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Professor agredido vai processar suspeito por tentativa de homicídio

Juarez Xavier - Reprodução/Facebook
Juarez Xavier Imagem: Reprodução/Facebook

Daniel Leite

Colaboração para Universa, em Juiz de Fora

21/11/2019 14h42Atualizada em 21/11/2019 16h36

Juarez Xavier, o professor da Unesp chamado de "macaco" e agredido com golpes de canivete em Bauru ontem, vai processar o suspeito por tentativa de homicídio e racismo. Ele disse esperar apuração rigorosa e ampliação do debate sobre esse tipo de crime no país para reforçar que não trata de algo "banal". A polícia indiciou o suspeito Vitor dos Santos Munhoz, de 30 anos, pela agressão ao professor. Ele pagou fiança de R$ 1 mil e foi liberado. No registro do boletim de ocorrência constam os crimes de injúria e lesão corporal.

Para Xavier, o fato evidencia "um longo caminho ainda a percorrer" pela sociedade no combate à discriminação racial. O professor é o presidente da Comissão de Averiguação da Unesp, responsável por verificar as informações prestadas por candidatos que desejam ingressar na universidade por meio de cotas raciais. Hoje, ele está fazendo exame de corpo de delito e afirmou estar passando bem, apesar dos ferimentos causados pelos golpes de canivete.

Em conversa com Universa, Xavier avalia ser necessário atuar em duas frentes contra a discriminação racial: combater o crime e educar a sociedade, já que, na sua avaliação, é uma questão que afeta a todos, não apenas os negros.

"A questão racial é central na realidade política-social brasileira. Ela estruturou esse país. Estruturou a organização econômica, a política-social e cultural, a percepção e a intersubjetividade social, estruturou mecanismos de violência contra negros, mulheres, pobres, gays, lésbicas, trans. É necessário que se tenha um debate aberto, democrático sobre essa situação".

Solidariedade

De acordo com o registro feito na polícia, a agressão aconteceu no centro da cidade paulista. Xavier contou à reportagem que estava em uma importante via, a Avenida das Nações, e viu o agressor apontando algo para ele, mas o professor não conseguiu identificar o objeto.

O suspeito, então, o ofendeu verbalmente e, ao ser confrontada pelo professor, o agrediu com o canivete. "A pessoa levantou as mãos e me chamou de macaco. Fui tirar satisfação e, quando eu cheguei perto, vi que ele estava com um canivete. Quando ele tentou me acertar e eu tentei desarmá-lo, segurei o canivete, tentei me esquivar".

Ele não conseguiu evitar os golpes e foi atingido em diferentes partes do corpo. Segundo o professor, a reação de quem estava por perto foi de "absoluta solidariedade". "Um rapaz ficou comigo o tempo todo, foi ele que viu que eu havia sido esfaqueado. Eu não estava sentindo, estava sangrando muito, foi ele que se deu conta que eu estava com uma facada no braço e nas costas".

Outras pessoas o ajudaram com água e algumas foram atrás do agressor para impedir a fuga até a chegada da polícia. O professor então foi levado para uma unidade de saúde. Em seguida, acompanhado por um advogado, ele foi à delegacia registrar o boletim de ocorrência.

"O grau de solidariedade foi grande, o constrangimento das pessoas por tudo que aconteceu. Foi bastante significativo o acolhimento que as pessoas me deram. Foi talvez o ponto positivo num conjunto de coisas negativas".

Revolta

Um dia depois do ocorrido, Xavier fala em revolta e intolerância. "Revolta, e a gente precisa ter tranquilidade para poder lidar com isso. Revolta, mas eu tive o apoio absoluto da minha esposa, da minha filha, dos meus amigos. Passa a adrenalina, você começa a pensar no absurdo que é essa situação. Em pleno século 21 uma coisa dessas acontecer. Nós estamos num clima de intolerância no Brasil alimentado por uma área do setor político, do setor da mídia, uma área do setor social. E isso é muito ruim para todo mundo, e acaba alimentando uma ideia de intolerância geral".

O processo contra o agressor por tentativa de homicídio e racismo deverá servir como exemplo, ele diz. "Foi uma coisa séria e nós precisamos sinalizar para a sociedade, particularmente a justiça, sinalizar que não tolera isso".

Agredido num dia simbólico, o da Consciência Negra, o professor transmitiu uma mensagem para outras pessoas que porventura passem pelo mesmo problema. "Espero que as pessoas se deem conta que não é uma coisa banal e que é necessário que a gente faça o enfrentamento. Todos nós perdemos com isso".

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