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Se a Idade Média fosse hoje, você seria considerada uma bruxa

Fernanda Montenegro na revista Quatro Cinco Um: uma bruxa moderna - Reprodução/Instagram
Fernanda Montenegro na revista Quatro Cinco Um: uma bruxa moderna Imagem: Reprodução/Instagram

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

31/10/2019 04h00

As bruxas estão mais na moda do que nunca. Um exemplo é o universo místico marcar presença recentemente em desfiles de diversas coleções de grifes internacionais como Viktor&Rolf e Valentino, com o devido replique nas passarela da SPFW.

Em meio à onda "good vibes" das redes sociais — e o consequente efeito rebote que tenta separar o que é legítimo e o que não passa de positividade tóxica — há um interesse crescente por ervas, cristais e tudo o que remeta à natureza. Que, aliás, está em risco em todo o planeta e, portanto, alvo de atividades de valorização e preservação. Além do retorno de Angelina Jolie às telas com "Malévola - Dona do Mal", livros sobre o tema vêm sendo lançados com certa frequência nos últimos tempos, inclusive uma nova edição do famoso "O Martelos das Feiticeiras", uma espécie de "bíblia" dos inquisidores, pela Editora Record.

Tendências e modismos à parte, o fato é que, segundo historiadores, o interesse pelo misticismo sempre costuma ganhar mais evidência em momentos de obscurantismo e conservadorismo na sociedade. O crescimento dos movimentos de extrema direita em todo o mundo são uma prova dessa teoria. Não à toa, a revista literária "Quatro Cinco Um" colocou na capa da sua edição de outubro Fernanda Montenegro vestida de bruxa.

Mais do que celebrar novos títulos chegando às livrarias, entre os quais se destacam a biografia da atriz em seus 90 anos de idade, e celebrar sutilmente o Halloween, a publicação quis homenagear a força e a resistência de Fernanda como mulher.

Em épocas tradicionalistas, é ao comportamento feminino que todos os olhares se voltam. "Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados", disse certa vez a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986).

Associar o movimento feminista à bruxaria com lemas do tipo "somos as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar" é uma ligação mais do que pertinente. Porque a perseguição às bruxas que marcou a Idade Média e durou quase quatro séculos matou, segundo cálculos não oficiais, cerca de 100 mil pessoas, das quais 85% eram mulheres. O júri, é importante frisar, não era nada imparcial: composto somente de pessoas que acreditavam em bruxaria, na maior parte das vezes o veredicto concedido era o da culpa e consequente condenação à morte na forca, na fogueira, por decapitação ou esmagamento com pedras.

Mais do que investir num arroubo violento de disseminação do Cristianismo na Europa, o Tribunal do Santo Ofício ou Inquisição se valia de argumentos misóginos para perseguir, torturar e matar mulheres. Se traçarmos um paralelo com os dias de hoje, as razões usadas para acusar alguém de bruxaria serviriam para lançar à fogueira praticamente qualquer mulher. Exemplos? Eis alguns:

Estratégias bizarras de identificação

Um dos métodos de mais insólitos consistia em colocar a suspeita em um prato de uma grande balança. No outro lado, uma Bíblia gigantesca era colocada. Se a coitada pesasse menos do que o livro, o que geralmente acontecia, sofria a acusação de ser uma feiticeira por ter uma leveza "sobrenatural". Os examinadores procuravam por "marcas do diabo", o que incluía sinais corporais dos mais diversos tipos: pintas, marcas de nascença, cicatrizes... Um mamilo muito diferente do outro também era considerado um rastro maligno de que o diabo teria sugado o seio.

Se levarmos em conta que a maioria das mulheres tem um seio diferente do outro, dá para imaginar a quantidade de vítimas de acusação. Não contentes, os inquisidores acreditam que existiam sinais "invisíveis" no corpo das mulheres que seriam insensíveis à dor e não sangrariam. Para comprovar a tese, espetavam-nas com agulhas compridas ou as cortavam com estiletes.

Torturas que provocavam alucinações e confissões

A tortura sempre foi o recurso mais vil para degradar um ser humano. Durante a Inquisição, as suspeitavas enfrentavam todo tipo de violência. Antes da "sessão", tinha início um ritual de afronta psicológica: as mulheres costumavam ser despidas para evitar que escondessem algum objeto "mágico" costurado em suas roupas. Todo o cabelo era raspado. Entre as táticas mais cruéis, prendiam um aro de ferro com quatro pontas afiadas colocado na boca.

A mulher, então, era presa à parede atrás dela, de modo não conseguisse se deitar ou descansar a cabeça. Além disso, os homens encarregados de vigiá-la não deixavam com que dormisse. Após alguns dias de privação de sono, as vítimas passavam a ter alucinações. Era o momento ideal para o interrogatório: não perguntavam se a pessoa tinha ou não cometido determinada coisas, mas quando e principalmente como fizera.

Na Alemanha, torturavam as mulheres na cremalheira, uma estrutura de ferro com um rolo de madeira em uma ou ambas as extremidades. As vítimas tinham as mãos atadas a um rolo e os tornozelos atados ao outro. A proposta era esticar a pessoa até deslocar suas articulações ou romper seus ossos, provocando dor o bastante para qualquer um confessar pacto com o demônio e maldades. Na Suécia, torturavam os filhos das acusadas, que eram machucados até revelar enredos fantasiosos e diabólicos bem ao gosto do Santo Ofício.

Propagação de um manual preconceituoso e misógino

O inquisidor alemão Heinrich Kramer, também conhecido pelo nome "latinizado" Heinrich Institoris, foi o responsável pela publicação em 1486 do "Malleus Maleficarum" ("O Martelo das Feiticeiras"), com a aprovação papal. Em 1520, o manual já contava com 14 reedições. Mais do que um manual para identificar bruxas e suas possíveis atividades, como transar com o demônio, seduzir homens adormecidos, se transformar em animais e comer criancinhas vivas, o livro é um verdadeiro tratado contra o gênero feminino.

"A mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente" é um exemplo das muitas ideias misóginas que percorrem as páginas. As mulheres, segundo a obra, teriam maior suscetibilidade aos apelos da feitiçaria por serem mais impressionáveis e fracas intelectual e fisicamente. Além disso, Kramer defende que toda mulher conta com uma língua traiçoeira e é chegada à fofoca, por isso seria mais fácil ensinar suas artes mágicas às amigas.

Idealização machista dos papéis femininos

O fortalecimento do Cristianismo tornou a sociedade cada vez mais patriarcal e cada vez menos amigável aos direitos das mulheres. Foi nessa época que surgiu a ideia, ainda disseminada até hoje por conservadores, de que existe a santa e a bruxa, ou seja, a mulher "para casar" e a mulher "para fornicar". A figura de Eva lembrava constantemente a fragilidade feminina diante da tentação (o sexo) e sua consequente sedução pecadora do homem. Isso não significava que os homens eram "fracos" diante do sex appeal das mulheres, mas sim que elas exerciam seus truques e sortilégios para levá-los "à perdição" e forçá-los "a pecar". A menstruação sempre foi alvo de tabu, curiosidade e medo ao longo da história, o que a levou a ser associada aos assuntos sobrenaturais.

Perseguição às minorias

Em geral, as mulheres perseguidas faziam parte de um grupo já excludente por si só: o das mulheres livres, principalmente sob a ótica sexual, e/ou que lidavam com questões femininas: solteiras, viúvas, órfãs solitárias, camponesas, idosas, mendigas, parteiras, adúlteras, prostitutas, aquelas que viviam sozinhas ou faziam algo para evitar a maternidade. Muitas dessas, sem papel definido na sociedade — o que pode ser interpretado como "sem a defesa e a proteção de um pai, um irmão ou um marido" — se tornaram presa fácil para os caçadores de bruxas. O que houve, portanto, foi uma espécie de "higienização" de figuras indesejáveis na sociedade.

Com a pressão da Igreja, tornou-se comum colocar na conta dessas mulheres, que já não eram benquistas na vizinhança, infortúnios como mortes de crianças, desaparecimentos de rebanhos e pragas nas plantações. Muitas das acusadas, impelidas pelo medo e pela culpa, acabavam acreditando em sua culpabilidade e confessavam crimes não cometidos.

A invenção da imprensa na década de 1450, justamente na época em que se disseminavam os tratados sobre bruxaria, propagou mais rapidamente a perseguição através de, pense bem, fake news. Com tanta perseguição, cabia às que não pertenciam a esses "grupos de risco" sossegarem o facho e se comportarem para não criarem motivos para desconfianças. Muitas saíam pouco de casa: o controle da sexualidade e reclusão ao domínio privado sempre constituíram os dois pilares da opressão feminina, algo que só passou a mudar no século XX.

Ter um clitóris

Sim, isso mesmo! Em 1593, um inquisidor médico relatou a existência do clitóris pela primeira vez. Ao observar uma mulher acusada de bruxaria, ele descreveu o órgão como o "bico do seio do diabo". Assim, durante a Idade Média, o clitóris foi acusado de ser responsável pelo lesbianismo, pela cegueira e pelo desequilíbrio mental. Quando "encontrado" por algum inquisidor (ou seria abusador?), provava a ligação com bruxaria.

Livros consultados:

  • "História da Bruxaria" (Ed. Goya), de Jefrrey B. Russel e Brooks Alexander
  • "O Guia dos Curiosos - Sexo" (Panda Books), de Marcelo Duarte e Jairo Bouer
  • "O Lado Sombrio dos Contos de Fadas - As Origens Sangrentas das Histórias Infantis" (Ed. Abril),
  • de Karin Hueck
  • "O Martelo das Feiticeiras" (BestBolso), de Heinrich Kramer e James Sprenger

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