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Negra, gorda e estrela da SPFW: "Não tive em quem me espelhar", conta Rita

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Natália Eiras

De Universa

16/10/2019 10h52Atualizada em 16/10/2019 17h13

Rita Carreira é gorda e negra. Estas duas características podiam deixá-la muito longe de um evento como a São Paulo Fashion Week, onde não faltam modelos magérrimos, brancos, de olhos e cabelos claros. Assim, entrar para o casting de três desfiles da 48ª edição do evento, que acontece até a próxima sexta-feira (18), tem gosto e jeito de vitória.

"Não era algo comum. Até agora", diz Rita em conversa com Universa. "É engraçado perceber onde cheguei, porque já ouvi dona de marca dizendo que não me queria como modelo porque eu 'empobreceria' a campanha dela."

Há quase 10 anos nas passarelas de moda plus size, Rita vai desfilar pela Cavalera, com pegada mais rock'n'roll; Handread, de alfaiatarias minimalistas; e Isaac Silva, de moda afro. São três marcas com estilos completamente diferentes entre si. "Talvez isso esteja mostrando que ter uma mulher gorda em um desfile está sendo naturalizado. Se o casting só tem gente magra, o público tende a achar chato. Demorou demais, mas está acontecendo a mudança."

O que ela queria era ser famosa

A modelo conta que cresceu em Diadema, na região metropolitana de São Paulo, ouvindo poucos elogios sobre a sua aparência. "Quando era criança, sempre falavam que a minha amiga branca estava bonita, mas eu não. Meus pais também não viam beleza em mim, brincavam que quem iria ser modelo era a minha irmã do meio", diz, rindo.

Isso não impediu, no entanto, que ela fosse, desde a adolescência, segura de si e quisesse estar sob os holofotes. "Meu sonho era ser apresentadora de TV. Queria ser famosa."

O destino parece ter conspirado a favor do sonho quando, aos 16 anos, ela foi abordada com um convite para ser modelo em um evento de moda plus size, onde estava ajudando a irmã produtora de moda. "Fiquei com aquilo na cabeça e, no ano seguinte, fiz o casting e passei", conta.

Ambiciosa, logo ela percebeu que teria que fazer algumas mudanças para conseguir mais trabalhos. "Usava 42, 44 e ouvia que eu não era gorda o bastante para fazer algumas campanhas. Como sabia que nunca seria magra o bastante para trabalhar com fashion, decidi engordar para conseguir entrar de vez no mercado plus size", afirma Rita.

"Ouço que deveria ser mais humilde"

Engordar para crescer na carreira foi apenas uma das vezes em que a modelo "remou contra a maré". "Tento fugir do que está todo mundo fazendo. Por exemplo, eu usava cabelo black, mas vi que no casting da minha agência havia outras modelos plus size com black. Para conquistar um espaço diferente, comecei a usar o cabelo liso", fala Rita.

A confiança em si já rendeu críticas à modelo. "Uma vez uma seguidora no Instagram disse que eu ser tão confiante estava afastando as pessoas. O problema não está em mim, mas em quem se sente ameaçado por mim." Com mais de 40 mil seguidores no Instagram, a paulista acredita que o motivo das críticas tem relação com racismo. "Ouço que eu deveria ser mais humilde, que eu não deveria estar querendo fazer mais do que já faço. É uma herança da escravidão, que o negro deveria ficar calado."

Rita acredita que foi a confiança que a levou tão longe, uma vez que ela teve que "quebrar" muitas portas, como diz. Ela começou a modelar em 2010, quando poucas modelos plus size eram realmente famosas. Era mais difícil ainda uma modelo negra e gorda conquistar o mercado.

Eu tive que ser a minha própria referência, porque eu não tinha em quem espelhar. Precisava confiar muito em mim mesma

Porém, estar sempre tendo que lutar pelo próprio espaço não foi fácil e até mesmo Rita já pensou em largar a profissão. "Via minhas colegas brancas conseguindo muito mais trabalhos do que eu e ficava frustrada. Uma vez cheguei a publicar um post no Instagram dizendo que iria desistir de tudo", relembra.

Na época em que fez a publicação, ela não entendia muito bem como sua presença em revistas como a "Vogue" e em campanhas como as da Dafiti poderia significar para outras mulheres gordas e negras.

O post, no entanto, lhe deu um novo fôlego. "Recebi muitas mensagens de garotas dizendo que se espelhavam em mim. Quando comecei a modelar, só queria ganhar dinheiro com a minha beleza. Agora entendi como a minha existência nesses ambientes dá força para outras pessoas", fala.

Olha que coisa mais linda,mais cheia de graça ? #corpolivre #bodypositive

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