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"Larga esse telefone!": mãe cria aplicativo para bloquear celular da filha

Luiza e sua família: diálogo aberto sobre tecnologia - Divulgação
Luiza e sua família: diálogo aberto sobre tecnologia Imagem: Divulgação

Paulo Gratão

Colaboração para Universa

15/09/2019 04h00

Ao completar nove anos, Bia ganhou seu primeiro smartphone, e sua mãe, a educadora parental Luiza Mendonça ganhou preocupações que nem imaginava que teria: liberar ou não redes sociais? Falar sobre pedofilia? Quais perguntas deveria fazer para a filha ou como seria a melhor forma de controlar o conteúdo acessado? "Na época, eu fui atrás de ferramentas, de informações de psicólogos e orientadores que me ajudassem nessas questões", diz. Hoje, a adolescente já tem 13 anos.

Na busca, Luiza se deparou com softwares complexos e pouco intuitivos, e também não encontrava muitos blogs que discutissem o assunto. Ela se sentia sozinha com sua angústia. Foi aí que teve a ideia de criar o AppGuardian. "Comecei a desenvolver mesmo quando eu tive meu segundo filho, que hoje tem três anos. Saí do mundo corporativo e, no final de 2018, lancei o aplicativo com a missão de organizar a vida digital de pais e filhos e trazer conexão real entre eles", explica.

Dificuldade inicial de adaptação

O aplicativo pode ser usado de duas formas: proibição extrema, que ela própria não indica, ou uma ferramenta para trazer a temática para as conversas familiares, com acesso ao que acontece na vida digital dos filhos.

Bia, a primeira cobaia da ferramenta, teve dificuldade de adaptação. Luiza não sabia nem como abordar a filha para tratar do tema, mas assegura que isso é coisa do passado e hoje a própria adolescente já pede que algumas funcionalidades tenham limite de utilização.

"Aqui em casa temos uma reunião semanal com a família e a rotina de uso dos smartphones entrou na pauta, a pedido da Bia. Ficamos uma semana sem bloquear nada e ela percebeu que passou a dormir tarde e teve queda no rendimento escolar. Decidimos bloquear a Netflix no horário que ela tem que estudar, é uma forma de não cair em tentação mesmo", comenta.

Controle decidido em conjunto

Luiza disse que tomou o cuidado de não fazer um "aplicativo espião", para que a filha não se sentisse invadida. Na ferramenta, ela assegura que as crianças e adolescentes sabem tudo que está acontecendo e os aplicativos que são bloqueados. "No começo sempre é muito difícil, mas temos que acreditar na mudança, estamos trazendo esse tema para dentro de casa para falar sobre vida digital de forma mais saudável. Os adultos também devem criar consciência por eles mesmos", afirma.

Ela sugere que os pais conversem com os filhos antes de instalar o aplicativo e os façam perceber a necessidade de desconexão. Analise o rendimento escolar, horas de sono, conexão familiar e com amigos, por exemplo.

"Sempre indicamos combinar horários junto com o adolescente, não determinar de forma imposta. É preciso ter cabeça de experimentação, se não deu certo a rotina, vamos colocar outra. Todo processo de mudança vai ter resistência, o adolescente não vai querer, não vai gostar".

O aplicativo tem versões gratuita, que é limitada, e paga. Luiza diz que já é possível utilizar em todo o mundo, mas apenas em Língua Portuguesa, por enquanto. Ela planeja expandir para outros idiomas no final de 2020.

Excessos podem criar adultos que não entendem limites

O controle total sobre o que a criança ou adolescente faz no mundo digital pode trazer sérios prejuízos à educação, conforme explica o psicanalista e professor titular da Universidade Federal de São Paulo, Christian Dunker. "Poderíamos substituir pela educação que estimula autolimitação, que é mais importante para a emancipação. Controle totalitário traz para o interior das relações entre pais e filhos um poder de coerção que pode ser perturbador".

O especialista comenta que faz parte do desenvolvimento haver pactos. Quando a criança faz algo errado, deve se perguntar internamente se deve ou não contar para os pais. Essa dúvida é importante para o amadurecimento. "Mais para frente, o mundo vai exigir que as crianças sejam criativas e autônomas para criar regras, obedecer e desobedecer também".

Relação mediada

O uso do aplicativo deve caminhar no sentido de ensinar como se relacionar, negociar limites e acordos. A proibição extrema mostra que os limites vêm de fora, e não de dentro, cria dependência. "Sempre é preciso ter em mente que está se criando filhos para uma época vindoura, que é o futuro, e não para agora".

Dunker aposta na relação mediada como a forma mais eficaz de utilizar ferramentas como o AppGuardian. De forma que os próprios pais entrem no universo trazido pelos filhos. Deve ser um instrumento que ajude a autolimitação. "Geralmente, os pais muito controladores se dão mal nessa partilha cultural, que pode ser muito rica. É como a descoberta de uma nova medicação: se não souber usar, vai te envenenar. É importante que o adolescente tenha voz ativa nessa conversa", afirma.

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