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Mães e filhos

"As fotos eternizaram meu filho", diz mãe de bebê com paralisia cerebral

Marcela segura os filhos Bruno e Luisa - Karoline Saadi
Marcela segura os filhos Bruno e Luisa Imagem: Karoline Saadi

Ana Bardella

De Universa

13/11/2019 04h00

Karoline Saadi é fotógrafa há dez anos. Há sete trabalha na própria empresa, onde faz somente registros de família. "Acompanho gestação e parto. Fotografo recém-nascidos, mães e famílias. Não trabalho com estúdios: faço ensaios externos e a domicílio porque a ideia é transmitir a essência das pessoas, mostrar quem elas são de verdade e criar memórias afetivas", explica.

Karoline Saadi gosta de captar a essência das famílias - Acervo pessoal
Karoline Saadi gosta de captar a essência das famílias
Imagem: Acervo pessoal

A gaúcha que mora hoje em Ribeirão Preto (SP), se emociona com o reconhecimento da sua trajetória profissional: ela uma das concorrentes do Golden Lens Awards, prêmio conhecido como o Oscar da fotografia, que aconteceu em Itajaí (SC) na noite de ontem. Ela concorreu nas categorias de fotógrafo revelação e melhor álbum de família. "Está sendo surreal participar. Estou no meio de profissionais que sempre admirei, me vendo de igual para igual", comenta.

Marcela prepara o filho para a fisioterapia - Karoline Saadi
Marcela prepara o filho para a fisioterapia
Imagem: Karoline Saadi

Uma das histórias que retratou foi a da administradora de empresas Marcela Mendonça. Ela tem 35 anos e é mãe de dois filhos: Luisa, de 5 anos e Bruno, de 2. O que mais chama atenção na sua rotina são os cuidados especiais com o filho mais novo. Após uma complicação na gravidez, o menino nasceu sem vida. "Ele passou 13 minutos assim antes que os médicos conseguissem trazê-lo de volta", conta. O episódio trouxe complicações para a sua saúde: Bruno tem paralisia cerebral e se alimenta por sonda.

Antes do nascimento do caçula, Marcela passou por uma experiência traumatizante: ela engravidou e, aos nove meses, teve um descolamento de placenta. Com isso, o bebê, Arthur, não resistiu. "Já havia enterrado um filho, por isso agradeci muito a Deus por não ter me levado o segundo", comenta. Conheça a seguir detalhes sobre a sua história:

Luisa e Bruno durante ensaio - Karoline Saadi
Luisa e Bruno durante ensaio
Imagem: Karoline Saadi

"Mergulhei na maternidade quando minha primeira filha, Luisa, nasceu. Amamentei até os 2 anos, tive parto normal. Fiz todas as coisas legais que uma mãe pode fazer. Quando ela estava com 1 ano e meio, engravidei novamente. Porém, no final da gravidez, quando já estava com nove meses, tive um descolamento de placenta e ele não sobreviveu. Foi um baque. Fiquei muito mal, me afundei.

Tempos depois, fui diagnosticada com trombofilia hereditária. De acordo com os médicos, a doença foi a responsável pela complicação durante a gestação. Os médicos disseram que se eu fizesse um tratamento, tudo ficaria bem. Então engravidei novamente. Usei injeções anticoagulantes na barriga neste período. Apesar disso, com 31 semanas, tive novamente o descolamento. Mais uma vez, um filho meu nasceu sem vida. Bruno ficou 13 minutos assim. Mas então foi reanimado e, pela bondade divina, voltou. Em seguida, teve uma hemorragia cerebral grau quatro, uma das mais graves, e o quadro evoluiu para uma hidrocefalia. Com isso, precisou se submeter a uma cirurgia com poucos dias de vida e prematuro. Ele se recuperou, mas fomos informados de que ele seria uma criança com deficiência.

Nenhum pai ou mãe sonha com isso. Mas agradeci a Deus porque já tinha enterrado outro filho. Me senti grata por desta vez, Deus ter deixado meu filho com a nossa família. Quando saí do hospital, tudo era novo. Fomos notando a extensão das sequelas, mergulhando em um mundo de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, que nem sonhava em conhecer antes. Ele se alimenta por sonda, porque não consegue comer por boca. Mas nós não desistimos. Fazemos o máximo possível pelo seu bem-estar.

Conforme o tempo foi passando, comecei a pensar que não podia ficar só trancada dentro de casa, vendo todo mundo ter dó de mim. Meu filho está lutando, é bonito, é saudável. Só é deficiente. Então criei um Instagram de mães, pensando em ajudar quem passa por uma situação parecida. Vi que as pessoas começaram a se interessar. Queriam entender o nosso dia a dia. Então comecei a mostrar que somos uma família normal: vamos para shopping, restaurantes, praias. Muitas vezes esbarramos na acessibilidade, temos algumas limitações... Não encontro, por exemplo, trocadores para crianças especiais. Mas, mesmo com o problema severo de locomoção do meu filho, dou um jeito, eu levo, vamos em todos os lugares.

Bruno durante a fisioterapia, que faz diariamente - Karoline Saadi
Bruno durante a fisioterapia, que faz diariamente
Imagem: Karoline Saadi

Conheci a Karol [fotógrafa] através de uma amiga e nos demos muitíssimo bem. Ela me disse que queria fazer um ensaio com a minha família e eu topei. Não é uma rotina de outro mundo: é diferente, mas nós somos normais, felizes. Temos momentos difíceis como qualquer outra pessoa. Então ela veio em casa e começou a tirar as fotos. Foi tudo muito natural, fomos conversando. Não teve aquela coisa de "sorri pra mim". Simplesmente mostramos a vida que a gente tem. O resultado foi muito gratificante. Ela eternizou meu filho, minha família e eu agradeço muito por isso. Se um dia o Bruninho faltar, se ele não estiver mais entre nós, vou ter uma recordação linda aqui em casa".

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