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Maia erra ao falar sobre jovens que querem se matar, mas como ajudá-los?

Carlinhos Maia: tem um jeito de confortar jovens que falam em se matar - Reprodução/Instagram
Carlinhos Maia: tem um jeito de confortar jovens que falam em se matar Imagem: Reprodução/Instagram

Nathália Geraldo

De Universa

02/09/2019 18h06

Nos Stories do Instagram, o humorista e influenciador digital Carlinhos Maia fez uma declaração a respeito de suicídio, criticando a percepção de vida de adolescentes que pensam em se matar.

Na sequência de vídeos — que ele apagou e depois publicou novamente — Carlinhos fala sobre crença em Deus, cobiçar a vida alheia e ter sentido na vida. Em dado momento, o influenciador, então, comenta que recebe mensagens de jovens de 16 anos falando "eu quero me matar". "Vai, ô, imbecil! Vai se matar porque você nem começou a vida ainda", disse, na rede social.

"Venha perguntar a uma mulher de 75 anos, que até hoje trabalha, que até hoje sustenta os netos, que até hoje tá varrendo o quintal, que tá catando latinha na rua para sustentar os bisnetos, venha perguntar se ela se matou com 16 anos", continua. "Eu não sei os seus motivos, mas sei os dela. Que com certeza não são menores que o seu. Comece a ser forte, porque a vida e a internet não são pros fracos".

A fala gerou críticas na internet, especialmente porque este é o mês da campanha Setembro Amarelo, que mobiliza a sociedade para discutir saúde mental e prevenção de suicídio. Neste ano, inclusive, o Ministério da Saúde anunciou que o foco das ações será em crianças e jovens.

Maia, que tem 16,4 milhões de seguidores no Instagram até a publicação desta matéria, justificou os Stories dizendo que fez uma reflexão "sobre não desistir na primeira pancada" e não sobre depressão ou para incitar o suicídio.

Veja os Stories de Carlinhos Maia:

"Em momento nenhum eu falei de depressão, o assunto não era esse, era sobre gente que queria desistir na primeira pancada e cobiça o que é do outro", disse Maia, na rede social, após ter gerado a polêmica. "Não tem nada a ver com depressão. Eu estava falando do todo, de pessoas que mal começam a vida... Em momento nenhum eu falei de distúrbios psicológicos".

Blue_Cutler/iStock
Imagem: Blue_Cutler/iStock

Sentimento não se compara

Para a psicóloga, especialista em suicídios e autora sobre o tema Karina Okajima Fukumitsu, o comentário de Carlinhos -- que pode ser reproduzido por pessoas que estão próximas ao jovem com pensamentos suicidas -- não contribui para o equilíbrio emocional do adolescente.

"Não ajuda, porque sofrimento não se compara. Tenho uma frase que digo: 'o sentido é daquele que sente a dor'. Um dos maiores agravantes da prevenção ao suicídio, o maior desafio, é enfrentar o julgamento, desmistificar alguns pensamentos prejudiciais. Há o 'quem quer se matar não fala' e o de não levar a sério o que a pessoa está dizendo", pontua. "Quando nossos filhos falam, é um pedido de socorro. Por isso, precisa perguntar: o que está doendo tando a ponto de você pensar em se aniquilar?'".

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é a segunda principal causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, entre 2000 e 2015, houve aumento de 65% nos casos entre pessoas de 10 a 14 anos, e de 45% entre pessoas de 15 a 19 anos. Os dados são do Mapa da Violência, publicado em 2017, com dados do Ministério da Saúde.

A psicóloga explica que a melhor forma de ajudar é demonstrar acolhimento, respeitar a individualidade, oferecer escuta e eliminar "ou, pelo menos, suspender" o julgamento da pessoa que tenta se suicidar ou fala sobre a vontade de morrer.

"Você tem tudo" não significa equilíbrio emocional

Marjan_Apostolovic/iStock
Imagem: Marjan_Apostolovic/iStock

Em sua declaração, Carlinhos compara a experiência de vida de um jovem com pensamentos suicidas ao estilo de vida de uma mulher de 75 anos, ambos hipotéticos, que trabalharia para ajudar a sustentar netos e bisnetos.

Para Karina, o pensamento também pode ser reproduzido entre pais e adultos que vivem com adolescentes e se veem diante de um quadro de depressão ou tentativa de suicídio. A ideia de que os jovens não têm problemas suficientes ou "têm tudo" e, por isso, não há pelo que sofrer, pode ser um obstáculo na superação do problema.

"Quando se diz 'mas, você tem tudo', não se aceita que o adolescente está em vulnerabilidade; e, às vezes, ter tudo em bens materiais não significa que ele tenha tudo emocionalmente", comenta.

É preciso lembrar, de acordo com a especialista, que ninguém que tem o desejo de se matar está bem psicologicamente. "Criticar só vai deixar a dor mais em carne viva. É uma panela de pressão que, quando não explode em doenças, implode em suicídio. Por isso, é necessário o acolhimento dos pais, da escola, dos amigos e até desses criadores de conteúdo, influenciadores", analisa.

Influenciadores e saúde mental

"Mesmo que eles não falem sobre saúde mental, os influenciadores podem fazer um trabalho preventivo, sugerir que os seguidores procurem psicólogos e psiquiatras, procurem ajuda. E, se não trata de depressão, saúde mental, então é melhor não dar conselho", aconselha Karina.

Para ela, as pessoas que atuam na internet também devem se preocupar com seu bem-estar emocional e psicológico.

"Faz sentido cuidar desse moço [Carlinhos Maia], falando que o melhor discurso seria de não comparar sentimento, mas procurar ajuda. E vai saber se estes casos [de receber mensagens de pessoas que dizem que vão se matar] acessam a vulnerabilidade dele também, de alguma forma".

Onde procurar apoio

O CVV - Centro de Valorização da Vida tem um canal para receber ligações gratuitas de telefone fixo e celular: 188. O canal de apoio emocional e prevenção ao suicídio é para pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, 24 horas todos os dias. É possível entrar em contato pelo site do CVV, e falar por chat e e-mail.

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