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Fizemos um intensivo para superar Síndrome de Impostor e revelamos como foi

A primeira edição do workshop do programa Elas aconteceu no dia 13 de setembro; entrada custa até R$ 997 - Ariane Thrall
A primeira edição do workshop do programa Elas aconteceu no dia 13 de setembro; entrada custa até R$ 997 Imagem: Ariane Thrall

Natália Eiras

De Universa

25/09/2019 04h00

"Eu tive de trabalhar duro para superar aquela pergunta que (ainda) faço a mim mesma: 'eu sou boa o suficiente?'. É uma pergunta que me persegue por grande parte da minha vida. Estou à altura disso tudo?". Esta poderia ser, facilmente, o tipo de coisa que passa na cabeça de muitas mulheres que estão galgando uma boa colocação no mercado de trabalho ou que já tenham um cargo de liderança, mas a frase citada acima é, na realidade, de Michelle Obama, em viagem que ela fez para o Reino Unido, em 2018. "Estou à altura de ser a primeira-dama dos Estados Unidos?", ela se perguntou, na época.

A sensação de ser uma fraude, mesmo que tenha uma carreira brilhante e com grandes conquistas, é conhecida como síndrome do impostor. E a ex-primeira-dama dos EUA não é a única a ter esse sentimento. Segundo um estudo feito pela psicóloga Gail Matthews, da Universidade Dominicana da Califórnia, nos EUA, 70% dos profissionais sentem que não são merecedores de suas conquistas e se autossabotam, sintomas da síndrome. Apesar de não ser exclusiva da população feminina, ela atinge, principalmente, as mulheres, uma vez que precisam trabalhar duas vezes mais para obter reconhecimento no mercado de trabalho.

Por isso, a reportagem de Universa se juntou, na manhã fria do dia 13 de setembro, a outras 61 mulheres, de 25 até 60 anos, para passar 12 horas em um treinamento intensivo que, teoricamente, ajudaria a superar a síndrome de impostor.

Roda de conversa finaliza as 12 horas de curso intensivo - Ariane Thrall
Roda de conversa finaliza as 12 horas de curso intensivo
Imagem: Ariane Thrall

Dia de treinamento

O treinamento intensivo para lidar com a sensação de fraude foi criado pelo programa Elas, escola de liderança e desenvolvimento focada no público feminino. A empresa criada por Carine Roos e Amanda Gomes promove workshops para "mulheres que desejam assumir posições de destaque".

Depois de receber as alunas em um túnel de motivação com direito a tapinhas nas mãos, com "Born this Way", de Lady Gaga, bombando nas caixas de som e fazer a plateia soltar um "Bom dia" animado, Carine explica, na palestra de abertura, o porquê de ter criado o Elas Day: "Vimos em nossos cursos muitas alunas dizendo que sentiam que não eram merecedoras de suas conquistas, percebemos então que tínhamos uma questão a ser trabalhada".

Para participar de um intensivo de 12 horas de workshop , as participantes tiveram que desembolsar de R$ 797 até 997 nos ingressos, vendidos por lotes. "Este é um dia para você se abrir e sair transformada. Sermos mais estratégicas para o que queremos", continua Carina, jornalista com uma empresa de consultoria em inteligência e equidade de gênero em inovação.

Ela é acompanhada por Amanda Gomes, formada em administração de empresas e com experiência no mercado corporativo, que, ao se apresentar, fala o motivo que a levou a se tornar empreendedora. "Achava que, por eu ter chegado onde cheguei, era fácil para outras mulheres atingirem os mesmos objetivos. Entendi que não, que temos que trabalhar muito mais do que nossos companheiros."

A reportagem de Universa se propôs a ir ao treinamento como uma aluna comum. Não foi apresentada como jornalista para as outras participantes e, aconselhada pela assessora da Elas, tentou se abrir para o que estava por vir. Já na palestra de abertura, fungadas de choro de emoção podiam ser ouvidas pelo auditório. "Vamos hackear o sistema", as fundadoras falam a frase que seria o lema do dia.

ASMR empresarial

Uma ecobag com uma série de materiais estava em cima de cada uma das cadeiras do auditório. Após a palestra, as participantes foram convidadas a tirar algumas folhas que estavam ali dentro para fazer uma dinâmica de grupo. "Escolham pessoas que vocês não conheçam", incentiva Carine. No primeiro exercício, as alunas se dividiram em grupos de quatro pessoas: uma ficava ao centro, com duas nas laterais e a última atrás.

Inicialmente, a pessoa do centro deve dizer qual o seu maior medo. As outras três mulheres eram orientadas a ler frases de efeito bem próximas à pessoa do centro, quase como em um vídeo de ASMR. Ao fim da sequência de frases, as professoras diziam para todas se abraçarem. Talvez pela proximidade na hora de fazer dinâmica ou o clima de intimidade, o gelo entre as participantes foi quebrado rapidamente, enquanto algumas enxugavam as lágrimas e outras já falavam de suas vidas pessoais abertamente.

Ao fim do exercício, Carine e Amanda abriram o microfone para que as alunas falassem o que haviam sentido durante a dinâmica. "É mais fácil dar acolhimento do que receber", disse uma das alunas.

Trajetória no tapete

O intensivo tem muito da meditação mindfulness, técnica queridinha pelos entusiastas de startups. Isso fica claro quando, em um tapete de papel, as anfitriãs pedem para que as participantes escrevam frases referentes a situações como a uma ideia sobre si que gostariam de superar, algo do passado que se tornou motivo de riso e uma coisa boa sobre si.

De pés descalços, tivemos que percorrer o tabuleiro mentalizando cada uma das frases. "Sintam a emoção que essa frase causa em você", fala Carine, guiando o exercício. O choro, mais uma vez, é presente, mas não na mesma intensidade da dinâmica anterior. O "chororô" estava apenas começando.

Sessão de terapia "express" fez com que muitas alunas caíssem no choro e encheu auditório de fungadas de nariz - Ariane Thrall
Sessão de terapia "express" fez com que muitas alunas caíssem no choro e encheu auditório de fungadas de nariz
Imagem: Ariane Thrall

Investigando o passado

Já era perto do almoço quando a terceira dinâmica do dia teve início. A repórter de Universa ainda estava cética de que conseguiria realmente participar das interações. Já estava, inclusive, contando vantagem no Twitter sobre seu coração de pedra. Porém, em duplas, as alunas foram convidadas a fazer uma espécie de "terapia express".

As mulheres sentaram-se de frente uma para outra, fecharam os olhos e Amanda Gomes pediu para que elas lembrassem de um momento feliz de suas vidas. Foi impossível não começar a chorar. Seja por causa de suas próprias lembranças ou pela emoção coletiva que inundou o auditório. E as organizadoras já esperavam isso. As "anjos", como são chamadas as auxiliares da palestrantes, estavam sempre munidas com lenços de papel para acudir as participantes.

Depois disso, cada uma das alunas teve 1 minuto e 30 segundos para falar sobre suas lembranças com a colega à frente. A divisão fez com que cada uma assumisse, por algum tempo, o papel de terapeuta e ninguém monopolizasse a conversa. Foram três rodadas de "terapia".

Para finalizar a catarse de choros, elas pediram para que as alunas imaginassem que estivessem no leito de morte e que três pessoas as visitariam. No som, um bipe de monitor cardíaco tocava, ficando cada vez mais fraco. Cada um desses visitantes deveria lhe dizer alguma coisa.

Quando as professoras dispensaram as alunas para o almoço, a maioria estava com o rosto inchado, nariz fungantes e olhos marejados.

Quadro fez parte de atividade pós-almoço, quando palestrantes preparam a finalização do intensivão - Ariane Thrall
Quadro fez parte de atividade pós-almoço, quando palestrantes preparam a finalização do intensivão
Imagem: Ariane Thrall

Tem que ter coragem

No retorno do almoço, por volta das 15h, as 62 mulheres montaram uma espécie de quadro de próximos passos em sua carreira, autoestima e psicológicos. As participantes também fizeram uma roda de conversa para falar sobre a importância do que elas experimentaram naquele dia para superar as questões que foram discutidas.

"Se não tiver coragem de mudar, então nem venha", brinca Carine. A fundadora diz, no entanto, que é importante que a aluna esteja comprometida não só com o tempo -afinal, são 12 horas do seu dia- como também psicologicamente. Caso não esteja disposta a se abrir, talvez o treinamento não seja a melhor alternativa.

É inegável, no entanto, que, durante o dia, você tem a possibilidade de falar com mulheres que atuam em áreas completamente diferentes da sua, mas com desafios muito semelhantes. E, como em qualquer terapia em grupo, a sua cabeça sai borbulhando de revelações pessoais sobre como e porquê repetimos certos padrões na vida pessoal e na carreira. Assim, você sai do Elas Day com uma boa agenda de contatos e histórias para contar. Agora, se a síndrome de impostor foi superada, é o tempo que dirá.

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