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Carreira e finanças

"Vivi 12 anos como Amélia. Não quero depender de um homem nunca mais"

Depois de mais de uma década sem trabalhar nem estudar, Andressa conquistou a independência financeira trabalhando como professora - Acervo pessoal
Depois de mais de uma década sem trabalhar nem estudar, Andressa conquistou a independência financeira trabalhando como professora Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

13/11/2019 04h00Atualizada em 13/11/2019 11h20

Andreza Invencione Leite Silva tem 38 anos e 2 filhos. Hoje trabalha como professora, mas antes passou 12 anos fora do mercado de trabalho. "Não saía, só cuidava da casa e dos filhos", conta. Tudo mudou quando descobriu uma traição por parte do marido. Depois disso, contou com a ajuda da família para voltar a estudar. "Me separei no domingo. Na segunda-feira, estava na faculdade, me inscrevendo para prestar o vestibular de pedagogia", relembra. A seguir, a professora conta como conquistou a independência financeira depois da separação:

Tudo por amor

Saí da casa dos meus pais com 20 anos. Abandonei a faculdade de Letras e fui morar com homem que hoje é meu ex-marido. Meus pais não apoiavam a relação por ele ser 12 anos mais velho. Mas isso não mudou muita coisa: eu estava apaixonada. Na época, trabalhava como balconista. Continuei no meu emprego até engravidar pela primeira vez, em 2004. Quando meu filho nasceu, o período de licença-maternidade acabou, mas não quis voltar. Eu não tinha quem olhasse a criança. Foi então que meu ex me fez a proposta: eu ficaria em casa e ele cuidaria do resto. Entramos em um acordo. Eu aceitei, pedi a conta. Passei de 2004 a 2016 trabalhando como dona de casa, uma Amélia. Não tinha vida social: muito raramente ia a um restaurante. No máximo, à praia.

Dedicação incondicional

Neste meio tempo, meu ex-marido conseguiu comprar uma loja de revenda de carros e o negócio passou a ir muito bem. Ele começou a fazer seu patrimônio e comprou a primeira casa. Em 2010, tive meu segundo filho. Ele costumava se gabar com aquela frase machista de que sua mulher não precisava trabalhar e nem estudar. Não me incentivava a nada. Mas os anos foram se passando, o jeito dele mudando... Nossa relação se transformou quando peguei ele no flagra, me traindo com uma mulher que também era casada. Não foi alguém que me contou, então não pude mais me enganar. Percebi que estava cega de amor.

Arrependimento e tentativas

Resolvi me separar. Mas, de imediato, fiquei perdida. Ele fez um teatro, me pediu perdão. Disse que eu não merecia aquilo e que queria continuar e mudar. Acabei cedendo. Achei que conseguiria perdoar e pensei nos meus filhos, que ainda eram pequenos. Mas não demorou até que a situação se tornasse insustentável. Ele continuou me traindo. Saía de casa de manhã, com a roupa limpa e voltava 23h, fedendo a bebida. Em pouco tempo, nosso convívio ficou impossível.

O ponto final

Conforme o tempo passou, não aguentei. Estava com 34 anos. Fiz uma conta: se eu vivesse por mais 30, não queria que continuasse sendo daquela forma. Tivemos uma última discussão, até que o pai dos meus filhos saiu de casa e veio o divórcio. Era um domingo. Fiquei sem chão, pensando: "o que vou fazer agora?". Comuniquei a minha família, chamei meus pais, meu irmão e abri o jogo sobre o que vinha acontecendo nos últimos anos. Fiz isso porque dependia dele para tudo: para comprar algo de comer para os meus filhos, fazer a unha, até comprar uma calcinha. A situação estava cada vez pior: ele regulava, jogava na cara, era humilhante. Minha família me orientou: assegurou que nada faltaria para os meus filhos. Eles também disseram que eu precisava voltar a estudar e se propuseram a pagar pela minha faculdade.

Recomeço e superação

Na segunda-feira seguinte, procurei um advogado e depois fui até a faculdade. Fiz a inscrição para o vestibular. Passei e comecei o curso de pedagogia em 2016. O começo foi difícil: me vi perdida, estava havia anos fora do mercado de trabalho, me sentia uma analfabeta. Mas tive força, me inspirei nos meus filhos e no desejo de não depender mais de nenhum homem. Aos poucos, fiz algumas amigas. Uma delas me contou sobre uma vaga em uma escola e me indicou. Fiz a entrevista e fui contratada no mesmo dia. Comecei como estagiária, depois auxiliar de classe e agora estou cobrindo a licença de outras duas professoras. Consegui bolsa de estudos lá para os meus filhos. Estava com o nome sujo, mas consegui limpar e comprar meu próprio carro. Hoje digo a todas as mulheres: quando acaba o respeito, é preciso sair da relação. As pessoas não mudam, elas só pioram. Não quero mais depender financeiramente de ninguém.

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