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Ela foi cobaia humana na Austrália: "Emprestei o meu corpo pra ciência"

 Priscila Bertolucci, 28 anos, foi cobaia humana em Melbourne - Felippe Canale/ Colaboração para o Uol
Priscila Bertolucci, 28 anos, foi cobaia humana em Melbourne Imagem: Felippe Canale/ Colaboração para o Uol

Felippe Canale

Colaboração para Universa

24/09/2019 04h00

O termo "cobaia humana" pode parecer retirado de um filme de ficção científica, mas a realidade é que todos medicamentos vendidos atualmente já foram previamente testados em seres vivos: primeiramente em animais e depois em humanos, antes de chegarem às prateleiras das farmácias.

Os testes podem envolver pesquisas relacionadas a quantidade segura de consumo, possíveis efeitos colaterais e, principalmente, a efetividade comprovada dos medicamentos. Além disso, os testes devem seguir rigorosamente as práticas recomendadas pelo guia internacional de boas práticas clínicas (International Guidelines for Good Clinical Practice).

Mas como será que é emprestar um corpo, ainda vivo, para a ciência? É seguro? A remuneração financeira vale a pena? Como é o ambiente dentro deste tipo de centro clínico? Priscila Bertolucci, 28 anos, que atualmente mora na cidade de Melbourne, na Austrália, passou por esta experiência e conta sua história.

Como fui parar numa clínica de estudos

"Eu nasci em Goiás e me formei em psicologia no Brasil. Depois de trabalhar 3 anos nesta área, acabei decidindo me mudar pro exterior para estudar e vivenciar novas aventuras. A intenção sempre foi expandir a minha visão de mundo, ter novos aprendizados e, assim, tentar melhorar como pessoa.

Depois de mais de um ano morando em Melbourne, uma amiga me falou que havia ganhado uma boa grana emprestando o seu corpo para um estudo clínico. Aí eu fiquei curiosa e fui pesquisar! Acabei descobrindo que isso é bastante comum e seguro por aqui. Além disso, é possível ganhar até 10 mil dólares em estudos em que a pessoa precise ficar 30 dias morando dentro da clínica. Você vai, leva as suas malas e fica lá sem poder sair durante todo o período".

Testando um novo medicamento

"No meu caso, eu decidi participar de um estudo de 7 dias de internação contínua relacionado a um novo medicamento contra a candidíase, um fungo que causa infecção na área genital de algumas mulheres. Durante este período, me foram dados 3 comprimidos intravaginais e o intuito era avaliar se eu teria efeitos colaterais. Não tive e nem passei mal, mesmo reaplicando os comprimidos por mais 4 dias já na minha casa. Depois disso, eu precisei voltar na mesma clínica para mais sete visitas rápidas somente para fazer exames e avaliar se estava tudo bem com a minha saúde".

O que eu vivi na clínica

"A clínica de estudos em que eu fiquei é um lugar muito bem estruturado, limpo e organizado. Realmente se parece com um ambulatório hospitalar, pois tem aquelas camas com cortinas em volta para dar um pouco de privacidade. Há umas mesinhas para deixarmos nossos pertences e, na cabeceira de cada leito, também há um prontuário referente ao estudo e a medicação de cada participante.

O perfil das pessoas que se inscrevem para este tipo de experiência varia muito, pois a clínica recebe diariamente participantes de diferentes idades e nacionalidades. Eu convivi com pessoas da Inglaterra, Brasil, Rússia e também australianos. É permitido que os participantes dos estudos levem laptops, celulares ou livros para se distraírem. Além disso, há uma sala de jogos com TV, videogame, computadores e jogos em geral".

Minha experiência pessoal

"Na verdade eu pensei em desistir várias vezes, pois mesmo que pareça fácil e simples no primeiro momento, não é! Foi um verdadeiro teste de resistência, paciência e persistência. Você não pode sair da clínica, nem receber visitas, ou comer e beber o que você gosta, a não ser as refeições que lhe são servidas lá dentro. Eu não cheguei a ter medo do processo em si, pois a clínica e toda a equipe médica sempre me passaram muita segurança, mas no fundo me passava pela cabeça: "será que vou ter algum efeito colateral? E se acontecer alguma coisa comigo?". Mas acredito que este tipo de pensamento seja normal em qualquer pessoa que passa por esta experiência.

Cada estudo clínico possui exigências específicas de acordo com os medicamentos testados. No meu caso, os pré-requisitos eram ser do sexo feminino, estar saudável, não gestante, com total abstinência de bebidas alcoólicas ou qualquer tipo de droga recreativa, estar disposta a não ter relações sexuais durante o período clínico e também não consumir nenhum alimento contendo semente de papoula, pois isso poderia interferir nos resultados dos exames de sangue e urina que eu faria ao longo do estudo. Ah, e vale lembrar que a clínica recomenda que você faça no máximo um experimento por ano, nunca mais do que isso".

O que ganhei no final

"Eu recomendo para os meus amigos, mas explico que você está ali emprestando o seu corpo para um teste de uma medicação, então existem regras e horários a serem cumpridos.

No final deste estudo, eu achei a experiência bastante interessante por saber que, caso confirmada a sua efetividade, este novo medicamento irá contribuir para a saúde de mulheres do mundo todo. E claro, a parte financeira também foi um fator importante, já que eu ganhei quase 3 mil dólares para fazer isso durante um período de 7 dias".

E aqui, como funciona?

No Brasil, quem regulamenta esse tipo de teste é o Conep (Conselho Nacional de Ética em Pesquisa). As informações sobre o que é legalizado no país estão nessa resolução do órgão, de 2012, mas que ainda está em vigência. Há universidades públicas que fazem testes remunerados em humanos após a autorização dos órgãos competentes.

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