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"Queriam me embranquecer, não me viam tão preta quanto sou", diz Preta Gil

Preta Gil no videoclipe da música "Só Amor" - Divulgação
Preta Gil no videoclipe da música "Só Amor" Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

29/11/2019 04h00

Em 2017, a cantora Preta Gil disse para Universa que era uma "negra privilegiada". Ela continua negra, é certo, aliás, "Mais Preta que Nunca", uma brincadeira com o nome da peça que apresenta no Rio de Janeiro sobre sua vida e carreira. Mas reviu sua percepção sobre o que é privilégio e que lugar ocupa no mundo como mulher negra.

"Não é que eu me considere [preta] ou me autodeclare, eu sou. Mas eu sei dos meus privilégios, e isso não pode me tornar menos preta. Na verdade, eu tenho um bloqueio com a palavra privilegiada. Sei que o acesso e a oportunidade diferenciam as experiências, sei que mulheres retintas passam por um racismo que eu nunca passei, que uma menina de pele escura da favela passa pelo que não passei. Mas é questão de contexto, cada um tem uma história", avalia.

Filha de uma mulher branca, Sandra Gadelha, e de um dos maiores artistas negros brasileiros, Gilberto Gil, Preta conversou com Universa enquanto se preparava para gravar o comercial da Salon Line em Salvador, poucos dias antes de 20 de novembro, data que marca a Consciência Negra.

"A peça se chama 'Mais Preta que Nunca' porque sou filha de branca com preto, tenho essa mistura, mas nunca deixei que me clareassem. Aliás, se é para falar de privilégio, meu grande privilégio é ser preta e ser filha de um homem negro como meu pai. De levar essa DNA, esse amor."

"Queriam me embranquecer"

Reforçar sua identidade racial faz parte da trajetória pessoal de Preta. Com as redes sociais e o contato direto com o público, isso transborda para sua vida pública. Ela não deixa se embranquecer, por exemplo.

"Depois de adulta, comecei a perceber que as pessoas queriam me embranquecer e não me consideravam tão preta quanto eu sou. Principalmente na aparência, por eu ser mestiça e ter cabelo liso, isso dá uma confusão na mente das pessoas. Não é muito comum", explica.

"As pessoas tendem a falar que eu sou mais indígena. Mas eu nunca comprei essa identidade. O que mudou é que hoje tenho a consciência do colorismo, que eu não tinha. Para mim, eu sempre fui preta como todas as pretas, apesar de perceber que meu tom de pele era diferente. Foi com o tempo que comecei a perceber que isso tem uma conotação simbólica", reflete a cantora.

"Magra e histérica", política e autoestima

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Não é só falar sobre ser negra no Brasil que faz parte dos posicionamentos públicos de Preta. Ela também sai em defesa de grupos de minorias, como de pessoas LGBTs, valorizando a diversidade que compõe, inclusive, seu público em eventos como o Bloco da Preta. Há 11 anos, a artista arrasta multidões com sua música, o que relaciona ao fato de sua arte ser política.

"O fato de eu existir e resistir e já é político. Eu faço a política do amor, do respeito e da liberdade e é isso que eu quero para o Carnaval e para o Brasil. Meu pai fala há muitos anos que eu faço isso do meu jeito, impondo o que penso com leveza", comenta.

A liberdade feminina também é pauta de Preta toda vez que aparece de biquíni em fotos do Instagram ou faz uma declaração contra os padrões de beleza impostos pela sociedade. Ela já esteve, no entanto, do outro lado da mesa, tentando ter o corpo que não tinha, fazendo lipoaspiração, inclusive na vulva.

"Em 2004, eu pesava 50 quilos. Pensei que seria o que 'eles' queriam que eu fosse: magra. E eu era completamente desequilibrada. Magra, infeliz, histérica. Meu tom de voz era três acima do atual. Fiz tudo isso depois de ter recebido tanta crítica e comentários gordofóbicos", explica.

"Eu odeio Preta Gil": haters na internet

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Há muito tempo Preta Gil recebe comentários pela internet. Mas aos poucos, os ataques dão lugar a relatos de mulheres que se sentiram livres para mostrarem o corpo natural em fotos e viverem experiências como ir de biquíni a praia.

"Eu tinha um blog, no UOL, inclusive, e me comunicava com minha comunidade lá, pelos comentários. No Orkut, por outro lado, tinha uma comunidade com o nome "Eu odeio Preta Gil". Criei uma conta e me infiltrei lá. Me chamavam de 'gorda, nojenta'. Foi quando comecei a entender: o que tinha naquela época é o que acontece hoje, pessoas preconceituosas, racistas, gordofóbicas, que se sentiam livres para falar o que bem queriam a meu respeito."

Felizmente, no Instagram e quando encontra seu público pessoalmente, Preta também recolhe depoimentos de quem se sente liberta das amarras dos padrões estéticos para viver com o corpo que tem.

"Que existam 20 mil comunidades 'Eu odeio Preta Gil' e uma mulher liberta inspirada por mim, já está valendo. Valeu toda a pedrada, todo o xingamento. E hoje não é uma mulher só. São milhares. Que se inspiraram em mim? Não, que se inspiraram nelas próprias. Viram em mim um caminho. A vida ganha nesse sentido e eu comparo isso, que chamam de empoderamento feminino, a [alegria de] meu filho, minha neta, minha carreira", explica.

Era meu sonho de princesa quando eu era mais nova que isso existisse, só não sabia que nome ia ter, hoje é empatia, sororidade

Preta diz que, por fazer parte desse movimento, se considera feminista. "Não acho um rótulo pejorativo, me considero feminista, sim, não tenho noção intelectual, não estudei, mas me considero. O maior dos feitos é libertar as mulheres. Se eu tento e quero ajudá-las e me ajudar a fazer isso, sou feminista."

*A repórter viajou a convite da Salon Line para Salvador, Bahia.

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