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Como a atriz Anne Celestino, do filme Alice Junior, se descobriu trans

A atriz Anne Celestino, estrela do filme "Alice Júnior" - Arquivo pessoal
A atriz Anne Celestino, estrela do filme "Alice Júnior" Imagem: Arquivo pessoal

Carlos Minuano

Colaboração para Universa

15/11/2019 04h00Atualizada em 15/11/2019 15h54

A adolescência é uma fase complicada para qualquer jovem. E pode ser ainda mais difícil para quem nesta faixa etária se descobre trans. Foi o que aconteceu com Anne Celestino. Aos 12, navegando pela internet, ela se deparou aleatoriamente com o documentário "My secret self (Meu eu secreto)" sobre transexualidade. As fichas começaram imediatamente a cair. "Passei um mês vendo o filme todos os dias, sozinha, sem ninguém saber". Depois tomou coragem e convidou a mãe para assistir.

"Até então minha mãe achava que eu era apenas um garoto gay muito afeminado", diz Anne em entrevista a Universa. Com dez minutos de filme as duas estavam chorando. Nem precisava falar mais nada, mas a jovem que acabava de se descobrir uma menina trans completou: "Eu sou isso aí". Por sorte, a filha recebeu o apoio e suporte que precisava da mãe, Somália Celestino. "Ela não sabia nada sobre o assunto, mas hoje se tornou uma superativista da causa trans", afirma a garota, com um orgulho indisfarçável.

Apesar de ainda bem nova na ocasião, no começo da adolescência, o momento de libertação já era esperado há tempos. "Frequentava psicólogos desde os seis anos, era muito reprimida pelos meus pais, sofria muito por não ser quem eu era". Ninguém entendia muito bem os "sinais femininos" que ela dava desde cedo. Aos 2 anos, usava as camisas do pai como vestido, aos três tentava se maquiar. A brincadeira preferida era se fantasiar de palhaço para se esbaldar com o batom da mãe em seu rosto.

Filme retrata saga do primeiro beijo

Os pais de Anne são separados, e, com o pai, a aceitação não foi de imediato. "Demorei para contar, depois ficamos alguns anos sem nos falarmos, mas hoje ele me apoia e torce muito por mim." A torcida a que ela se referiu no momento desta entrevista é por causa de um novo desafio que ela decidiu encarar: a estreia como atriz em "Alice Junior".

O longa que será exibido hoje na programação do 27º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo, e conta a história de uma adolescente com a qual Anne tem muitas semelhanças. Uma jovem trans youtuber com dois objetivos bem definidos: se entender com a própria vida e dar o primeiro beijo.

Anne é de Recife e a seleção de elenco para o filme aconteceu em Curitiba, mas a vontade de se expressar era tanta que ela decidiu se arriscar. Sua semelhança com a personagem foi decisiva. Também youtuber e blogueira, não só foi escolhida rapidamente para o papel principal como ainda mudou parte do roteiro. Ela conta que convenceu o roteirista Luiz Bertazzo a incorporar no longa elementos de sua própria vivência e realidade. "Ele usou muito das minhas falas sobre a causa trans, construímos uma relação quase de pai e filha."

Divulgação
Imagem: Divulgação
A comédia romântica, dirigida por Gil Barone, é carregada de referências teens e abusa de elementos internéticos. Tem muitos memes da Gretchen, selfies com filtros e uma linguagem jovem que incorpora a estética das redes sociais. Com toda essa mistura, "Alice Junior" em seus minutos iniciais pode parecer tão somente um filme para jovens que poderia ser facilmente exibido na sessão da tarde. Mas não demora muito para vermos que é bem mais do que isso.

O filme, encapsulado no formato de fábula trata com delicadeza os desafios do primeiro beijo de uma jovem trans. A história mostra o drama da youtuber trans Alice Junior que, ao se mudar com o pai para uma pequena cidade, se vê obrigada a estudar em uma escola conservadora e a enfrentar um preconceito generalizado, dos colegas de classe aos professores, diretores e população. Nada muito diferente do que Anne teve que encarar na vida real.

Transição durante intercâmbio nos EUA

Se descobrir trans é só uma etapa de um processo invariavelmente complexo, que envolve transição de gênero, no caso de Anne, do masculino para o feminino. Com 15 anos e com medo da reação de colegas no colégio e de familiares, optou por fazer isso nos EUA durante um intercâmbio. A desejada transição aconteceu e o colégio até ajudou.

De volta ao Brasil, a rejeição que sofreu nas escolas particulares da capital pernambucana, onde ainda vive, foi um dos desafios mais dolorosos de enfrentar, relembra Anne. Para concluir o ensino médio, teve que recorrer a um curso supletivo. Uma caminhada difícil, que deixou lembranças amargas. "Em todas as escolas onde estudei sofri bullying e agressões, meninos me empurram na escada e meninas me proibiram de entrar no banheiro feminino, a transfobia está em todos os lugares."

Mas os tempos de colégio também deixaram saudades. Foi durante o ensino médio em uma escola particular onde ela, aos 16 anos, deu seu primeiro beijo em um menino. "Ele também nunca tinha beijado e pediu para namorar comigo, foi muito fofo e romântico."

Enquanto muitos preferem se esconder, Anne decidiu se expor e ir à luta. Nas suas redes na internet, em seu blog e no canal de vídeo [todos com o mesmo título, "transtornada"], ela combate o preconceito e a desinformação sobre o universo da transexualidade.

Ela quer mais. Depois da viagem para os EUA, que marcou sua transição, garante que fazer o filme "Alice Junior" foi outro divisor de águas em sua vida. Além de decidir ser atriz e cursar faculdade de artes cênicas, Anne conta que a relação com o corpo e a autoestima melhoraram muito e deu coragem até para algumas plásticas. "Fiz nariz, testa e coloquei seios", diz.

O filme "Alice Junior" é um dos destaques da programação do 27º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade. As exibição são hoje, às 17h, na Sala Spcine Olido e no domingo, às 19h30 no Cine Sesc. No final de novembro, o filme segue para o Festival de Brasília e tem a estreia nos cinemas prevista para março de 2020.

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