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Vendeu salgado para pagar dívidas, hoje tem 14 lojas e fatura R$ 3 milhões

Elizabete Monteiro fundou a Tio Coxinha depois de fracasso com costura - Divulgação
Elizabete Monteiro fundou a Tio Coxinha depois de fracasso com costura Imagem: Divulgação

Paulo Gratão

Colaboração para Universa

29/08/2019 04h00

Desempregada, com uma tentativa fracassada de empreendedorismo e muitas dívidas, Elizabete Monteiro, 40 anos, de Caraguatatuba (litoral norte de São Paulo), queria realizar pelo menos um sonho em 2013: a festa de aniversário de 15 anos da filha. Ela decidiu fazer os salgados por conta própria e, quando levou para amigos experimentarem, recebeu propostas de compras dos quitutes.

Como precisava do dinheiro, não pensou duas vezes e vendeu. Dez dias antes da festa, sua vida tinha mudado completamente de rumo, com dívidas maiores ainda e nenhum salgado para servir aos convidados. Hoje, ela é dona da rede Tio Coxinha, com 14 franquias, e espera faturar R$ 6 milhões em 2019.

Elizabete teve uma vida simples desde a infância, mas garante que nunca teve medo de arriscar e sonhar alto. Quando tinha onze anos, a família cultivava uma pequena horta e ela era a responsável por levar as verduras para vender no bairro, de bicicleta. Seu primeiro emprego formal foi como faxineira, e depois se tornou promotora de vendas, onde ficou por dez anos.

O primeiro fracasso

Cansada da função, decidiu pedir as contas e tentar investir em algum negócio próprio. "Apareceu uma oportunidade de comprar máquinas para costurar. Eu nunca costurei, não sabia nem colocar uma agulha na máquina, mas eu precisava fazer alguma coisa", explica.

Ela apostou alto e comprou três máquinas. Tentou fazer um curso na região, mas foi barrada porque tinha renda familiar superior à exigida. Elizabete ficou revoltada e tentou argumentar que o negócio era para ela aprender um ofício, e não o marido, mas não adiantou. "Costurava roupas e quebrava agulhas, mas entrei de cabeça. Ficava até meia-noite fazendo para entregar tudo e vi que não era o que eu queria."

Ela se viu quebrada financeiramente, desempregada e com três máquinas de costura paradas em casa. Mesmo reticente, resolveu partir para outro ofício com o qual tinha mais afinidade. "Eu sempre gostei muito de cozinhar, mas não imaginava que queria aquilo para mim."

Divulgação
Imagem: Divulgação

Elizabete passou a fazer trufas para o marido vender no trabalho ou deixar em lanchonetes, em consignação. "Com o tempo, a produção começou a aumentar muito. Não dava mais conta de fazer na mão, precisei procurar por maquinário."

A festa

Enquanto iniciava sua busca por máquinas que ajudassem a derreter chocolates, Elizabete começava a trabalhar na festa de 15 anos de sua filha. Um sonho antigo, do qual ela não estava disposta a abrir mão.

"Como não tinha dinheiro, resolvi fazer tudo. Coloquei uma meta de fazer 5.000 salgados, mas o meu forte era doce. Chamei uma amiga pra me ajudar. Ela me ensinou e eu aprendi muito rápido."

Levou alguns salgados para amigos experimentarem e se surpreendeu quando recebeu propostas de compras dos quitutes. "Eu estava desempregada, sem dinheiro, e pensava naquelas três máquinas paradas. Essa renda seria muito importante lá em casa. Vendi."

Enquanto ainda procurava pela máquina de trufas, uma de salgados cruzou o seu caminho. Motivada pela boa fase dos quitutes, ficou tentada em trocar de investimento. A única diferença é que saltaria dos R$ 2.000 médios de uma máquina de derreter chocolates para R$ 37 mil, necessários para o equipamento de salgados. "Decidimos financiar a máquina. Eu produzia 500 salgados por semana e a máquina produzia 3.000 por hora. Meu marido e eu apostamos e pensamos o negócio lá na frente: vai dar certo." Ela conseguiu financiar a máquina em 36 parcelas.

Mais dívidas

Sem conseguir dormir direito com a dívida contraída, Elizabete ficou sabendo de uma pessoa, na região, que estava vendendo todo o maquinário para a produção de salgados e resolveu dar uma olhada de perto: "vai que é concorrência", pensou. O proprietário, na verdade, estava se desfazendo de diversas máquinas que serviriam para complementar aquela que ela havia comprado.

Ele cobrou pouco mais de R$ 6.000. A essa altura, Elizabete já contava com o marido e um casal de amigos como sócios. A empreendedora tirou R$ 4 mil do cheque especial, e o casal levantou o restante com uma televisão e uma máquina de lavar, comprada para abater no valor.

Começou a vender na Feira do Rolo

Ela acabou pegando amizade com a pessoa que lhe vendeu esse maquinário e recebeu a proposta de ocupar a vaga que ele tinha na Feira do Rolo, que acontece aos domingos, no centro de Caraguatatuba. Ela topou e a estreia da Tio Coxinha para o público já tinha local.

Ela lembra que no primeiro domingo na Feira conseguiu vender 6000 salgados. "Pouco depois de montarmos a barraca, meu sobrinho saiu do emprego, pegou a rescisão e resolvemos abrir a primeira lojinha. A marca ficou ainda mais visível".

Visibilidade atraiu franquias

Com a loja, algumas pessoas a procuraram para abrir mais unidades da Tio Coxinha. "Permitimos uma pessoa montar uma loja, depois uma segunda abriu outra unidade. Passaram-se dois anos e percebemos que tínhamos que estruturar o negócio. Foi aí que contratamos uma empresa e fizemos a formatação da franquia".

Atualmente, são 14 lojas em todo o litoral paulista, no Vale do Paraíba e em Guarulhos. O faturamento atual é em torno de R$ 3 milhões por ano e a expectativa é dobrar até o final de 2019, com mais dez lojas. "Fizemos o caminho inverso, saímos do litoral para a capital. O desafio agora é fazer com que as pessoas reconheçam a marca na capital. Estamos com algumas negociações", afirma.

E a festa?

A primeira máquina mais cara, de R$ 37 mil, chegou exatos dez dias antes do aniversário da filha. "A festa realmente aconteceu. Acho que eu morreria se não tivesse acontecido. Foi como eu imaginava, teve valsa, três vestidos, bolo e, claro, todos os salgados", relembra.

Mapa da mina