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"Tá fortinha, hein?": quando problemas de autoestima nascem dentro de casa

Julie Dantas, 35: "Andava com os joelhos flexionados para ficar mais baixa" - Arquivo Pessoal
Julie Dantas, 35: "Andava com os joelhos flexionados para ficar mais baixa" Imagem: Arquivo Pessoal

Natália Eiras

De Universa

20/09/2019 04h00

"Perna de saracura". "Gordinha". "Cabelo sarará". Para adultos, esses tipos de expressão podem ser apenas brincadeiras fofas, sem maldade. No ouvido e mente de uma criança ou adolescente, no entanto, comentários sobre sua aparência podem ganhar repercussões duradouras.

"Nossa autoimagem é formada na infância e o modo que nossos familiares nos tratam ajudam a criar isso, seja de forma positiva ou negativa", explica a psicóloga Laís Oliveira, especializada em autoestima de pessoas gordas. "Os pais são, para esses indivíduos em formação, como um espelho. Se a criança não se sente amada pelos pais, ela não deixa de gostar dos progenitores, mas de si mesmo."

Por isso, a brincadeira inocente que os adultos fazem com uma criança pode se tornar, a longo prazo, um trauma que afetará a autoestima a vida toda. "A melhor maneira de evitar isso é se policiando sobre a forma que você vai falar com uma criança. Se os pais querem que o filho se arrume, é bom incentivá-lo de maneira positiva, não criticar o estado atual", aconselha Laís Oliveira.

Para Universa, mulheres contam como certos comentários sobre sua aparência impactam, até hoje, sua autoestima. Veja:

"Ganhei uma cinta para segurar a barriga aos 7 anos de idade"

"Foi uma tia que me deu. Comecei a chorar imediatamente por causa da cinta. Minha mãe a chamou na hora e questionou o porquê daquele presente. Ainda disse que, se pudesse, encheria minha tia de porrada. Depois disso, escondida da minha mãe, ela vinha falar comigo para me convencer de que eu precisava usá-la, que era bom para segurar a barriga e me "acinturar", se fazendo de boazinha, mas reforçando que eu estava gorda. Até hoje, nos meus aniversários, ela me dá roupas GG e EXG".

Jéssica Lima, 27, de Santo André (SP)

Ana Paula Rizzo, 26, demorou para entender que tinha o cabelo cacheado, não "de mendigo" - Arquivo Pessoal
Ana Paula Rizzo, 26, demorou para entender que tinha o cabelo cacheado, não "de mendigo"
Imagem: Arquivo Pessoal

"Diziam tinha cabelo de mendigo"

"Eu tinha o cabelo cacheado e penteava como se fosse liso, então ele ficava muito armado, aí meus familiares diziam que meu cabelo parecia 'de mendigo'. Fiquei sete anos fazendo progressiva porque demorou muito tempo para eu me reconhecer como cacheada. Para mim, era só cabelo 'de mendigo' mesmo."

Ana Paula Rizzo, 26, de São Paulo (SP)

"Cresci ouvindo que estava 'ficando forte'"

"Meus familiares falavam isso porque era uma adolescente bem alta e gorda. De tanto ouvir que era muito alta, passei a andar curvada, lembro que até flexionava um pouco os joelhos e isso piorou quando namorei um menino mais baixo do que eu. Até hoje tenho problemas sérios nas costas e odeio minha postura, mas aprendi a lidar com isso. Hoje em dia, mesmo que não seja o meu sapato favorito, eu uso salto alto numa boa. Porém, às vezes me pego pensando que se fosse mais baixa as coisas seriam mais fáceis, não sei exatamente o porquê."

Julie Dantas, 35, de São Paulo (SP)

"Que eu não podia usar shorts por ter a perna grossa demais"

"Meus pais diziam isso quando eu queria usar um short, saia ou vestido. Uma vez comprei alguns shorts toda feliz para o verão. Experimentei para eles verem e falaram tanto que estava feio por conta da perna grossa que eu até troquei um deles. Hoje em dia eles não falariam algo do tipo porque evoluíram muito nesse sentido, mas ficou essa marquinha. Até hoje, na maior parte das vezes que vou usar um short, saia ou vestido, uso com meia-calça. Mas aos pouquinhos vamos nos acertando".

Fernanda Labate, 25, de São Paulo (SP)

"Falavam que eu parecia o Piu Piu"

"Cresci em um ambiente muito amoroso, mas toda a minha família falava que eu tinha um testão, que parecia o Piu Piu. Às vezes era de forma carinhosa, fizeram até uma festa de aniversário esse tema, mas ainda assim mexeu com a minha autoestima. Quando era mais nova, nunca deixava de ter franja, porque ela ajudava a esconder a testa grande. Às vezes suava e ficava com a franja horrível, grudada na cara, mas eu não mostrava a testa de jeito nenhum. Só agora mesmo que venho superando essa neura."

Nayara Vital, 29, de São Paulo (SP)

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