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Good vibes only e mais 11 frases motivacionais que só te derrubam

Boas vibrações sempre? - iStock
Boas vibrações sempre? Imagem: iStock

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

27/10/2019 04h00

Um simples passar de olhos pelo feed do Instagram e lá estão elas: frases ou citações de autoajuda - muitas com ilustrações fofas, com o objetivo óbvio de chamar a atenção — com uma pegada motivacional e inspiradora, tentando gerar sensações imediatas de bem-estar e otimismo.

Sim, tentando, porque às vezes a realidade da pessoa do outro lado da tela inclui problemas de montão no trabalho, relacionamentos complicados, um cansaço brutal e desanimador. E, com isso, claro, surge a culpa: com tanto estímulo "do bem" e tanta gente feliz da vida nas redes sociais, como é possível não se deixar contagiar? Essa percepção amarga causada pelo excesso de #goodvibes na internet tem nome — positividade tóxica — e vem provocando um movimento de alerta entre vários profissionais de saúde mental. "Os casos de depressão têm aumentado drasticamente, o que me leva a crer que essa excitação toda não é alegria, e sim uma capa, um disfarce. Não se trata de uma autoimagem real, mas da imagem que quem posta quer que os outros vejam", diz a psicóloga Maria de Melo, autora do livro "A Coragem de Crescer" (Ed. Ágora).

Para a psicóloga clínica Adriana Russo, de São Paulo (SP), frases motivacionais sempre estiveram na moda, mas hoje parece que vivemos uma infestação delas. "O tal do 'mindset' geral é de produtividade, realização e felicidade constantes, um admirável mundo novo que pode ser bastante prejudicial para a saúde mental do indivíduo", afirma.

Já Érika Maracaba, psicóloga cearense radicada em Berlim, na Alemanha, observa que muitas das frases que se popularizam como motivacionais não são tão equivocadas em si, mas sim no modo como as apreendemos em nossa dinâmica social atual, cujos valores ideológicos ignoram problemas macropolíticos e desigualdades, incentivando que as pessoas explorem a si mesmas e acreditem que são 100% responsáveis pela maneira como vivem.

"A positividade tóxica hoje tem papel fundamental nisso, propagando uma pressão aparentemente inofensiva para que todos estejam sempre motivados e felizes. O problema é que o efeito colateral de tanto 'incentivo' é a sensação de culpa por não se estar tão feliz quanto os outros e quanto supostamente poderia. Se essa dinâmica fosse tão inofensiva e positiva quanto se diz, não veríamos essa proliferação de mal-estar, transtornos mentais e suicídios", declara.

Algumas frases já viraram lugares-comuns no universo instagramável, de tanto que são postadas. Confira, a seguir, por que elas são nocivas, prejudiciais e tem um quê de fake news no conteúdo:

"Good vibes only"

"Quem, de verdade, consegue ter APENAS boas vibrações?", questiona Gabriela Sayago, pedagoga, especialista em Psicologia Positiva e pós-graduada em Neuropedagogia pelo Instituto Saber, em São Paulo (SP). "Todo mundo passa por aquele dia que está de mau humor e não tem nada mais natural do que isso. Afinal de contas, somos humanos e precisamos aprender a lidar com emoções o tempo todo! Em alguns momentos você pode se sentir de baixo astral e, ao ler algo assim, acaba se sentindo responsável por atrair uma vibração ruim. Não se apegue a isso", diz Gabriela. Para ela, o ideal é se perceber e entender se é capaz de manejar o próprio humor.

"Se você consegue lidar com os seus dias de baixa e sabe como se recolher e como se acolher, nada mais importa", diz. "Uma tristeza bem administrada, segundo Maria de Melo, é fundamental para o autoconhecimento e para valorizar os instantes de alegria. Além do mais, não podemos fugir das vibrações negativas, mas sim aprender a não nos apegar a elas. "O que tem acontecido é uma intolerância a qualquer mal-estar e a negação de alguns sentimentos. Isso é péssimo, pois quanto menos enfrentamos as bad vibes, mais perdemos a habilidade de lidar com elas. E há situações em que não dá para seguir brincando de jogo do contente. Não há como se ter prazer o tempo todo. Essa é mais uma frase que propaga, ainda que sutilmente, que não conseguir sentir boas vibrações, mesmo que temporariamente, é sinônimo de incompetência e fracasso", avisa Érika.

"O seu sucesso depende exclusivamente de você"

Segundo a psicóloga Mara Lúcia Madureira, especializada em terapia cognitivo-comportamental, essa falácia é comumente encontrada em perfis "repletos de gratidão, de humanos apapagaiados com muita necessidade de expressar-se e pouca ou nenhuma capacidade crítica". "Na verdade, as chances de sucesso sem uma rede de apoio familiar, educacional, social ou de outra instituição na formação de uma pessoa, são quase escassas. O sucesso é insustentável sem interdependência, sem uma rede de contatos, clientes, fornecedores, consumidores, instrutores, seguidores, apoiadores, patrocinadores, etc. O que há, de fato, é uma overdose de egoísmo, ingratidão e uma genialidade bestial nesse tipo de mensagem", diz Mara.

"Enquanto eles dormem, você deve trabalhar"

Com o êxito de livros como "O Milagre da Manhã" (Ed. BestSeller), de Hal Elrod, criou-se um conceito moderno do velho ditado "Deus ajuda quem cedo madruga". Ou seja, é preciso acordar muito cedo - e com isso dane-se o relógio biológico individual e as particularidades de cada profissão - para se tornar bem-sucedido e ganhar dinheiro e prestígio. "Porém, a exigência da produtividade constante vai contra a própria natureza humana", declara Adriana Russo. De acordo com a psicóloga, a neurociência já sabe que é preciso intercalar momentos de concentração com momentos de descontração. É preciso descansar. "Além do aspecto biológico, também em termos psíquicos essa mentalidade de produção constante pode causar um excesso de cobrança e um nível alto de exigência por resultado e performance que, por sua vez, tem o risco de desencadear crises de ansiedade, entre outras angústias", fala a especialista.

"Você não precisa ter sucesso para ser feliz, você precisa ser feliz para ter sucesso"

Sucesso e felicidade são conceitos individuais e subjetivos que, na opinião de Mara, dialogam com a sensação de alcançar o que desejou e sentir satisfação por isso. "Alguns se sentem plenamente realizados com casamento e família, outros com renda suficiente para viver com qualidade, segundo critérios, também, pessoais e subjetivos. Há os que encaram o sucesso como chegar ao topo da carreira ou felicidade como fortuna, porém sucesso e felicidade podem ser definidos como liberdade de tempo e de ideias, sem relação alguma com dinheiro. É importante suspeitar de quem tem sempre respostas prontas para problemas inventados para dar sentido a tais respostas", pontua.

"Ser feliz é uma questão de escolha"

"Esse tipo de frase só prejudica e banaliza todo o trabalho que é feito em relação à conscientização e ao respeito em torno da depressão, uma doença seríssima, por fazer parecer que em um momento tão difícil a felicidade é simplesmente uma questão de poder escolher", pondera Gabriela. Não tem nada a ver com escolha: felicidade é um estado psíquico momentâneo, baseado em um contexto muito específico e individual, dependente de variáveis que podem surgir e desaparecer aleatoriamente. "Além disso, seu oposto, a tristeza, é um sentimento inevitável e também necessário para que possamos experimentar e tolerar angústias e frustrações. Reprimir a possibilidade de ficar triste e exigir a felicidade constante, colocando no sujeito a responsabilidade sobre senti-la ou não, é perigoso na medida que o leva a experimentar culpa e frustração por não conseguir controlar sentimentos que não são totalmente controláveis", explica Adriana. Para Érika Maracaba, é bem verdade que precisamos fazer boas escolhas em nome de nossa felicidade, mas essa frase escrita em cada esquina ou rede social parece cobrar e acusar quem não está tão feliz em seu atual contexto. "Será que num país desigual como o Brasil, onde boa parte da população tem que aceitar condições de trabalho adoecedoras para viver com o mínimo de dignidade e conforto, podemos afirmar que elas não são felizes por questão de escolha?", indaga.

"Você vai superar"

Superar qualquer situação ruim depende de um esforço não só individual, mas também de uma série de condições psíquicas que não são universalmente garantidas. "Sem um olhar para o indivíduo em particular, sua dinâmica psíquica, seu histórico, seu contexto atual, suas dificuldades, suas idiossincrasias, é impossível afirmar que ele seja capaz de superar um determinado trauma", conta Adriana. E mais: não superar não é o problema. O problema é ter que enfrentar tudo sozinho e ainda ouvir por aí que caso não supere a falha é sua - frustração, decepção consigo mesmo e depressão são alguns dos efeitos colaterais.

"Tudo tem seu lado positivo"

Não, algumas coisas não têm. Ou, pelo menos, não têm um lado positivo que pode ser percebido na hora. "Perdas de pessoas, coisas ou situações muito importantes ou significativas são sentidas de forma violenta. Poder viver esse luto é fundamental para a saúde psíquica. Querer sempre mostrar o lado positivo de qualquer situação que o outro esteja vivendo é desconectar-se desse alguém, é demonstrar incapacidade de empatia, é distanciar-se de sentimentos e negar uma parte importante da vida", diz Adriana. Há sofrimentos que precisam ser sofridos, e não escondidos - porque eles nunca ficam escondidos de verdade.

"Nunca desista"

A psicóloga Maria de Melo contesta: "E qual o problema de desistir?". Para ela, essa frase é uma armadilha por não considerar a gravidade dos problemas de cada pessoa. "Como uma mulher que vive uma relação abusiva e desastrosa deve encarar essa leitura? Você vai dizer para ela não desistir do parceiro tóxico, porque em algum momento ele pode mudar? Desistir, em muitos casos, também é sinônimo de força, de sabedoria", declara. Outras variações dessa frase são "Continue a nadar", o lema da peixinha Dory na animação "Procurando Nemo", e "Quem acredita sempre alcança".

Para Gabriela Sayago, é claro que precisamos trabalhar a resiliência, a força de vontade e a paciência. "Porém, também precisamos entender que, às vezes, o mais inteligente a se fazer pode ser desistir. Isso não é vergonha alguma se você entender essa desistência como um ajuste de rota. Em muitos casos, precisamos abrir mão de um projeto para iniciarmos outro que pode nos trazer ainda mais felicidade", ressalta Gabriela.

"Algumas pessoas enxergam o copo meio vazio; outras, o copo meio cheio"

"Será que não podemos simplesmente ver um copo?", brinca Gabriela, que afirma que a toxicidade da frase está no fato de, mais uma vez, fazer com que as pessoas se cobrem em ver as coisas por uma determinada ótica. "Tudo realmente pode e deve nos ensinar algo. Somos seres incompletos e os aprendizados nos transformam. No entanto, quando achamos que devemos ver apenas coisas boas em tudo o que nos acontece isso tende a nos aprisionar e muitas vezes encobre a real lição, que costuma ter sua raiz na dor", fala a psicóloga.

"Saia da zona de conforto"

Segundo Érika, a chamada zona de conforto consiste em um campo emocional familiar que pode nos prender a situações que não nos fazem bem. Nesse sentido, sair dela é fundamental. Porém, a repetição massiva desse slogan motivacional pode, para muitos, tornar a sensação de bem-estar algo a ser temido, um alerta que soa quando saímos da ansiedade de sempre buscar por algo: "Opa! Zona de conforto! Tem algo errado! Estou perdendo vida!" Mas será mesmo que temos de estar buscando conquistar ou realizar algo o tempo inteiro? "Não é por acaso que estamos enfrentando tanta dificuldade para relaxar. Por mais que racionalmente seja óbvio que não é disso que a tal zona se trata, no resto do nosso raio de emoções estão, mesmo que em forma de sussurros, os alertas para que não relaxemos nunca. Nossas emoções focam mais nas entrelinhas das frases 'motivacionais' que nossa racionalidade pode perceber", alerta.

"Vai. E se der medo, vai com medo mesmo"

"Sim, existem situações em que precisamos superar medos para evoluir e conquistar algo que seja importante para nossa vida. O problema é que muitos têm entendido que o medo é algo totalmente ruim, a ser evitado, ignorado, um sentimento de pessoas fracas que não sustentam o pensamento positivo", alerta Érika. Entretanto, é preciso lembrar que o medo é feito para nos proteger, é um sinalizador para que tenhamos atenção e cuidado - portanto, se for vivido na medida necessária é mais do que útil, é fundamental. "Infelizmente, hoje com a positividade tóxica, muitos perdem a capacidade de diferenciar quando esse sentimento está sendo apenas um obstáculo fruto de receios imaginários ou é real e aponta para que tenhamos cautela em algo", diz a psicóloga.

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