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Caso Rachel Genofre: suspeito vinha cometendo crimes desde 85, diz polícia

Rachel Genofre tinha 9 anos quando foi estuprada e assassinada; suspeito já teria cometido crimes desde 1984 - Reprodução/Facebook
Rachel Genofre tinha 9 anos quando foi estuprada e assassinada; suspeito já teria cometido crimes desde 1984 Imagem: Reprodução/Facebook

Carolina Werneck

Colaboração para Universa, em Curitiba

23/10/2019 17h48Atualizada em 24/10/2019 14h38

A Polícia Civil do Paraná informou hoje que Carlos Eduardo dos Santos, 54, suspeito de matar Rachel Genofre, vinha cometendo crimes desde 1985. O corpo da menina foi encontrado dentro de uma mala, na rodoviária de Curitiba, em 5 de novembro de 2008, dois dias após desaparecer. Carlos Eduardo está preso em Sorocaba (SP) desde 2016, condenado a 22 anos de prisão devido a outros crimes cometidos.

A lista de delitos inclui seis estupros, a maioria deles cometida contra menores de idade. Em outros casos, ele também é acusado de estelionato, roubo, corrupção de menores, violência doméstica, injúria, uso de documento falso e dano ao patrimônio público. O suspeito teria agido em 18 cidades, utilizando três CPFs diferentes, em São Paulo, Santa Catarina e Paraná.

Agora, a Polícia Civil está montando uma espécie de linha do tempo dos crimes cometidos por ele ao longo dos últimos 34 anos. O primeiro teria sido o estupro de uma criança de 4 anos em São Vicente, São Paulo. A primeira esposa do suspeito afirmou, em conversa com a polícia, que se lembra desse caso.

"Teve um caso de eu pegar um menino para tomar conta, para ajudar em casa. Foi o primeiro caso que teve denúncia. Ele até negou tudo, primeiro eu cheguei a acreditar nele, mas depois a gente se separou", disse ela, que não teve a identidade revelada. Ela contou que, quando conheceu Santos, tinha 12 ou 13 anos e ele, 17. Para o delegado da Polícia Civil Marcos Fontes, "já tínhamos, ali, um relacionamento sexual que, sob o ponto de vista da lei, era até irregular".

Ficha corrida

A delegada da Polícia Civil Camila Cecconello afirma que a equipe de investigação ainda está tentando coletar todos os dados dos crimes que Santos cometeu ao longo dos anos para saber por que ele cumpriu pena poucas vezes em regime fechado.

"Ainda não temos todas as informações do Judiciário do estado de São Paulo para saber quais foram as penas de alguns desses crimes e por que ele foi solto várias vezes. Sabemos que alguns crimes de estupro foram desclassificados, de alguns ele até foi absolvido. Isso deve ter contribuído para que ele conseguisse responder pelos crimes de estelionato, que são crimes de menor pena, e acabasse ganhando a liberdade facilmente depois de alguns anos."

O delegado Marcos Fontes explica que as dificuldades se devem ao fato de que muitos desses crimes envolveram menores de idade e, portanto, os processos correm em segredo de Justiça. O que a polícia já sabe é que, em pelo menos um dos casos, Santos chegou a ser condenado.

"Parecia o mais santo da Terra"

Durante as diligências para levantar todos os delitos, a polícia conversou com pelo menos três ex-companheiras do suspeito, além de familiares e um líder religioso que teve convivência com ele. De acordo com os delegados, ele agia sempre ludibriando e seduzindo as vítimas para se aproximar delas.

"Na maioria dos crimes, ele se utilizava da mentira, da dissimulação e da enganação para atrair as vítimas. Segundo a gente conseguiu levantar, nos próprios roubos, ele entrava na casa da vítima se passando por uma pessoa que estava ali para fazer reparos", afirma a delegada Camila. Os depoimentos das ex-companheiras, que não tiveram suas identidades reveladas, corroboram essa descrição.

"Ele pregava na igreja e tudo. Parecia o homem mais santo da face da Terra. Ele se apresentou para mim como advogado, fazia consultas de advocacia e tudo", contou uma delas. Segundo ela, Santos dizia dar palestras para outros advogados e viajava constantemente com essa finalidade. "Acabei descobrindo que ele usava documentos falsos. Cansou de pegar documento meu, sumir com os meus documentos. Eu não sabia muito da vida dele", afirmou outra.

Apontada como a última esposa do suspeito, ela ainda contou que ele a forçava a ter relações sexuais, que a dopava com cocaína e que ela precisou de ajuda para sair do relacionamento.

Segundo os delegados da Polícia Civil, Santos trocava de cidades com frequência. Uma vez instalado, principalmente quando em cidades menores, aproximava-se do líder religioso local, sempre demonstrando ser uma pessoa correta em busca de emprego ou auxílio.

"O que ficou bem perceptível é que, num primeiro momento, para essas mulheres ele parecia ser um homem perfeito. Mas, no momento em que ele era desmascarado, começava a apresentar um comportamento extremamente agressivo, com violência psicológica e também física", diz o delegado.

O caso Rachel

Rachel Genofre tinha nove anos quando desapareceu, em 3 de novembro de 2008. Dois dias depois, seu corpo foi encontrado dentro de uma mala na rodoferroviária de Curitiba. O crime permaneceu sem solução até setembro deste ano, quando o suspeito foi identificado. A identificação se deu por meio da comparação do DNA retirado do corpo da menina com amostras do Banco Nacional de Perfil Genético, mantido pelo Ministério da Justiça.

Interrogado, Santos confessou o crime e deu detalhes de como teria agido. Mas diversos detalhes de seu primeiro depoimento não foram confirmados pelas investigações. Confrontado com as informações levantadas pela polícia, ele mudou sua versão dos fatos no segundo depoimento. O delegado Fontes o classificou como um "manipulador" e "mentiroso compulsivo".

"Quando coletamos algumas informações a respeito das pessoas que conviveram com ele, dos locais em que ele passou, ficou claro que ele deixou o pensionato em que dizia ter cometido o crime em setembro, o crime foi só em novembro", afirmou a delegada Camila. Questionado a respeito, o suspeito disse que se confundiu e que, na verdade, cometeu o crime em uma casa. A polícia continua tentando identificar que casa seria essa.

"Nesse segundo interrogatório ele afirma que, quando a Rachel estava se aproximando do ponto de ônibus, na Praça Rui Barbosa, ele a abordou dizendo que era produtor de um programa infantil, que ela apareceria na televisão", relata a delegada. De acordo com o depoimento, ele teria levado cerca de dez minutos para convencer a menina a acompanhá-lo, porque ela dizia que precisava avisar seus pais. Teria conseguido convencê-la dizendo que isso deveria ser uma surpresa para os pais.

"Ele disse que foi de ônibus até a residência. Que era uma kitnet e que, assim que ele chega, sobe as escadas e fecha a porta, ela começa a gritar e entrar em desespero." Por causa da reação de Rachel, o suspeito teria sufocado a vítima até que ela desmaiasse e, em seguida, a teria estuprado.

Para Fontes, Santos sabia muito bem o que estava fazendo. "Na minha opinião ele tem, sim, um transtorno de personalidade, mas isso não o impede de escolher entre o certo e o errado." O delegado afirma que já foram pedidos os exames psicológicos necessários para confirmar se o suspeito agiu influenciado por alguma patologia.

De acordo com a Polícia Civil, Santos será indiciado por estupro de vulnerável e homicídio triplamente qualificado. "Homicídio por meio cruel, porque ele esganou a Rachel, depois impossibilitou a defesa da ofendida porque ela estava trancada. Ainda há uma desproporcionalidade de força física. Depois, tentou ocultar a existência do outro crime, porque ele a estuprou e, para evitar que ela saísse dali e o identificasse, a matou", detalha Fontes. Somando tudo, a pena pode passar dos 40 anos de prisão.

O UOL procurou a Defensoria Pública para saber quem é o responsável pela defesa de Carlos Eduardo dos Santos, mas não foi informado se ele já tem advogado constituído.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que informou o título, a polícia disse que o suspeito de matar a menina Rachel Genofre vinha cometendo crimes desde 1985, e não 1984. A informação foi corrigida.

Violência contra a mulher