável não gostava que as crianças tivessem cabelos longos por causa dos piolhos. Por esse motivo, tive os fios bem curtos desde pequena e sofri bullying na escola. Quando o orfanato mudou de direção, pude deixar novamente o cabelo crescer, desde que cuidasse bem dele. Na vida adulta, experimentei todo tipo de cabelo, até que cheguei no estilo black power. Permaneci com ele por algum tempo, até que comecei a trabalhar como modelo. Sempre que ia a alguma seleção, notava que as outras negras tinham os fios quase iguais aos meus. Para me destacar, decidi raspar a primeira vez. Deu muito certo, mas o lado profissional não foi minha única motivação. Tenho atitude, gosto de afrontar e sinto que muita gente estranha o fato de eu ser uma mulher negra e careca. Mas eu não aceitava o fato de a sociedade dizer que a beleza feminina estava no cabelo. Sou ousada e me senti livre. Gosto de não ser refém dos produtos químicos, adoro passar a mão na cabeça e sentir o seu formato, sentir o vento enquanto pedalo, molhar a cabeça no banho todos os dias sem ter que me preocupar. Algumas pessoas fazem comentários maldosos, outras se encantam de um jeito bom, com admiração. Eu não ligo para o que dizem: sigo linda, careca e vitoriosa."

Drica Quintiliano (dricaquintiliano), 30 anos, modelo

"Fiz pela quimioterapia, mas não tive medo"

Roberta - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Roberta raspou devido ao tratamento de um câncer de mama
Imagem: Acervo pessoal

"Em junho deste ano, comecei a fazer sessões de quimioterapia porque fui diagnosticada com câncer de mama. Depois da primeira sessão, senti o couro cabeludo doer muito, mas já tinha sido avisada pela médica de que isso poderia acontecer e de que os fios começariam a cair. Nesta época, ele estava no meio das costas. Não pensei duas vezes: fui ao salão e raspei. Tenho consciência de que lidei bem com a situação e de que o processo não é tão fácil para todas as mulheres. Mas sentia que poderia viver bem sem ele, sabia que ainda me sentiria bonita. Na semana passada, terminei as sessões de quimio: foram oito no total. Entre o Natal e o Ano Novo, vou fazer uma operação. Depois que tudo passar, pretendo deixar crescer e platinar. Por enquanto, sigo tranquila. Acredito que esse seja o segredo para que o tratamento seja encarado da melhor maneira possível."

Roberta Mesquita, 37 anos, administradora

"O cabelo não pode definir a sua vida"

Sabrina - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Sabrina se sente uma mulher corajosa
Imagem: Acervo pessoal

"Raspei o cabelo há dois meses. No mesmo dia, platinei, o que causou um impacto ainda maior. Essa era uma ideia que já passava pela minha cabeça, então pesquisei na internet por mulheres que já haviam adotado esse visual. A primeira mudança radical pela qual passei veio no meu aniversário de 30 anos, quando cortei curtinho depois de uma longa história de cabelos longos. Agora, aos 31, desapeguei de vez. Não fiquei receosa para raspar, me considero bem corajosa. Eu gosto de ousar e sei que as pessoas me enxergam como alguém forte e empoderada. Logo, esse estilo teria tudo a ver com as minhas ideias, com a maneira como me expresso. A sensação é de liberdade total. Meus amigos e as pessoas que me acompanham no Instagram receberam a novidade muito bem, disseram que combinava comigo. Meu marido também me incentivou: sabemos que precisamos respeitar a individualidade um do outro. Além disso, continuo sendo a mesma pessoa. Não concordo que o rosto da pessoa precisa ser bonito, harmônico, para o visual ficar bom. Meu conselho é: se deu vontade, não se prive e faça. O cabelo não pode definir a sua vida."

Sabrina Martins (maedasmarias_30), 31 anos, produtora de conteúdo

"Já me perguntaram se estava doente"

Sonyela - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Sonyela é careca há cinco anos e adora o visual
Imagem: Acervo pessoal

"Ainda nos anos 1990, me apaixonei pelo visual da Sinéad O'Connor [cantora irlandesa] e decidi que, em algum momento da vida, adotaria esse visual. Tomei a decisão de raspar em 2013. Incialmente, optei por números maiores do que a máquina zero, mas, com o tempo, fui diminuindo até me acostumar completamente com ele. Senti medo e enfrentei uma resistência grande por parte da família, mas logo depois de raspar, me senti maravilhosa. A sensação é de que sou dona de mim. Hoje, para fazer a manutenção, vou toda semana a uma barbearia. Já me perguntaram muitas vezes se estava doente e quando deixaria crescer novamente, mas não me importo com isso. Sou uma mulher forte e determinada. Me sinto eu mesma."

Sonylena Sonnemaker (sonysonnemaker), 56 anos, psicóloga clinica

"Tem sido um período de autoconhecimento"

Camila - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Camila se sente ela mesma com o estilo
Imagem: Reprodução / Instagram

"Meu cabelo era grande e cacheado, mas começou a ficar muito ressecado e isso me gerou algumas dúvidas sobre como deveria tratá-lo. Decidi cortar bem curto, mas não gostei. Então decidi passar máquina zero. Na hora, tive uma montanha-russa de emoções: senti medo, chorei, mas, ao mesmo tempo, me achei uma mulher muito poderosa. Saindo da barbearia, fui à casa de uma amiga e ela me recebeu no portão dizendo que eu estava linda. Aquilo foi importantíssimo para mim. Tudo isso aconteceu há um ano e, de lá para cá, sinto que vivi um período intenso de autoconhecimento. Eu me amo assim. Há quem diga, por exemplo, que não conseguiu um emprego, mas acho que é um mito. Sempre vai haver um lugar em que eu possa me encaixar sendo eu mesma. Gosto da sensação de ser olhada e elogiada."

Camila Silva (the_camixz), 17 anos, estudante

"Usava o cabelo para me esconder"

Nadine - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Nadine raspou por causa de uma promessa
Imagem: Reprodução / Instagram

"Sempre fui uma menina tímida e sentia que o cabelo era uma espécie de escudo para mim. Eu usava os fios para me tampar, me cobrir. Então decidi fazer uma promessa: se eu passasse na universidade, iria raspar os fios e doá-los. Essa já era uma vontade, mas ao mesmo tempo sabia que seria um sacrifício para mim. Logo no início, amei. Fiquei admirada com o quanto me senti bonita. Hoje, ir à barbearia é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Também percebi que comecei a ter mais cuidado com a minha pele, ousar nos acessórios, nos brincos, na maquiagem. Passei a dar valor para outras partes do corpo, valorizar outros tipos de beleza. Além disso, melhorei minha postura, hoje tenho outro tipo de atitude. Já me perguntaram muitas vezes se sou lésbica, o que para mim não é um problema. E até me confundiram com um menino quando estava com roupas largas. Mas não me importo. Eu amo ser assim."

Luana Nadine Moura Pazini (nadinepazini), 24 anos, estudante

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