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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


Escolinha de futebol feminina tem fila de espera e ajuda a estudar nos EUA

Jogadoras do Pelado Real Futebol Clube - Divulgação
Jogadoras do Pelado Real Futebol Clube Imagem: Divulgação

Cláudia de Castro Lima

Colaboração para Universa

18/09/2019 04h00

São 10h de um sábado nublado de setembro, e as três quadras de grama sintética de futebol estão lotadas para o segundo treino do dia. Apitos e instruções para passar a bola, cruzar ou correr para o rebote se misturam a conversas e eventuais aplausos de pessoas que assistem ao treino, sentadas em cadeiras de plástico que fazem as vezes de arquibancada. Exatamente como um sábado de manhã deve ser.

Naquelas quadras da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, atrás das camisetas dos uniformes azul-marinho estão nomes como Maria Clara, Julia, Mafê, Bruna, Duda e Raíssa. O Pelado Real Futebol Clube é uma escolinha de futebol exclusivamente para meninas e mulheres, com treinadoras e auxiliares femininas.

O Pelado - uma brincadeira com a ideia de que, se os homens jogam "pelada", mulheres jogam "pelado" - é hoje uma escola que atende cerca de 110 mulheres e mais de 130 meninas, com mensalidades a partir de R$ 100 (uma vez por semana). O objetivo é mostrar que elas podem estar onde quiserem, inclusive em territórios ainda absolutamente dominados por homens.

"Autonomia e confiança são as principais coisas que elas ganham aqui", diz Júlia Vergueiro, 30 anos, sócia do Pelado. "E eu sinto que é nossa contribuição mais importante. Enfrentamos muitos desafios apenas por sermos mulheres e, se não soubermos nos posicionar e encarar isso, ninguém vai fazer por nós." Por seu propósito e ineditismo, o Pelado foi selecionado pelo governo americano, no ano passado, para participar do Global Sports Mentoring Program, um programa de mentoria para mulheres que trabalham com esporte para o empoderamento feminino.

Caçula e única menina de uma família com três crianças, Júlia praticava esportes desde cedo. Mas a primeira vez que teve contato de verdade com o futebol foi em um intercâmbio para os Estados Unidos, em 2005. Ao chegar à escola que frequentou, em Ohio, teve que optar por um esporte como parte da grade escolar. Não teve dúvida. "A experiência foi transformadora, ajudou a me enturmar mais rapidamente. O esporte cria um senso de comunidade muito grande."

Quando voltou do exterior, Júlia não quis mais se afastar do futebol. Participou da Atlética da PUC (Pontifícia Universidade Católica), onde estudou relações internacionais, e teve uma experiência mais direta com a gestão do esporte, organizando times femininos e competições.

Largou o emprego no banco pelo futebol

A vontade de empreender começou a aparecer também nessa época, quando foi presidente de uma espécie de empresa júnior da universidade. "Aos 19, eu tinha que fazer as coisas funcionarem e o negócio dar lucro. Foi lá que deu o estalo e comecei a pensar que seria legal ter minha própria empresa."

Em 2012, então funcionária de um banco, resolveu procurar um lugar para jogar futebol. Ficou sabendo de um grupo de meninas que se reunia algumas noites em uma quadra na Barra Funda. "Vim e adorei", lembra ela. "E vi também que havia um potencial enorme para crescer. Chamei a fundadora, fiz uma análise bem corporativa do negócio e propus sociedade. Ela adorou, mas disse que eu tinha que me dedicar integralmente a isso. Tomei a decisão mais difícil da minha vida e larguei meu emprego promissor."

Júlia ficou dois anos sem ganhar nada no Pelado, mas não desistiu. No fim de 2015, a sócia desistiu do pelado e Júlia seguiu sozinha com o projeto. Mas a solidão não durou muito. Quando ela pediu ajuda de um antigo professor, que era consultor estratégico, para profissionalizar ainda mais o Pelado, ele se encantou pela ideia e resolveu se tornar sócio.

Em 2016, o Pelado Real abriu as primeiras turmas para crianças e adolescentes -e Júlia se sentiu ainda mais próxima de seu propósito. "Cerca de metade das meninas abandonam a prática esportiva na adolescência. Eu queria fazer algo para ajudar a mudar esse cenário."

Acampamento e bolsas de estudo

Hoje, o Pelado é um sucesso e tem faturamento anual em torno dos R$ 400 mil. Há fila de espera para novas meninas, e Júlia pensa em ampliar as turmas. Neste ano, vai acontecer o primeiro acampamento para meninas apaixonadas por futebol.

Meninas como Raíssa Capasso, 12 anos. Goleira do Pelado, ela também cresceu cercada por irmãos mais velhos que gostavam do esporte. "Quando eu pensei que ia parar de acompanhar futebol e brincar de boneca, olha eu aqui de novo", brinca a mãe da garota, Kátia.

"Ela ama o esporte e jogava na escola com os meninos. Mas eu tinha medo de que ela se machucasse porque eles são mais brutos. Quando soube do Pelado, me interessei. Aqui ela está cercada de meninas com os mesmos interesses." O pai de Raíssa, Oswaldo Capasso, faz coro. "Tudo o que o esporte trouxe para meus filhos está trazendo também para ela, e ainda com mais intensidade."

O Pelado Real ganhou recentemente outra sócia, a mineira Fernanda de Oliveira Luiz. Ela era uma tenista de alto rendimento que, por causa do esporte, teve oportunidade de fazer faculdade nos Estados Unidos. Foi parar no Pelado por insistência de uma amiga que frequentava as aulas.

"Estava há quase um ano em São Paulo e ainda não tinha criado nenhum vínculo. Lá, me identifiquei muito com o clima de amizade entre as meninas. Passei a ver São Paulo com outros olhos, a frequentar os lugares que o pessoal daqui frequenta."

Além da afinidade, Fernanda também viu potencial no negócio. Como trabalhava ajudando jovens a estudar em universidades americanas, pensou que era possível juntar os dois universos. Propôs a Júlia que ampliassem a estratégia do Pelado para além do campo. "Os pais das alunas começaram a perguntar para a Júlia que outros benefícios, além dos socioemocionais, o futebol poderia trazer para suas filhas", diz Fernanda.

O projeto do Pelado, a partir do ano que vem, passa a responder isso. "Estamos montando um programa para orientar e preparar nossas alunas para fazer universidade nos Estados Unidos por meio de bolsas de esporte, como aconteceu com a própria Fernanda", diz Júlia. "Se eu tive a oportunidade de conseguir tanta coisa com o futebol, por que tenho que ser a exceção?"

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