Topo

Relacionamentos

'Sou cego e desisti de usar o Tinder': como apps de namoro excluem PCDs

Um homem segura um aparelo celular. Ele se chama Gustavo é cego e está dentro de um quarto - YouTube
Um homem segura um aparelo celular. Ele se chama Gustavo é cego e está dentro de um quarto Imagem: YouTube

Marcos Candido

De Universa

08/11/2019 04h00Atualizada em 08/11/2019 14h28

O jornalista e ativista Gustavo Torniero, 24, é cego e desistiu de usar aplicativos de namoro há dois anos. Você deve saber que apps como Tinder e Happn são cheios de fotos em praias paradisíacas, sorrisos, botões com corações e estrelinhas. Pois é. Na prática, nada disso funciona para o Gustavo.

"Eu me sinto excluído de um contexto social que existe, mas do qual não faço parte. É problemático ter serviços que não possibilitem que todas as pessoas tenham a mesma oportunidade", ele diz.

Segundo a lei brasileira, programas de computador e aplicativos são recomendados a oferecer acessibilidade a quem tem algum tipo de deficiência. Por exemplo: pessoas cegas usam softwares que leem e transformam em áudio o que está escrito na tela. Para isso é preciso que o nome do arquivo seja uma descrição do que aparece na imagem. Assim o programa pode ler e transformar uma imagem em áudio.

Assista:

Exemplo: em vez de nomear uma foto como "foto1", que tal nomeá-la como "uma mulher sorri em um apartamento com parede amarela" antes de carregá-la para a internet?

Quando existem botões a serem pressionados, é preciso que essa opção de descrição aconteça na etapa de construção e programação do site ou aplicativo.

Assim, pode ser evitado que um botão seja descrito apenas como "botão" sem ter uma explicação sobre qual é a função dele. Fica difícil distinguir like, de superlike e dislike nesse universo. E, convenhamos, sem essa distinção fica difícil garantir um match certeiro.

"Minha experiência com aplicativos de paquera não foi positiva. Eram muito inacessíveis e não havia nenhum campo para acrescentar uma descrição da imagem", explica Gustavo. Hoje, ele acredita que a internet está mais acessível, mas diz que ainda há barreiras enormes para que um cego possa viver no mundo digital.

"A pessoa com deficiência visual já passa por uma reticência das pessoas para receber aproximação. Se a sexualidade já é um tabu na sociedade normal, imagina como isso afeta especificamente a vida e a sexualidade de quem tem deficiência?", diz.

O Brasil perde dinheiro com a falta de acessibilidade

Desde 2015 o Brasil tem uma lei que obriga endereços da internet a terem recursos para facilitar e incluir quem tem deficiência. Apesar disso, o chamado Estatuto da Pessoa com Deficiência, hoje Lei Brasileira de Inclusão, não prevê uma multa para quem descumprir esse tipo de recomendação.

"Nós do movimento pela acessibilidade estamos com o desafio para que Brasília ouça e defina uma multa a quem não cumpre o que está na lei", explica Simone Freire, idealizadora do movimento Web Para Todos.

A organização treina empresas e reivindica uma internet mais acessível. Em outubro, a Web Para Todos lançou uma campanha para tratar da acessibilidade em aplicativos de namoro. Não à toa, a falta de inclusão pesa no bolso das grandes empresas.

"O Brasil tem 45 milhões de pessoas com algum tipo deficiência de acordo com o IBGE. Segundo uma pesquisa nacional de 2015, o país gera R$ 5 bilhões só em compra de produtos como bengala e softwares de leitura", explica.

Aparelhos celulares com sistema Android e Apple possuem recursos para ler este tipo de informação. Universa tem um botão no início do texto que narra o texto quando é pressionado.

Segundo Simone, a família de alguém com algum tipo de deficiência também costuma deixar de usar um aplicativo que não oferece acessibilidade ao parente. Assim, há um efeito em cascata que afasta as empresas que não promovem inclusão para bem longe.

"O Banco Mundial afirma que há um potencial de consumo de US$ 7 trilhões em todo o planeta para serem consumidor pelas mais de 1 bilhão de pessoas com algum tipo de deficiência", diz a especialista.

O outro lado da história

Universa questionou o Tinder sobre como eles estão trabalhando para serem mais inclusivos. A reportagem vai ser atualizada quando eles se posicionarem.

Relacionamentos