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"Tinha que falar sobre censura", diz Bárbara Paz sobre prêmio em Veneza

Bárbara Paz cruza o tapete vermelho do Festival de Veneza, onde ela apresenta o documentário Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou - Daniele Venturelli/WireImage
Bárbara Paz cruza o tapete vermelho do Festival de Veneza, onde ela apresenta o documentário Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou Imagem: Daniele Venturelli/WireImage

Flavia Guerra

Colaboração para Universa

17/09/2019 04h00

Bárbara Paz sempre quis fazer um filme. Mas nunca imaginou que o primeiro seria um documentário. Não imaginava também que seria um filme sobre a vida, a obra, o pensamento, a morte e também que trouxesse muito das conversas que teve com seu marido, o cineasta Hector Babenco.

E muito menos previu que o filme, "Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou", não só estrearia mundialmente no concorrido Festival de Veneza como levaria o prêmio de melhor documentário sobre cinema da seção Venice Classics, além do prêmio da crítica independente, o Bisato D'oro.

"Nada disso foi o que previ. E foi tudo muito emocionante porque a gente vê toda a estrada, desde que ele partiu [Babenco faleceu em 2016]. Sem contar que é um festival tão lindo, tão importante, o festival mais antigo do mundo", disse a diretora logo depois da première mundial do longa, diante de uma plateia emocionada.

Tampouco sabia Bárbara que, dias depois, estaria diante da plateia seleta que lotou o Palazzo del Casinò para a cerimônia de premiação do festival. No dia 7, a atriz e diretora emocionou o público ao receber o prêmio, agradecer também em português, bradar contra a censura e defender a liberdade.

"Este prêmio é muito importante para o meu país. Nós temos de dizer não à censura. Vida longa à liberdade de expressão", disse a diretora, que foi citada ao longo da noite por outros produtores por defender, justamente, o direito de contar histórias sem medo de ser censurada ou julgada.

A fala de Bárbara trazia uma referência à determinação do prefeito do Rio, Marcelo Crivella, para que a história em quadrinhos "Vingadores: A cruzada das crianças" fosse retirada naquele fim de semana da Bienal do Livro do Rio.

"Não tinha como eu não falar sobre a censura"

Com um pé na celebração de Veneza e outro no atual quadro crítico da produção cultural no Brasil, Bárbara não deixou de se posicionar. "A gente está em 2019. A gente pode ser e fazer o que a gente quiser, independentemente de sexo. Todo mundo tem que se movimentar. Não tinha como eu não falar sobre a censura. O que está acontecendo com nosso país? Um país sem cultura é um país sem alma", disse a diretora logo depois da premiação.

Ao realizar um filme poema, Bárbara revela a visão libertária que o cineasta, nascido na Argentina e naturalizado brasileiro, sempre teve. Da infância abandonada em "Pixote" (1981) passando pelo olhar humanista de "Carandiru" e seu filme testamento "Meu Amigo Hindu" (2016), entre outros, Babenco sempre mostrou que separar a obra do homem era impossível. "Era o cinema que o mantinha vivo. Ele nunca fez um filme que não quisesse fazer. Todos os filmes dele foram autorais. Ele dizia: 'Só posso falar o que vem de dentro'."

Assim como Babenco, Bárbara também precisava dizer e mostrar ao mundo não só o Hector cineasta e pensador, mas o homem. E muito por isso, pelo aprendizado mútuo, é que ela agradece ao marido e também personagem de seu filme, o fato de ele ter confiado a ela tarefa tão delicada.

Engana-se quem pensa que, ao dedicar um filme, o prêmio e tanto reconhecimento à obra de Babenco, Bárbara seja menos autora de seu filme. "Todos poderiam fazer um filme sobre o Hector, de várias maneiras. Mas um filme de perto, próximo, só eu poderia. E ele me deu essa bênção, esse passaporte. Vai e faça."

Pois Bárbara fez. E não foi fácil no início. "Várias vezes eu tentei por equipe dentro de casa. Ele mandava a equipe embora. Eu realmente tinha que fazer, filmar, sozinha. Era realmente melhor quando estávamos nós dois", explica.

Do novelo que foi a vida, a obra e a relação artística e íntima ente Babenco e Bárbara, e das possibilidades que o tempo deu, pois o cineasta morreu antes de se concluírem os planos, nasce uma narrativa que mescla as cenas em que Bárbara filma e conversa com ele, com imagens de seus filmes e bastidores dos trabalhos.

"A gente estava tendo uma história de amor muito linda, de uma grande amizade. Era algo tão forte que o Hector ficava tranquilo. Os amigos dele me diziam que eu tranquilizei, que eu acalmei o Hector. Então, ele conseguiu se libertar para poder falar. Porque ele tinha uma fama de um diretor bravo. O filme não tem muito isso, não. O filme tem o pensador. É um retrato."

"Alguém tem que Ouvir o Coração e dizer: Parou" não é um filme apenas para iniciados na obra do cineasta. É uma declaração de amor à vida e um longo diálogo com, e sobre, a morte.

É neste sentido que o olhar de Bárbara, que perdeu os pais muito jovens, torna novamente o filme uma peça única. "Minha vida foi assim. Nasci com perdas, cresci com perdas. Cresci com a morte muito perto."

Brincar com a morte

Já entre ela e Hector, a morte em si era uma brincadeira que fazia parte do cotidiano. "Era muito forte. Ele sabia que ela ia chegar. Eu realmente achava que ele não ia partir. Ele era tão forte, amava tanto a vida que quando morreu, eu levei um susto, não estava preparada. A gente tinha combinado que ele não ia morrer", lembra Bárbara.

Foi justamente quando a diretora e Babenco começavam o processo de gravar cenas da ficcionalização da morte dele, em um projeto que era uma espécie de mix movie, mesclando ficção e documentário, que o diretor partiu, em julho de 2016. "Não deu tempo. Ele brincava tanto com a morte e sabia do medo que eu tinha. Quando ia para o hospital, ele perguntava se eu tinha separado o terno dele.'", conta a diretora.

"Um dia cheguei em casa e ele estava deitado na cama, de terno preto, camisa, gravata, com dois algodões no nariz. E eu comecei a gritar. E ele: 'Tô morto, já me preparei'. Imagina, ele tirava sarro da morte."

Para ela, conhecer Babenco foi o encontro de dois sobreviventes que estavam sempre à beira do abismo. "Quando a gente se encontrou, a gente se acalmou. Ele me deu mais confiança e disse: 'Não vai cair. Segura aqui que eu seguro ali'."

"Em 2020, volto para mim"

O filme é complementado pelo livro "Mr. Babenco - Solilóquio a Dois Sem Um" (Editora Nós), que traz desde poemas que o diretor escreveu até trechos das últimas conversas que teve com ela. "Nem o filme e nem o livro aconteceram como pensei. E isso é ótimo. Em 2020, volto para mim. Tenho um projeto de ficção sobre solidão. E vai dar uma bela história."

Sua história também vai virar filme, em um projeto comandado por Julia Barreto. "Ela me ligou e disse que queria contar minha história. Eu tinha esquecido isso. A vida de todo mundo dá um filme, dependendo do ponto de vista. E disse: 'Eu quero! Eu quero fazer esse filme antes que eu morra."

O fato de Bárbara se comunicar com o público de uma forma muito direta faz da ideia do filme algo com grandes chances de sucesso de público.

"A vida que tive no interior não tinha quase nada de cultura, mas a cultura que minha mãe me deu, a falta de saúde em casa, me fez enxergar um outro mundo. A história da minha vida foi meu maior livro até a minha adolescência. E depois eu fui em busca dos meus poetas, do que eu não sabia e queria saber. Essa sede de conhecimento, isso vai comigo até o fim."

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