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Ela foi abusada pelo pai: "Ele não me deixa tomar banho sozinha"

Mãe detalha como a filha contou abuso cometido pelo próprio pai - Getty Images/iStockphoto
Mãe detalha como a filha contou abuso cometido pelo próprio pai Imagem: Getty Images/iStockphoto

Luiza Souto

De Universa

27/11/2019 04h00

A dona de casa Laís*, de 28 anos, viveu um relacionamento abusivo com o pai de sua filha durante sete anos. Mas, apesar de ter sofrido agressões do parceiro, de quem se separou no ano passado, ela afirma que nada doeu mais do que ouvir a criança contar, há dois meses, que foi abusada pelo próprio pai, de 62.

De posse de uma medida protetiva, desde setembro, para que o homem não se aproxime dela, hoje Laís tem que viver longe da filha, pois também é investigada como cúmplice de abuso —denúncia que, segundo ela, teria sido inventada pelo ex. Por isso, a menina mora com os avós maternos. Seu nome foi preservado para não expor a criança, que tem sete anos.

Natural de Belém (PA), Laís diz que, desde muito nova, era constantemente agredida por seu pai e que sua mãe nunca a teria defendido. Ao conhecer o ex, viu a chance de mudar de vida e foi viver com ele.

"Ele me prometeu uma vida melhor, o que não aconteceu", diz Laís.

A gravidez de sua única filha veio em seguida. Segundo a dona de casa, o homem não gostou da notícia. "Ele dizia que minha filha não merecia ter uma mãe pobre e me humilhava."

Após o nascimento, no entanto, o então companheiro passou a querer ficar mais com a menina. E proibia Laís de trabalhar ou sair com a filha sozinha. O contato com a família e os poucos amigos ficou cada vez mais escasso.

O abuso

Quando a criança completou seis anos, Laís deu um basta na situação: arrumou um emprego de vendedora numa lanchonete. E decidiu morar com os pais até conseguir alugar uma casa para ela e a criança.

"Minha filha ficou com o pai, mas, quando voltei para pegá-la, seis meses depois, ele não quis entregá-la. Me agrediu e eu achei que fosse morrer. Procurei a Defensoria Pública e consegui a guarda da minha filha."

O pai passou a ver a garota a cada 15 dias. Laís refez a vida e hoje tem um companheiro. Mas há dois meses descobriu o pior. Após passar um fim de semana na casa do pai, sua filha descreveu cenas que teriam acontecido naquele mesmo dia de domingo.

"Ela contou que o pai insistia em dar banho nela todas as vezes em que ia à casa dele. E que inventava de passar remédios nas partes íntimas dela. Ele também tirava fotos e a chamava de gostosa. E ela ainda falou assim: 'Hoje pedi para o papai me deixar tomar banho sozinha, mas ele não deixou e ainda pediu para eu tocar nele. E empurrou o dedo em mim. Tá doendo tanto que não consigo nem me lavar'", relata Laís, aos prantos, pelo telefone.

A mãe foi ao Conselho Tutelar na manhã seguinte e, de lá, para a delegacia de polícia. Mãe e filha foram ouvidas por psicólogas, e a criança está hoje incluída no Polo Integrado ParáPaz Santa Casa, do governo do Estado, que acolhe vítimas de violência sexual. Ali funcionam atendimento multidisciplinar como ginecologia e psicólogo, além de delegacia.

Como identificar o abuso em uma criança

Em maio deste ano, a Ouvidoria Nacional do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) informou que quase 90% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no país são registrados no ambiente familiar.

A psicóloga Nayana Leite Klaucau, que atende crianças vítimas de abuso sexual no Polo Integrado ParáPaz Santa Casa, lista as mais variadas —e graves— consequências que esse tipo de crime pode trazer: depressão, ansiedade, medo do sexo oposto.

Assim que é descoberto um caso como esse, a criança deve ser levada para o Conselho Tutelar mais próximo ou para um Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), para iniciar um acompanhamento multidisciplinar o mais rápido possível.

E, para evitar o abuso, é preciso estar vigilante, nas palavras da especialista.

"É difícil identificar que a criança está sendo abusada. Mas, se estivermos atentos, a gente consegue porque sempre há uma alteração de comportamento. E é preciso cuidar para não achar que é só uma fase porque a criança está, por exemplo, na pré-adolescência."

No mesmo dia em que foi à delegacia denunciar o abuso, Laís descobriu que estava também sob investigação: o ex teria feito a filha acusar seu atual companheiro de aliciamento e agressão. Ela nega e diz que a menina fez isso sob ameaça do pai, para prejudicá-la. Enquanto a polícia apura o caso, Laís diz que a menina está morando com os avós maternos. O pai não a teria visto mais.