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Mães e filhos


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Como Eduardo Bolsonaro, é possível aprender história em aula no Youtube?

O youtuber Felipe Castanhari: 12 milhões de inscritos em suas aulas - Reprodução
O youtuber Felipe Castanhari: 12 milhões de inscritos em suas aulas Imagem: Reprodução

Lucas Sposito

Colaboração para Universa

01/09/2019 04h00

No início da semana, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) revelou que tem usado o Youtube para estudar história nacional. O filho do presidente está em preparação para a sabatina que o tornaria elegível para ser embaixador em Washington, nos Estados Unidos, e tem revisto conteúdos sobre "Leopoldina, Bonifácio e Princesa Isabel" em um perfil de direita.

Apesar de a informação surpreender por vir de alguém da alta escala política, a prática de estudos por plataformas digitais torna-se mais comum a cada dia. Não importa se o interessado está no ensino fundamental, estudando para um vestibular ou mesmo que já tenha se formado.

O Youtube conta hoje com canais sobre todas as matérias. Os que fazem mais sucesso costumam ser dedicados a vestibulares, mas ainda sim, canais de ciências humanas costumam ter um público muito mais abrangente.

Felipe Castanhari, dono do Canal Nostalgia, é seguido por mais de 12 milhões de inscritos no Youtube. Ele defende que dependendo da qualidade do conteúdo, é possível aprender tanto com vídeos quanto em uma aula na escola.

"Eu acho que tem muitas coisas que a gente consegue, sim, aprender no Youtube. Tem canais maravilhosos, inclusive de professores de química, matemática, português, que têm ali um conteúdo bacana e confiável. Acho que é possível aprender no Youtube como na escola", conta.

Ainda assim, ele acredita que as horas na escola continuam sendo fundamentais para os alunos: "Aprender tudo (no Youtube) é complicado. Porque você precisaria de alguns bons anos para consumir e absorver a mesma quantidade de conteúdo que a gente absorve quando está na escola."

"Tem professores que são maravilhosos e conseguem dar aulas que tem apelo, pois o vídeo é muito bem editado. Por ser uma forma de mídia, é possível juntar material de arquivo, animação... utilizar tudo aquilo para sua explicação. Então o vídeo sempre vai ser absorvido de maneira mais fácil pelas pessoas. Mas existem professores que também conseguem dar aulas maravilhosas, melhores que vários vídeos que já vi."

Batalha dos professores

A dificuldade dos professores para atrair o mesmo interesse dos jovens é grande. Daniel Perry, diretor do Anglo Vestibulares, diz que há um trabalho para que a linguagem da sala de aula flua melhor com adolescentes.

"Sem dúvida, a linguagem da internet faz parte da realidade deles. E os professores precisam se adaptar desenvolvendo vocabulário, trabalhando analogias e metáforas que estejam ligadas a esta realidade. Desta maneira, é importante que os professores entendam esta lógica para atingir os alunos de maneira mais eficiente."

Perry aponta que o aprendizado multimídia é tendência no mundo todo, mas deve haver um cuidado para que o material seja confiável e endossado por instituições de ensino.

"Com certeza é possível adquirir conhecimento através de aula-vídeo no Youtube ou qualquer outra plataforma. Há, inclusive, no exterior, universidades praticamente online para o curso todo. Há cursos de pós graduação, dentre outros", ele diz. A rede de escolas em que ele trabalha tem inclusive uma plataforma que contém vídeos com resoluções de exercícios e explicações teóricas vinculada ao material didático. Dessa maneira, tentam estimular alunos a procurar canais confiáveis e não aleatórios no Youtube.

História virou uma matéria polêmica

No topo das matérias mais polêmicas a serem estudadas está História. O viés ideológico de cada canal pode alterar os fatos, podendo assim confundir um jovem estudante que vai atrás de informação.

Felipe deixa o aviso para que busquem pelos melhores canais: "A questão é quanto de tempo você vai dedicar para isso e se você vai estar procurando a informação no lugar correto — tem muito canal focado em sensacionalismo e teorias da conspiração."

Para não cair em ciladas, ele alerta, é preciso ver se o conteúdo não é uma pessoa atacando a outra, por exemplo. Uma das dicas é ver em que material os youtubers se apoiam, se são levados à sério no meio acadêmico.

Daniel Perry defende que esse não é um problema apenas do Youtube, já que pode ser encontrado em diversas mídias: "A matéria de História pode ser distorcida em qualquer mídia. Seja um livro, uma revista, um jornal, um artigo na internet ou uma aula vídeo no Youtube. Não é o Youtube em si que distorce a matéria, a ciência. É o escritor ou o autor. Dependendo do viés ideológico, da sua formação, da sua substância científica, do seu intuito", ele fala. Nesses casos, é melhor confirmar com professores que se esses profissionais da internet estão alinhados com a verdade.

E completa que esses aprendizados online sejam equilibrados com a leitura. E que para isso, é fundamental que a influência venha da família: "O hábito da leitura deve ser estimulado nos jovens desde a infância. Os pais podem começar lendo histórias para os filhos, depois indicando livros e conversando sobre os livros. Se a leitura for um hábito da família como um todo, o jovem também vai adquirir gosto. E, desta maneira, vai saber equilibrar melhor as informações. Pode assistir aulas pelo Youtube, mas também é preciso ler."