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Ela levou tiro do ex, ficou paraplégica e virou atleta campeã

A paratleta Ana Paula Marques - Reprodução/Facebook
A paratleta Ana Paula Marques Imagem: Reprodução/Facebook

Camila Brandalise

De Universa

16/10/2019 04h00

Ana Paula Marques tinha 20 anos quando saiu de casa e se separou do marido que a agredia. Foi morar com a mãe, mas o ex a procurava querendo reatar. Ao ouvir as negativas de Ana, voltava a ser violento, física e psicologicamente. "Ele não aceitava a separação. Vivia me perseguindo. Isso durou nove meses. Até que ele tentou me matar."

Após uma discussão na rua, perto da casa em que vivia em Porto Alegre, Ana deu as costas para o ex, que atirou em sua coluna. "Caí no chão sem sentir minhas pernas." Era 2003. Ela havia sido vítima de uma tentativa de feminicídio, crime que só passou a constar como tal na lei em 2015.

Paraplégica, começou a ser atendida no hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, centro de referência nacional no atendimento de pessoas com deficiência. Lá, onde o esporte é usado como forma de reabilitação, praticou atletismo, tiro com arco e basquete. Mas foi na vela que se encontrou, em 2014, já morando na capital federal, para onde se mudou um ano antes.

Desde então, já alcançou 24 pódios em campeonatos nacionais e internacionais. Em 2018, Ana se tornou a primeira brasileira a vencer o campeonato mundial de vela paralímpica, nos Estados Unidos. Agora, aos 37, a paratleta de vela adaptada luta para conseguir patrocínio e investimento público no esporte que pratica.

Atingida com um tiro nas costas

O namoro com o hoje ex-marido começou quando Ana tinha 15 anos. Aos 16, ficou grávida, e os dois foram morar juntos. "Ele era muito ciumento, as brigas começavam do nada, mas foram ficando piores", diz. Quando o filho estava prestes a completar um ano, Ana decidiu começar a trabalhar para buscar a independência financeira. Queria fazer faculdade de enfermagem.

Conseguiu um trabalho como vendedora em um supermercado, mas, quando voltava para casa, era submetida a agressões cada vez piores. O ex ia para cima, a agredia com tapas. Numa época pré-Lei Maria da Penha, que só entrou em vigor em 2006, e em que a violência doméstica ainda era tratada como "briga de marido e mulher", ela conta que chegou a fazer um registro de ocorrência na delegacia, mas a queixa não saiu do papel.

Na tentativa de fugir do pesadelo, Ana saiu de casa e foi morar com a mãe, até que sofreu o ataque que a deixou com uma lesão medular. O ex-marido ficou foragido mas, posteriormente, se entregou. Após a primeira audiência, foi solto para responder em liberdade. Ana conta que não quis mais saber do caso e sua preocupação se voltou para a própria saúde e para os cuidados com o filho.

"Para as mulheres que sofrem violência doméstica, eu digo que lutem contra as agressões, denunciem e não aceitem ser espancadas nem abaixar a cabeça", diz Ana.

Única brasileira com três medalhas mundiais

Ana Paula durante competição de vela adaptada - Rperodução/Instagram
Ana Paula durante competição de vela adaptada
Imagem: Rperodução/Instagram

No começo, a atleta ouviu dos médicos que com fisioterapia voltaria a andar. Mas, ao chegar ao Sarah Kubitschek, em 2004, recebeu o diagnóstico de que a lesão na medula havia lhe afetado de tal maneira que não havia como reverter seu quadro. Entrou no projeto Vela para Todos, da Federação Brasileira de Vela Adaptada, e começou a abocanhar primeiros lugares.

A vela adaptada segue regras estabelecidas por federações internacionais e precisa cumprir normas de segurança, como garantir que o barco não vire. Assentos e instrumentos de navegação também passam por adaptações.

Hoje, Ana é a única pessoa do Brasil com três medalhas mundiais na modalidade. Em 2017, conquistou a prata no campeonato realizado em Kiel, na Alemanha. No ano passado, nos Estados Unidos, levou o ouro, colocando seu nome e o do Brasil no topo do ranking global. Neste ano, ganhou a medalha de bronze na Espanha. Também é a terceira colocada mundial no halterofilismo, esporte que pratica concomitantemente à vela.

Apesar do reconhecimento, Ana não tem nenhum patrocínio fixo. "Não recebo bolsa atleta, não tenho ajuda da federação. Fica complicado participar de mundiais", diz. Para as viagens, já contou com apoio de empresas e clínicas de saúde. Hoje a atleta se mantém com o salário mínimo da aposentadoria por invalidez.

A vela adaptada saiu da lista dos Jogos Paralímpicos no evento de 2016. Ana ainda não teve tempo de tentar participar. A expectativa é que a modalidade volte para os Jogos em 2024. "Todos os esportes que tenham atletas na ativa e com boa colocação deveriam receber bolsa ou ajuda de custo", opina ela, que participou em maio de uma audiência na Câmara dos Deputados pedindo mais investimento nos esportes paralímpicos.

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