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Ok, você vai tomar pílula do dia seguinte. E como será o seu dia seguinte?

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Imagem: areeya_ann/iStock

Nathália Geraldo

De Universa

14/11/2019 04h00

Considerada um método de anticoncepção de emergência pelo Ministério da Saúde, a pílula do dia seguinte, a PDS, é um recurso utilizado por muitas mulheres que, depois de fazerem sexo sem camisinha com homens, têm medo de engravidar (de antemão, é importante saber que a pílula não previne contra Infecções Sexualmente Transmissíveis, as ISTs).

Ainda que seja fácil comprar a pílula na bancada de uma farmácia e que possa ser um método difundido por entre quem quer evitar uma gravidez indesejada — metade das mulheres em idade fértil na cidade de São Paulo usou PDS, em 2015, segundo pesquisa divulgada no ano passado — tomar a pílula é uma decisão cercada de medos e questionamentos.

Mesmo assim, a gente os "engole", junto com o comprimido. É como faz a produtora de conteúdo Alice*, de 27 anos, que não toma pílula anticoncepcional e, em algumas ocasiões, já se sentiu obrigada a tomar a PDS para evitar a gravidez indesejada. Mesmo sendo proibida pelo médico de tomar qualquer tipo de medicamento hormonal, ela já optou pela pílula mais de uma vez nos últimos anos.

"Eu tomava anticoncepcional desde os 17 anos, e aos 24, eu tive uma embolia pulmonar. Pelos exames, havia uma relação provável com o remédio. O médico, então, me proibiu de tomar qualquer tipo de hormônio", explica a produtora de conteúdo, que tem o costume de usar preservativos masculinos na relação sexual mas, ainda assim, não se sente totalmente protegida.

Conflito: engravidar ou "dar ruim" no organismo

Risco de engravidar faz parte da tomada de decisão de tomar a pílula do dia seguinte - Marjan_Apostolovic/iStock
Risco de engravidar faz parte da tomada de decisão de tomar a pílula do dia seguinte
Imagem: Marjan_Apostolovic/iStock

"Por isso, toda vez que eu tomo uma pílula no dia seguinte, há um conflito: pode ser que 'dê ruim', porque me colocaram muito terror quanto aconteceu tudo isso, ou posso correr o risco de engravidar. E, entre um e outro, eu prefiro que 'dê ruim'", avalia.

Alice revela ter um aspecto psicológico muito forte em sua tomada de decisão: a paranoia de ficar grávida (que, em alguns casos extremos, pode ser considerada uma fobia). "Tomei com intervalo de dois meses, por volta de quatro vezes por ano, e por paranoia mesmo, porque mesmo com a camisinha, eu não consigo desencanar 100%".

Ok. A gente toma a pílula mesmo. Ela é uma bomba de hormônio?

Pílula tem a dose hormonal equivalente à ingestão de metade de uma cartela de anticoncepcional comum - Adene Sanchez/iStock
Pílula tem a dose hormonal equivalente à ingestão de metade de uma cartela de anticoncepcional comum
Imagem: Adene Sanchez/iStock

A ginecologista e obstetra Karina Tafner é categórica: sim, a pílula do dia seguinte é uma bomba de hormônio. Ela pode desregular o corpo e tem a dose hormonal equivalente à ingestão de metade de uma cartela de pílula anticoncepcional comum, explica a médica.

"Também pode desregular o ciclo menstrual. Ela pode dar náusea e vômito, porque passa pelo estômago. E se a mulher vomitar em menos de duas horas após ter tomado, vai precisar tomar de novo, porque o corpo não terá absorvido", explica. A mulher também pode sentir dor de cabeça e dor nas mamas.

Eficácia

Fato é que, quando se toma a pílula do dia seguinte, a eficácia é um dos fatores que causam mais ansiedade nas mulheres. Há alguns relatos de que, mesmo tomando a PDS, a mulher engravidou.

De acordo com cartilha do Ministério da Saúde, há duas formas de se calcular a eficácia do comprimido: pelo índice de efetividade, que, para esse método, é de 75 a 85% (pode evitar três de cada quatro gestações que ocorreriam após uma relação sexual desprotegida).

E pelas taxas de falha, com base em dados da Organização Mundial da Saúde: o método de Yuzpe, ou seja, a combinação de estrogênio e progestágeno sintéticos, apresenta taxas de falha de 2%, se a mulher tomar logo após a relação sexual desprotegida ou em até 1 dia; o que sobe para 4,7% de falha se ela tomar entre 49 horas e 72 horas depois da transa.

O método mais comum, o levonorgestrel, dose única, deve ser tomado até 72 horas (três dias) após o sexo sem proteção.

"A PDS geralmente tem só progesterona em grande quantidade. Sua ação no corpo é a seguinte: ela altera a motilidade (capacidade de se mover) das trompas, altera o muco cervical liberado pelo colo uterino, o que impede a ascensão dos espermatozoides e dificulta a implantação dos embriões", comenta a ginecologista.

Vale dizer que o efeito da pílula do dia seguinte não é anulado por conta do peso da mulher, mas diminui sua eficácia, e que alguns medicamentos também podem agir dessa forma. O ideal, por isso, é fazer uma consulta médica antes de decidir tomar a PDS.

Funcionar ou não: tem a ver com o ciclo menstrual?

Karina explica que, mesmo que a mulher "saia correndo para tomar", é preciso se atentar ao seu momento no ciclo menstrual.

Aqui vai uma continha simples, para entender, com base na cartilha do Ministério da Saúde:

- A pílula do dia seguinte age exatamente no bloqueio da ação dos espermatozoides que, por sua vez, esperam entre um e cinco dias no trato genital feminino até que se produza a ovulação.

- Se a mulher a utiliza na primeira fase do ciclo menstrual, antes do pico do hormônio luteinizante (LH), a pílula impede a ovulação ou a retarda por vários dias;

- Mas, se a pílula for tomada "muito próxima do momento da rotura folicular" — ou seja, no momento da ovulação — ela terá pouca capacidade de impedir ou postergar a ovulação. O que explica as falhas do método.

Preciso tomar pílula do dia seguinte: lembretes

A ginecologista explica que a pílula do dia seguinte deve ser tomada, no máximo, uma vez por ano.

1º É um método de emergência

"Lembrando que ela é um método de emergência, usada em casos pontuais: em casos de estupro, quando se tem relação com camisinha e ela estoura, ou quando um método contraceptivo não funciona".

2º Ela não protege de DSTs e a mulher precisa se previnir

Outros pontos a se considerar: ela não protege contra doenças sexualmente transmissíveis, como Aids, hepatite C, sífilis e HPV.

E, por trás da escolha de usar a pílula do dia seguinte, avalia Karina, deve estar a confiança da mulher em exigir do parceiro um método contraceptivo, ou usar um que não dependa dele.

"A mulher precisa aprender a ser dona do próprio corpo. Oriento a usar a pílula anticoncepcional corretamente, algo que não dependa do homem, para não passar sempre pelo terror psicológico de ter medo de engravidar".

Exigir a colocação de camisinha masculina no inicio da penetração ou andar com camisinha feminina também são atitudes que afastam a necessidade de usar o método de emergência.

3º Procure orientação médica, caso precise tomar a pílula

"Toda medicação tem que se prescrita por um médico. Se a mulher está desesperada para tomar a pílula, o ideal é que ligue para um ginecologista de confiança ou passe em um pronto socorro pra receber orientações sobre os riscos", pontua Karina.

*O nome da entrevista foi trocado a pedido dela para manter a privacidade

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