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Calças de cintura baixa voltarão diferentes, diz especialista em jeans

Amy Leverton: a cintura baixa está de volta... Mas tudo na moda se reinventa, não é mesmo?  - Reprodução
Amy Leverton: a cintura baixa está de volta... Mas tudo na moda se reinventa, não é mesmo? Imagem: Reprodução

Marcos Candido

De Universa

12/11/2019 04h00Atualizada em 12/11/2019 18h13

Amy Leverton sentou em um sofá próximo a uma arara com dezenas de peças jeans. As calças e jaquetas estavam enfileiradas e formavam uma espécie de cortina, dando unidade à composição. "O que podemos fazer de novo com o jeans daqui para a frente?", diz Amy ao alisar uma calça.

A inglesa é uma observadora mundial do jeans. Em 2015, lançou o livro "Denim Dudes", no qual explora a relação das pessoas com o tecido mais popular do mundo ocidental. Ela também trabalha consultora de moda para grifes como Levi's, Kingpins and Vivienne Westwood.

A partir da publicação, Leverton também conheceu processos sustentáveis para a produção de jeans em países como Vietnã e Bangladesh. Por lá, produtos químicos usados para lavar e tingir jeans envenenam rios e consomem milhares de litros de água.

No Brasil à convite da Vicunha, referência em soluções jeanswear que está lançando um novo posicionamento no mercado, Amy veio conhecer fábricas, coleções e mediar um debate em que tentou responder a seguinte pergunta: qual o futuro do jeans? Em entrevista exclusiva para a Universa, ela dá uma dica: as calças de cintura baixa vêm por aí. Vocês querendo ou não.

Leia trecho da conversa a seguir.

O jeans existe e é usado há décadas, mesmo com mudanças de gerações. Um dia ele vai desaparecer?

Todos vamos desaparecer um dia [risos]. Creio que o jeans perdura porque todos conseguem se identificar: é um tecido universal, maleável. Você pode usá-lo mais lavado, estampado, personalizado, pintado à mão. Você pode ser punk, uma pessoa mais casual. Enquanto existir humanos, existirá o jeans.

“Linha jeans "Eco Cycle" da Vicunha -- "less water e recycle -- produzidos com técnicas que vão da economia de até 95% de água nos processos de acabamento à menor utilização de matéria-prima viagem, com o uso de fibras reciclada - Reprodução
“Linha jeans "Eco Cycle" da Vicunha -- "less water e recycle -- produzidos com técnicas que vão da economia de até 95% de água nos processos de acabamento à menor utilização de matéria-prima viagem, com o uso de fibras reciclada
Imagem: Reprodução

Como o questionamento sobre diversidade de corpos impactou a maneira como vestimos jeans?

Marcas incríveis estão pensando em todos os corpos, não só nas modelos padrão. Marcas como Universal Standard e Good America apresentam catálogos com diversidade de modelos e sites que mostram o tamanho verdadeiro das peças. Se esse investimento não é feito, perde-se uma boa fatia dos consumidores. Há marcas emergentes que já estão nessa, mas ainda faltam as grandes darem um passo à frente neste sentido. O jeans é um bom começo: é universalmente aceito e vestido. Uma calça jeans é perfeita, pois transcende tamanhos, gêneros e raças.

As calças de cintura baixa vão voltar à moda?

Eu tenho visto no Instagram [risos]. Nos anos 90 houve um revival dos anos 70. Na moda, porém, as coisas não voltam exatamente as mesmas, certo? Lembro que usava calças slim com bocas de sino largas, com a cintura cada vez mais baixa. Foi Alexander McQueen quem bombou a cintura baixa nos anos 90. Eu tinha uma calça de cintura baixa naquela época e ficava com os pelos pubianos à mostra [risos]. Não entro mais nesse tipo de calça, mas ao mesmo tempo acho desafiador esse retorno.

John Turner/Divulgação
Imagem: John Turner/Divulgação

Amy Leverton, criadora da publicação Denim Dudes - John Turner/Reprodução/Denim dudees
Amy Leverton, criadora da publicação Denim Dudes
Imagem: John Turner/Reprodução/Denim dudees

Tem algo de diferente que possa ainda ser feito em relação ao jeans?

Sempre penso nisso. Vejo coleções e me pergunto: o que há de novo agora? Estamos repetindo o que já fizemos? As tendências de moda são cíclicas. O color block não é novo, por exemplo. Já o vimos, mas ele retorna um pouquinho diferente e mais moderno. Uma das marcas que têm feito isso é a Y/Project, que é ousada, cria peças malucas e é muito interessante. Creio que pequenos ajustes aqui e ali, com novas lavagens de tecido, vão atualizar o jeans.

Y/Project lançou jeans com shortinho preso a um calça, que pode ser desamarrada. Em tabloides inglesas, peça foi vista como de gosto duvidoso - Divulgação
Y/Project lançou jeans com shortinho preso a um calça, que pode ser desamarrada. Em tabloides inglesas, peça foi vista como de gosto duvidoso
Imagem: Divulgação

O jeans impõe desafios à sustentabilidade, especialmente pelo uso de ácidos e outros produtos químicos para criar efeitos como o desbotado. O que tem sido feito para uma agenda mais sustentável?

A tecnologia abre, e está abrindo, novas maneiras para a lavagem do jeans. Em cinco anos, devemos erradicar o permanganato de potássio do processo e usar menos água na produção. A indústria já está criando métodos para a redução de químicos pesados. É o caso do laser.

Como funciona o laser?

É curioso. Já vi o laser sendo usado na prática várias vezes, mas parece sempre mágica. Basicamente, o raio laser queima o índigo [corante que dá cor ao denim, o tecido do jeans] e aplica a cor. Em vez de lavar o índigo, a cor é aplicado por essa queima. Você consegue ser muito preciso, criando tons mais lavados e vintage. É uma tecnologia nova que tem gerado novos empregos. Se antes havia o profissional dedicado à técnica de lavagem com água e ácidos, agora há quem opera o laser para criar o mesmo efeito.

O uso de produtos químicos se dá porque é mais barato do que o laser?

Creio que sim. O laser vai demorar a tomar toda a indústria devido ao investimento preciso para instalá-lo em uma fábrica. A longo prazo, porém, substituem os produtos químicos e o desperdício de água e barateiam o custo da fábrica. Conheci uma fábrica muito interessante no Vietnã e me disseram que o retorno pelo uso de lasers só veio após seis anos. Apesar disso, continuam a usar produtos químicos e água, mas com foco na redução de todos eles. É um investimento grande e longo prazo, mas vale a pena.

Essas inovações sustentáveis são capazes de acompanhar a velocidade de uma empresa fast fashion?

A longo prazo, a indústria vai perceber que o processo por laser é mais rápido que o método de raspagem e lavagem do tecido. Na verdade, os métodos alternativos são até melhores e mais rápidos para a indústria. A Zara, por exemplo, usa fábricas que produzem com laser. Fui a uma fábrica no Paquistão que produz para Zara onde há filtragem de ar, arejamento e máquinas a laser ao lado de lavagens convencionais. Essa unidade também trabalhava para marcas como G-Star e Uniqlo.

O uso de produtos químicos, que podem ser degradantes, também se deve a grandes empresas usá-los em países mais pobres?

Eu diria que sim. Acredito que todo governo quer ter uma legislação mais ágil para avançar na agenda sustentável mais rápido. Os governos ajudariam se oferecessem leis e incentivos. Ao mesmo tempo há fábricas que estão apostando nisso sem que ninguém mande. Estive em Bangladesh, Paquistão, Vietnã, China, Estados Unidos e conhecerei fábricas no Brasil. Claro, só estive em fábricas legais. Mas digo que há como ter fábricas ruins e boas em todos esses lugares. No Brasil, há como produção de algodão, indústria têxtil e mercado interno forte. É possível fabricar, vender e comprar tudo em um só lugar. Sou da Inglaterra. Não temo isso lá. A produção vai para países como Turquia, de onde trazemos e compramos o que o torna consequentemente mais sustentável.

Você se lembra do seu primeiro jeans?

Eu era uma 'molecona' no interior da Inglaterra e usava calças OshKosh, uma calça larga produzida nos Estados Unidos. Tinha 4 anos, minha mãe me vestia assim, com as calças do meu irmão, e eu odiava. Tem até um foto dessa época na qual eu apareço vestida em um "saco de batata" tão largo e enorme que cobria meus sapatos. Na época, era para ser mais prático do que estiloso. Já na adolescência me aproximei da moda e comecei a fazer minhas próprias roupas.

Por que e como o jeans pode contar a história de uma pessoa?'

Uma roupa jeans começa a ter marcas com o tempo, que refletem como você anda, os bolsos onde coloca a carteira, o celular. O jeans conta uma história do corpo. Você pode se expressar da maneira que quiser.

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