Topo

Ela enfrentou câncer na gravidez: "Quero estar viva para criar minha filha"

Lyana Cabral com a filha Maria - Estúdio Victória Souza
Lyana Cabral com a filha Maria Imagem: Estúdio Victória Souza

Manuela Aquino

Colaboração para Universa

03/10/2019 04h00

Imagine a felicidade de uma mulher que, após dois anos e meio tentando engravidar, descobre que o bebê chega logo mais. Agora, imagine essa mesma mulher ao perceber um nódulo no seio e, diante dos exames, descobrir que tem câncer.

Foi o que aconteceu com Lyana Cabral, 31 anos, de Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro. Durante a gestação, ela precisou fazer quimioterapia e, após o nascimento, não conseguiu amamentar a filha por conta do tratamento.

Com Maria pequena (hoje a menina tem dois anos), encarou radioterapia e fez cirurgia para retirada da mama em março de 2018. Até hoje faz controle hormonal para que o tumor não volte. "Tenho que continuar no controle em até dez anos, mas quero parar antes pois pretendo engravidar mais uma vez", diz Lyana.

Talvez tenha que adiar um pouco o sonho de ter mais um filho, pois quer fazer uma mastectomia preventiva. Exames genéticos e o aparecimento de um novo nódulo na outra mama (diagnosticado não como câncer, mas como displasia) a fizeram passar na frente o procedimento. Em seguida, pretende reconstituir as duas mamas com silicone.

No Outubro Rosa, mês de conscientização para o controle do câncer de mama, Lyana compartilha sua história enquanto alerta outras mulheres para o pouco falado câncer gestacional. "Achava que era a única no mundo. Mas criei uma página nas redes sociais para compartilhar minha história e conheci 60 mulheres na mesma situação que eu."

"Descobri a gravidez da Maria, hoje com dois anos, aos três meses de gestação. Eu estava menstruando normalmente, talvez por conta dos ovários policísticos. Não tinha nenhum outro sinal, só sentia muito sono e refluxo. Pensei que estivesse com gastrite, fui ao médico e ele me pediu um ultrassom abdominal. Um dia antes do exame, sonhei que recebia a notícia de que estava grávida. Durante o ultrassom, a médica me disse: 'Você está gravidíssima e precisa começar o pré-natal ontem'.

Foi uma superalegria, estava tentando havia tanto tempo. Nesse tempo em que eu não sabia que estava grávida, já havia notado uns carocinhos no seio, mas não liguei, pois eu tinha displasias mamárias e elas sumiam geralmente quando eu menstruava. Um mês depois da descoberta, notei que um caroço aumentou. Fiz ultrassom, mas não deu para ver direito. Na sequência, vieram a biópsia e a ressonância. Nenhum exame deu 100% de certeza, pois havia glândulas de produção de leite no meio do caminho, o que deixava tudo inconclusivo. Minha ginecologista me encaminhou para uma mastologista para avaliar melhor. Esta me disse que não havia como ser outra patologia a não ser câncer de mama.

Durante a fase de exames, sempre tive uma postura de achar que não seria nada, que iria sempre acontecer um milagre. Quando recebi a notícia, fiquei triste, chorei muito. Mas, ao mesmo tempo, pensei que eu tinha pedido tanto minha filha a Deus, que naquele momento não seria desamparada. Precisa fazer quimioterapia? Então, bora lá. As pessoas estranham quando eu falo isso, mas senti um alívio ao receber o diagnóstico depois de um mês de angústia para saber o que eu tinha.

Quimio com a Maria

Comecei as sessões de quimioterapia em julho de 2017. Em nenhum momento tive medo de que algo acontecesse com minha filha, pois naquela época estava com cinco meses de gestação e os riscos eram menores, já que a formação do bebê estava avançada. Tomava a medicação a cada 21 dias. Ficava sonolenta, meio grogue no dia seguinte, mas não tive nenhuma reação, nem vômitos.

Quando meu cabelo começou a cair, já raspei logo e me sentia linda. Consegui curtir a gravidez, conversava muito com minha filha e falava que ela ia crescer bem, que tudo iria dar certo. Durante o tratamento, fui muito feliz.

Foram prescritos oito ciclos de tratamento, quatro sessões durante a gravidez e mais quatro depois de ela nascer. Sou professora de português, dava aula no ensino fundamental e médio e tirei licença para me tratar. Arrumei o quarto, comprei as roupas, tudo enquanto me tratava. Meu marido, Adilson, de 36 anos, que é militar, além do apoio o tempo todo, fazia todas as tarefas domésticas e, assim, me poupava fisicamente.

Dois meses depois do tratamento, decidi criar uma página no Instagram e outra no Facebook chamada Câncer Gestacional Tem Cura. Pesquisei casos na internet e não achava nada, pensava ser impossível haver uma única pessoa no mundo naquela situação. Passei a postar minha rotina, que me afligia, e, aos poucos, mulheres com o mesmo problema entraram em contato comigo. Hoje, tenho conhecimento de 60 mães que passam pelo câncer gestacional e há um grupo de WhatsApp para apoio com cerca de 30 delas.

Delegando a amamentação

Minha frustração foi ter feito cesárea. A Maria tinha que sair da minha barriga até a 37ª semana por conta do calendário das sessões de quimioterapia. Havia pouca chance, mas eu acabei entrando em trabalho de parto antes da hora e achei que poderia acontecer de ser parto normal. Eu passei muito mal, vomitei demais e não tinha forças nem para levantar a perna. A Maria nasceu saudável, mas precisou tomar fórmula desde sempre, pois eu não tinha como amamentar. Continuei a quimio e a vantagem de não amamentar foi que eu podia delegar essa função para o meu marido e a minha mãe, que cuidavam dela enquanto eu me recuperava das sessões, que me deixavam fraca.

Fiz minha cirurgia em 14 de março de 2018. O câncer havia sumido, mas precisei fazer mastectomia radical já que a inflamação atingiu a pele e o bico. Resolvi fazer a cirurgia de reconstituição em julho deste ano, mas apareceu um nódulo no outro seio. Realizei novos exames, mas não foi detectado câncer, só displasia. Consultei um geneticista e descobri que tenho chances aumentadas de ter câncer de mama e pâncreas. Meu pai morreu de câncer no pâncreas. Então, irei fazer a mastectomia preventiva na outra mama.

"Pode arrancar o outro peito"

Consultei quatro médicos: dois disseram que era melhor fazer a cirurgia preventiva, e dois disseram que ela não era necessária. Mas quero estar viva para criar minha filha, pode arrancar o outro peito, não tem problema. Ela é linda, saudável e muito serelepe. Quero curtir.

Depois da quimio, veio a radioterapia, e ainda tomo medicação, mas não há os mesmos efeitos colaterais. Terei que continuar no controle por até dez anos. Talvez pare de tomar os remédios antes, pois quero engravidar. O médico me liberou dos remédios após cinco anos para que eu tenha uma margem de segurança. Nem penso que o câncer possa voltar, pois tive a doença com 29 anos e grávida! Não é possível que aconteça novamente."

Minha história