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Estudante morta por ex mudou tema de TCC devido à violência que sofria

A estudante universitária e líder quilombola Elitânia de Souza da Hora - Arquivo pessoal
A estudante universitária e líder quilombola Elitânia de Souza da Hora Imagem: Arquivo pessoal

Aliny Gama

Colaboração para Universa

02/12/2019 04h00

A universitária e líder quilombola Elitânia de Souza da Hora, 25, assassinada a tiros no município de Cachoeira (BA), no Recôncavo Baiano, mudou o tema de seu trabalho de conclusão de curso (TCC) devido às agressões a que era submetida pelo ex. Um dos temas que a estudante havia escolhido para o trabalho era justamente a violência contra a mulher. O ex-companheiro dela foi apontado por testemunha e por familiares como autor do assassinato.

José Alexandre Passo Góes Silva foi localizado em Feira de Santana (BA) e preso pela polícia na tarde de sexta-feira (29). Segundo a polícia, a jovem enfrentava situação de violência havia um ano, e medidas protetivas de urgência determinavam que o ex-namorado não se aproximasse dela e nem entrasse em contato. No entanto, as ordens foram descumpridas diversas vezes. A polícia não explicou por que José Alexandre não foi preso nas primeiras vezes em que desrespeitou as medidas protetivas.

Elitânia estava no sétimo período do curso de serviço social na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano), era quilombola e atuante em movimentos sociais. Tinha acabado de assistir à última aula da noite da quarta-feira (27), quando, por volta das 22h, voltava com uma amiga para casa e foi abordada pelo ex-companheiro, que chegou em uma moto.

Após atingi-la com três tiros, um na cabeça e dois no tórax, o homem fugiu. A amiga, única testemunha do crime, não se feriu. Elitânia ainda foi socorrida e levada para o hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

O professor orientador de Elitânia, João Paulo Aguiar de Sousa, foi uma das últimas pessoas com quem ela teve contato na universidade antes de ser morta. E contou que a violência sofrida pela estudante a influenciou por duas vezes a mudar o tema do trabalho de conclusão do curso.

"O tema, a princípio, eram os cancelamentos de benefícios do Bolsa Família. Depois, ela pediu para mudar para violência contra a mulher porque estava sob medida protetiva. Agora, no finalzinho, ela disse que não tinha estrutura para pesquisar sobre o tema, porque tinha sido vítima [de agressão] mais uma vez. Por fim, fechamos com o tema da cultura quilombola no âmbito escolar", diz o professor.

Partilhou pouco, mas mostrou hematomas

O orientador conta que Elitânia não entrou em detalhes com ele sobre a situação de violência que vinha sofrendo, mas que não escondia de ninguém o problema. O professor diz que, a cada situação de agressão vivenciada pela estudante, ela ficava mais abalada. "Ela estava muito abatida naquele dia. Partilhou pouco, mas mostrou os hematomas. Depois que mudou o tema, eu ajudei-a nas alterações, ela saiu mais feliz e disse que estava no caminho certo. Ela era uma jovem cheia de sonhos, alegre. Tinha garra", lembra o professor.

Elitânia saiu da comunidade remanescente quilombola Tabuleiro da Vitória, localizada em Cachoeira, onde morava com a avó, para morar na parte urbana da cidade, com o então namorado, no final de 2017. Mas, com poucos meses de convivência, segundo relato de parentes, o relacionamento se tornou abusivo e ela passou a sofrer agressões físicas e psicológicas. "Eles namoravam há uns três meses quando resolveram morar juntos. No final do ano passado, em uma das vezes em que ela apanhou, decidiu se separar", diz um dos parentes que, com medo, preferiu não revelar seu nome. Segundo a família, antes de o casal morar junto não havia relatos de agressão.

Familiares e amigos de Elitânia dizem que ela sofria perseguições e ameaças do ex-companheiro e que, há dois meses, a violência se intensificou. Mas ninguém acreditava que ele tivesse capacidade de matá-la.

"A gente sabia da violência, dava força a ela para enfrentar. Ela se mudou de cidade [dividia casa com uma amiga em Cachoeira], tinha medida protetiva, mas não foi o suficiente. A morte dela foi um choque, era uma jovem cheia de sonhos", diz uma colega de turma de Elitânia, que também pediu para não ter o nome divulgado. Ela teme represálias do suspeito do crime, pelo fato de ele ser "filho de juiz" e por "não ter tido medo da determinação judicial de não se aproximar dela".

"Para a família e os amigos, ela relatava sempre as ameaças, mas todos achavam que essa perseguição era porque ele ainda estava apaixonado. Na verdade, não se acha que vai acontecer com uma pessoa próxima de nós", diz uma prima de Elitânia.

Elitânia pediu ajuda à liderança quilombola Maria das Graças Brito, que é advogada e foi com a estudante à delegacia. "Há dois meses, ela me pediu ajuda por não aguentar mais a situação. Na semana passada, a acompanhei em um depoimento que ela prestou na delegacia relatando violência física. Nos próximos dias, ela iria com a avó ao Ministério Público", diz a advogada.

O corpo da universitária foi enterrado na tarde de quinta (28), no cemitério de Cachoeira. Antes do enterro, amigos, familiares e estudantes da UFRB realizaram um protesto nas ruas da cidade, segurando faixas e cartazes e pedindo justiça.

Espelho de meninas negras e quilombolas

Diversas entidades ligadas aos direitos da mulher, aos quilombolas e a movimentos sociais reagiram ao assassinato da estudante com notas de solidariedade e pedidos de justiça. A UFRB decretou luto oficial de três dias pela morte da aluna.

"As terríveis circunstâncias do crime contra Elitânia causam tristeza e indignação de toda a comunidade acadêmica. A UFRB deposita sua confiança nas autoridades para que a justiça seja feita ", diz a UFRB em nota.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia destacou que o assassinato de Elitânia ocorreu "justamente no período dos 21 Dias de Ativismo pelo fim da Violência contra a Mulher, o que reforça ainda mais a luta por igualdade e fim da violência de gênero".

Já a União dos Estudantes da Bahia destaca a atuação de Elitânia e afirma que ela "era o espelho de tantas meninas negras e quilombolas que sonham em ocupar os espaços de poder historicamente negados."

E a Associação de Mulheres do Quilombo do Tabuleiro da Vitória e Adjacências, entidade em que Elitânia atuava como secretária, ressaltou que a jovem era uma das lideranças promissoras entre os quilombolas da região.

Violência contra a mulher