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Noiva que deu buquê ao namorado do irmão: "Jogar pras mulheres é machista"

Bruna Alves

Colaboração para Universa

04/12/2019 04h00

Era para ser mais uma festa de casamento comemorada pela família Pierini em Bebedouro (SP). No vídeo divulgado nas redes sociais, a noiva, Érica Pierini, 28, aparece fazendo a contagem regressiva para jogar o buquê. No entanto, quando chega a hora de arremessar as flores, ela vira para trás, caminha até o cunhado, Diogo, e entrega o buquê em suas mãos.

Em seguida, o irmão da noiva, Eduardo, vem na direção de Diogo com um par de alianças, ajoelha-se em sua frente e diz: "Quer casar comigo?". O casal então se beija e recebe os cumprimentos da noiva e dos demais convidados. A filmagem do casamento, que aconteceu no último dia 16 de novembro e viralizou recentemente nas redes sociais, termina com a troca de alianças do casal.

Com o casamento da irmã se aproximando, faculdade concluída e trabalhando, o engenheiro de produção, Eduardo Pierini, de 24 anos, que namora há mais de três anos, conquistou a independência financeira e começou a pensar que também estava chegando sua vez. Em meados de junho desse ano, ele decidiu que iria pedir o namorado, o estudante de direito, Diogo Coimbra, 22, em casamento. Mas teria que ser de um jeito diferente.

"A palavra casamento já estava atraindo bastante a gente, e eu falava para ele: 'Ah, eu vou te pedir em casamento ainda, mas não sei como'", diz Eduardo. Para fazer a surpresa, o jovem contou com a cumplicidade da irmã. Foi ela que teve a ideia de entregar o buquê para o cunhado.

"Eu não iria jogar o buquê porque eu acho uma atitude meio machista. Geralmente, na hora do buquê, as pessoas ficam dizendo: 'Ah, você quer pegar porque está querendo desencalhar'. Como se toda mulher quisesse se casar e não pudesse optar por ficar sozinha. É aquela coisa retrógrada. Eu nunca fui de pegar buquê e não ia jogar o meu também", diz Érica.

No entanto, a ideia do pedido inusitado surgiu apenas pouco antes do casamento.

"Uma semana antes, um primo nosso se casou, o Diogo tentou pegar o buquê da noiva e não conseguiu. Daí ele veio falar que no meu ele iria pegar. E eu falei: 'Eu entrego para você, daí o Eduardo te pede em casamento'. Mas eu falei brincando", diz. "Na mesma noite, o Eduardo falou que gostou da ideia."

Como se não fôssemos diferentes

Depois do plano arquitetado, o próximo passo seria conseguir comprar as alianças. Mas, apesar da correria, o tempo conspirou a favor do casal e deu tudo certo.

"Eu tinha falado para ele que, se um dia ele fosse me pedir em casamento, eu queria uma coisa só nós dois", diz Diogo. "Quando a minha cunhada virou, eu não tinha entendido ainda. Fiquei chocado e nem consegui falar sim, eu só consenti."

Após o pedido, Eduardo conta que se surpreendeu com a reação positiva das pessoas porque não conhecia a maioria delas. "Eu nunca esperava aquela reação. Várias pessoas que eu nunca tinha visto na vida vieram me cumprimentar e me abraçar."

Para Diogo, militante da causa LGBT, o apoio também foi muito importante, já que se tratava de um noivado homoafetivo. "Esse momento de jogar o buquê é um momento muito tradicional. A gente lutou por muitos anos para poder casar. Quando ela me entregou o buquê, foi muito bonito porque a reação foi genuína e ninguém lá estava falando sobre a nossa orientação sexual."

"Seria por um momento como se nós não fôssemos diferentes. E a gente não quer ser tratado como diferente. Ela foi muito benevolente de ter compartilhado esse momento com a gente. Eu chorei horrores."

O início da relação

O casal se conheceu há três anos e meio em uma festa de faculdade, em Uberlândia (MG). Na época, Eduardo cursava engenharia de produção em Uberaba (MG) e Diogo estudava direito em Uberlândia.

"Quando Diogo veio falar comigo, a primeira pergunta que ele fez foi: 'Você é de esquerda ou é de direita?' Eu disse que era de esquerda. E ele: 'Ah, porque eu não beijo ninguém de direita'", lembra Eduardo, aos risos.

Cerca de um mês depois, após ser intimado pelo então "ficante", ele oficializou a relação e fez o pedido de namoro. "Diferentemente dele, eu já estava completamente apaixonado", diz Diogo.

Eduardo terminou a faculdade no ano passado e voltou para sua casa, em Bebedouro, no interior de São Paulo. Já Diogo continua morando e cursando direito em Uberlândia. Apesar da distância, o casal consegue se ver aos fins de semana, quando gostam de cozinhar, jogar vôlei e videogame.

"Eu me senti totalmente entregue na relação e sem armadura nenhuma depois de dois anos. Foi um sentimento criado pouco a pouco. Hoje em dia, sou completamente apaixonado por ele", diz Eduardo.

"Agora ele é o apaixonado, e essa pressa para casar é culpa dele. O jogo virou", diz Diogo, aos risos.

Casal enfrentou preconceito da própria família

Aos 17 anos, Eduardo revelou para a família sua orientação sexual. No entanto, seus pais não queriam aceitar que o filho era homossexual.

"Foi muito difícil. Meus pais sempre foram conservadores e religiosos. A gente teve muitas brigas durante todo o ano de 2013, quando eu me assumi. A gente se magoou muito", lembra.

Pouco tempo depois, Eduardo começou a namorar pela primeira vez. Após muitas brigas, os pais aceitaram que ele namorasse um homem, mas não da mesma forma que seria se fosse com uma mulher. "Eu tinha que tratar esse namorado como se fosse um amigo", diz.

Em 2016, Eduardo conheceu Diogo, o atual noivo, e o apresentou para a família depois de seis meses de namoro. Segundo ele, os pais passaram a aceitar seu relacionamento, mas ainda com restrições. "Eu tinha um pouquinho de medo do que eu poderia fazer. Posso abraçar, posso ficar junto, trocar carícias? Eu ficava naquele impasse."

Após um período morando fora, ele diz que os pais passaram a aceitá-lo como ele era e a relação familiar melhorou.

Com Diogo, as coisas não foram diferentes. O jovem também teve que enfrentar muitas dificuldades ao assumir para a família, aos 18 anos, que era gay. Filho de pais separados ainda na infância, ele conta que somente a família materna aceitou sua orientação sexual -e depois de muito diálogo.

"Eu sempre fui uma pessoa afeminada. Mas, ainda assim, eu precisei falar sobre isso, porque eu já tinha namorado meninas. Foi uma confusão muito grande para eles e para mim", explica Diogo.

Mas a mãe logo o compreendeu e ficou ao seu lado. "A minha mãe tinha preconceito, mas hoje ela me apoia muito. Ela adora o Eduardo e, quando a gente vai visitar a minha família, eles ficam juntos e é uma coisa bem legal", diz Diogo. "Mérito nosso, porque foi muita luta para estar do jeito que está, foi resultado de muita conversa e paciência."

Em meio a todas as lutas, o casal planeja oficializar a união em novembro de 2021.

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