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Médico influencer abre o jogo sobre cunete, fisting e fetiches no Insta

Vini virou celebridade no Insta respondendo dúvidas - Arquivo Pessoal
Vini virou celebridade no Insta respondendo dúvidas Imagem: Arquivo Pessoal

Laura Reif

Colaboração para Universa

18/10/2019 04h00

"Doutor, estou com um desconforto depois de uma sessão de fisting noite passada."

"Doutora, estou com uns sintomas estranhos e a única coisa que fiz de diferente esses tempos foi cunete. Será que tem a ver?"

Muita gente pode achar estranho compartilhar tantos detalhes do que se faz entre quatro paredes, mesmo com um médico, mas é aí que mora o perigo. Sexo vai muito além da penetração e há várias formas de contrair IST's [Infecções Sexualmente Transmissíveis] mesmo usando a camisinha durante o ato.

Tanto que, de acordo com a OMS [Organização Mundial da Saúde], mais de um milhão IST's são contraídas por dia no mundo. Se você está com medo de abrir o jogo para seu médico, quem pode ajudar a quebrar o gelo é o coloproctologista Vinícius Lacerda, cuja especialização é no estudo das doenças do intestino grosso, do reto e ânus.

Mais do que um especialista, o médico é um influenciador que fala abertamente em sua conta no Instagram sobre saúde sexual, no perfil @drvinilacerda. Apesar de o conteúdo ser voltado para a comunidade LGBT+, as dicas valem para todo mundo.

Ele tira dúvidas, mas não aceita fazer consultas online - Arquivo Pessoal
Ele tira dúvidas, mas não aceita fazer consultas online
Imagem: Arquivo Pessoal

Vini atende no centro de São Paulo, mas seus mais de 23 mil seguidores estão por todo o Brasil. O publicitário curitibano John Alves, 23, gosta como o conteúdo é descomplicado. "Às vezes você está com uma dúvida e quando procura em um site sente mais medo de ler as informações do que a segurança de que está tudo bem. A desmistificação dos fetiches também acho muito válida. Geral fica espantado ao ouvir sobre golden shower, por exemplo".

Não me sinto confortável em falar (mentira, me sinto sim), mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. Comentem e tirem suas conclusões: O QUE É GOLDEN SHOWER? Um dos assuntos mais comentados do nosso carnaval foi o famoso "Golden Shower", ou chuva dourada, ou pissing ou water sports. Nada mais é do que uma prática sexual que envolve a urina de alguma forma. Pode ser só um "banho" de urina no parceiro, mas os mais aficcionados também gostam de ingerir ou deixar que urinem em seu ânus ou vagina. E pode isso? Bom, para começar vamos falar um pouco sobre o seu xixi. Ele nada mais é que um ultrafiltrado do seu plasma, que é o líquido que dilui o seu sangue. Portanto, ele é composto basicamente por ÁGUA, mas junto com ela carrega alguns sais, também conhecido como eletrólitos: sódio, potássio e cloro. Em pacientes diabéticos pode conter grandes quantidades de glicose (ou açúcar), mas a urina também carrega consigo algumas toxinas, como a ureia proveniente do metabolismo das proteínas. O álcool e outras drogas também podem ser eliminados no xixi. E com relação às infecções? Em teoria, a não ser que você esteja gravemente doente, ou com algum tipo de infecção urinária, a sua urina possui uma quantidade muito pequena de bactérias, menos até que a sua pele ou a sua saliva. Mas vale lembrar que existem infecções que ocorrem no canal por onde passa seu xixi, como as uretrites causadas pela clamídia ou gonorreia. Portanto, pode haver um risco de contaminação se houver o contato com a mucosa do seu parceiro (garganta, uretra, vagina ou reto), caso haja infecção da uretra. O risco de HIV e outras IST virais nunca foi relatado. Se você curte, não há problema algum em ter o contato da urina de seu parceiro com a sua pele, mas isso só se ele não tiver nenhum IST, como o corrimento pelo pênis. Quando houver a penetração, lembre-se de usar a camisinha. Ah, mas eu posso beber? Aí vale lembrar que a urina é um filtrado com toxinas, portanto se ingerir em excesso pode te fazer mal. Só lembrando: não estamos aqui para fazer julgamentos e sim informar os riscos para quem é adepto de tal prática, TALKEY? #goldenshower

Uma publicação compartilhada por Dr. Vinícius Lacerda (@drvinilacerda) em

A interação dos seguidores com as publicações é expressiva e dá para ver que existem adeptos de tudo nesse mundo com comentários como "adoro fazer isso" ou pessoas marcando as outras e aproveitando algum post do Vini para já mandar aquela indireta bem direta: "Bora?"

Vinícius contou a Universa que nunca teve a intenção de construir uma fama online e que a conta é do seu perfil pessoal. "Também criei a página pelo fato de eu ser gay, conhecer a realidade e até ter passado por algumas experiências nas quais não sabia o que procurar e o que fazer", explica.

Anal é o sexo mais democrático

A polêmica do sexo anal não tem vez com o coloproctologista. Em artigo para a revista Carta Capital, ele explicou seu ponto de vista sobre a prática de maneira bem leve. "Apesar de ser o que tem mais tabus, potencialmente todo mundo pode praticar", diz. Não é todo mundo que gosta, mas todo mundo pode fazer, não é?

"Se fez com cuidado é seguro. E lubrificante. Muito", lembra. Nada de usar saliva, pois pode transmitir infecções. Para Vini, o maior remédio é a informação. Já que vai fazer, que faça com segurança. "A pessoa usa camisinha no sexo anal, mas lubrifica com saliva", ironiza.

Por que algumas pessoas conseguem praticar sexo anal plenos como passivo e algumas pessoas não? Essa definitivamente não é uma pergunta fácil de se responder. Mas existem algumas possíveis explicações para isso. Vamos começar pela anatomia do seu ânus: ele nada mais é do que um músculo circular com a capacidade de se contrair e relaxar como qualquer outro, com o objetivo de promover a continência das fezes. São na verdade duas estruturas musculares: o esfíncter anal externo, de controle voluntário, e o esfíncter anal interno, que não conseguimos controlar conscientemente. Para que a penetração ocorra de forma satisfatória e, de certa forma prazerosa, deve haver o relaxamento dos dois músculos. O esfíncter externo conseguimos relaxar por vontade própria. Já o interno só relaxa de forma inconsciente, assim como ocorre com a ereção do pênis. É necessário estar realmente à vontade com o seu parceiro e considerar alguns fatores para que ele consiga relaxar. Vamos a algumas dicas: - Como qualquer músculo, o esfíncter acaba entrando em fadiga. Isso dura em torno de 1 a 2 minutos. Quando você sente dor, é porque ele ainda está contraindo. Espere algum tempo até prosseguir com a penetração. - Prefira posições com a qual você tenha mais controle da penetração, como sentado por cima ou de lado. Assim você consegue sentir melhor a hora de tentar deixar o pênis entrar mais um pouquinho. - Abuse de lubrificantes próprios pra esse fim e de qualidade. Quando achar que já está bem lubrificado, passe mais um pouco. - Não estimule o seu pênis no momento que o seu parceiro está penetrando a primeira vez. Isso mesmo! A estimulação do pênis faz você contrair seus músculos pélvicos e dificultar a penetração. - Evacue antes do sexo e se higienize bem. Faça a chuca apenas se julgar necessários por sentir que há fezes ressecadas no seu reto. Isso te ajuda a relaxar, mas eventualmente acidentes podem acontecer e não há nada demais nisso. - Jogo e jogo, treino é treino. Brincar com dildos ou consolos sozinho ou com seu parceiro antes da penetração propriamente dita pode facilitar o processo. É isso. Caso persista as dificuldades procure seu médico coloproctologista. #anal #lgbt

Uma publicação compartilhada por Dr. Vinícius Lacerda (@drvinilacerda) em

Cugliesi

Vinícius compartilha em meio a risadas o apelido que recebeu dos amigos com o aumento dos números de seguidores que ganhou nos últimos dois anos, quando começou a produzir conteúdo informativo, o comparando à influenciadora fitness Gabriela Pugliesi. "Achei criativo. Já me pararam no metrô, às vezes pedem para tirar foto. Não tanto assim, porque não sou uma celebridade, mas até no Carnaval em Salvador [reconheceram]. Sempre dou atenção", conta.

O perfil também tem a participação de especialistas de outras áreas, como ginecologistas e urologistas. Assim, é possível falar sobre a saúde sexual LGBT+ sem deixar nenhuma letra da sigla de lado. "Evito fazer consulta online. Não dá para tirar foto e mandar, igual alguns seguidores já fizeram. Oriento a buscar um especialista e me coloco à disposição se quiser marcar consulta comigo", afirma.

As dúvidas mais frequentes são sobre PrEP [Profilaxia pré-exposição]: "consiste no uso preventivo de medicamentos antirretrovirais antes da exposição sexual ao vírus, para reduzir a probabilidade de infecção pelo HIV"] e o médico afirma que sempre tenta confortar quem manda perguntas, sem criar alardes. "É até bom para tranquilizar a pessoa. Ela acha que está morrendo porque saiu um pouquinho de sangue no cocô e às vezes é só hemorroida mesmo", conta.

Além de dúvidas, o coloproctologista também recebe nudes ocasionais. Como a conta é pessoal, ele posta selfies e mostra a cara. Mas ele relata calmamente que isso não o incomoda. "Mandam foto, coisas inapropriadas, que tenho que cortar, né? O pessoal acha que a internet é terra sem dono. Fotos não solicitadas, nudes. Outro caso é de seguidores que não têm acesso a médicos e mandam foto do ânus com alguma ferida, mas, infelizmente, não posso dar um diagnóstico. Tem de tudo", explica. Ele reforça que chegam muitos elogios também e que não liga para haters.

São poucos os comentários negativos, de acordo com ele, mas existem. "Minha página não aborda nada de forma pornográfica. É tudo muito sutil. Vou falar de sexo oral, coloco uma banana. Cunete? Uma rosquinha. Tudo de que falo existe e as pessoas vão ter contato, o adolescente vai ter contato [com experiências sexuais]. Se você esconder, as pessoas vão descobrindo as coisas de uma forma errada, muitas vezes pela pornografia, que é uma vitrine totalmente irreal de como ocorre o sexo. Não adianta esconder o mundo", explica.

Ele lembra que é sempre bom dar uma passada no urologista/proctologista/ginecologista quem é sexualmente ativo ou está exibindo algum sintoma estranho, como verrugas, coceiras ou dores. Não precisa exagerar e passar em cada especialista duas vezes no ano. E nada de ignorar sintomas ou ficar com vergonha de contar para o médico o que pode estar causando.

Vocabulário Cugliese

Fisting: "'Fist fucking' significa penetração da mão ou punho na vagina ou no ânus."

Cunete: "Sexo oral com o ânus, popularmente conhecido como "cunete" ou um termo mais técnico seria anilingus.

Golden shower: "Prática sexual que envolve a urina de alguma forma."

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