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Linguagem de sinais de bebê salva até nos 'terríveis 2 anos'. Como usar?

Linguagem de sinais para bebês  - Steve Debenport/iStock
Linguagem de sinais para bebês Imagem: Steve Debenport/iStock

Nathália Geraldo

De Universa

26/08/2019 04h00

Quando tinha por volta de um ano, Ana Elis só falava quatro palavras: mamãe, papai, "au au" e dá. Foi conversando com uma amiga sobre a comunicação da menina que a mãe, a jornalista Fernanda Alves, descobriu que existia uma linguagem de sinais para bebês que poderia facilitar o jeito da filha pedir água, dizer que estava com fome ou avisar que estava com sono. Usando só as mãozinhas.

Não é Libras, a língua brasileira de sinais. A linguagem de sinais é um método criado no início dos anos 90 pelas professoras eméritas de Psicologia na Universidade de Califórnia Linda Acredolo e Susan Goodwyn, nos Estados Unidos. A técnica é popular por lá, com livros publicados e até cursos de formação de instrutores. No Brasil, ainda é pouco conhecida.

A linguagem de sinais associa movimentos de mão com palavras que traduzem sentimentos, vontades e ações, para que a criança consiga expressar o que sente. Fernanda produz conteúdo sobre maternidade em suas redes sociais e resolveu mostrar a técnica para seus seguidores ao perceber que há poucas referências em português sobre o tema.

"Na época em que descobri, dei uma olhada no Pinterest, onde há tabelas de sinais, e vi muitas referências de fora. Só achei um vídeo de uma blogueira brasileira falando sobre isso, porque ela trabalhou no jardim de infância nos Estados Unidos, onde é mais comum".

Mãos juntas significam que o bebê "quer mais" alguma coisa - Steve Debenport/iStock
Mãos juntas significam que o bebê "quer mais" alguma coisa
Imagem: Steve Debenport/iStock

Há alguns sinais para imitar: quando a criança quer indicar que "quer mais", junta os dedinhos das mãos (como a mulher mostra na foto acima). Para "pedir para mamar", basta fazer o sinal como se estivesse tirando leite de uma vaca. Na hora de dormir, colocar as duas mãozinhas ao lado do rosto e virar o pescoço é a melhor (e talvez, mais conhecida) forma de comunicar a intenção.

"Manda tchau, dá beijinho"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Depois de ter usado a técnica com Ana Elis, até quando ela completou mais ou menos 2 anos, Fernanda começou a usar com o caçula, Caetano, quando ele ainda tinha seis meses. Hoje, a menina tem 5 anos e o irmão, um ano e meio.

Ela afirma que a linguagem é usada dentro de casa pela família, mas há estranhamento quando eles se comunicam assim na rua. "As pessoas acham que o Caetano tem alguma deficiência", explica.

"Eu sei que os benefícios são estabelecer uma troca maior com meu filho. Com a Ana Elis, foi a mesma coisa. Eu sabia o que ela precisava, o que estava pensando. Isso era muito bom, porque era um momento em que ela não conseguia se comunicar verbalmente de forma plena. No terrible two, quando a criança tem os acessos de raiva, ela conseguia falar para mim que estava com raiva".

Veja alguns sinais feitos por Fernanda e Ana Elis:

De acordo com a criadora da técnica, Linda Acredolo, a linguagem de sinais, na verdade, apenas acrescenta mais elementos aos hábitos que reproduzimos no dia a dia com as crianças, como pedir para ela mandar beijinho ou dar tchau para alguém.

"Com sinais literalmente 'na ponta dos dedos', os bebês são capazes de comunicar o que precisam, o que veem, o que lembram e até o que sentem. Esse nível de comunicação enriquece muito o relacionamento entre os bebês e as pessoas importantes em suas vidas".

Principais vantagens

Para a psicóloga Linda Acredolo, uma das criadoras da linguagem, as principais vantagens da comunicação são:

"A linguagem gera autonomia"

A psicopedagoga e professora de pós-graduação de Pedagogia da Infância da PUC-SP Neide Noffs avalia a técnica como "positiva". Para ela, a criança passa a ter uma ferramenta de comunicação e mais autonomia para estabelecer códigos de interação no cotidiano.

"Usar diferentes linguagens com os bebês é ampliar a interação e, nesse sentido, vejo como positiva a linguagem gestual. A gente já faz isso naturalmente e a criança também vai tentando se expressar, mesmo quando não tem a compreensão total da palavra. Com 1 ano, por exemplo, ela já vai no armário que tem bolacha, para mostrar que quer comer. Ela não fala, mas memorizou essa relação", explica. "Isso gera autonomia, com certeza".

A criança não vai falar?

    Neide pondera que não há porque imaginar que a criança não vai falar por usar a linguagem de sinais. "Não faz sentido pensar que o bebê vai retroceder na comunicação. Sempre que o adulto faz o movimento com as mãos, ele vai ser acompanhado de oralidade. Até porque, o adulto vai fazendo a inferência, perguntando se ele está com fome, e a criança, dependendo da idade, dá a resposta".

    Para a psicóloga, o fato de a criança crescer em um ambiente com cultura oral garante que ela aprenda a falar, caso ela não tenha nenhum outro fator que possa comprometer esse aprendizado. "A criança convive com a cultura oral. Os sinais não vão deixar ela preguiçosa para aprender a falar", pontua.

    Mãe nem sempre identifica o choro

    Arquivo Pessoal
    Imagem: Arquivo Pessoal

    A bancária Laís de Oliveira Pereira, mãe de Henrique, 3 anos, e Sophia, de um ano e um mês, passou a usar a linguagem de sinais com os filhos depois que descobriu o material de Fernanda na internet sobre o assunto.

    Ela já gesticulava muito para ensinar o mais velho a se comunicar, quando ele ainda tinha seis meses, mas explica que usar um dicionário mais direcionado de sinais ajudou muito na relação mãe e filho. "Era muito difícil para mim aquela história de 'a mãe vai saber reconhecer o choro'. Eu tinha dificuldade de entender o que ele queria. Quando Fernanda mostrou a técnica, comecei a aplicar os gestos. Antes, eu inventava, gesticulava, com uma comunicação minha e dele. Aí, usava para tudo: na hora de comer, de beber água, de mostrar que acabou, chamar para o banho".

    Com Sophia, Laís aplicou a técnica ainda mais cedo, quando ela tinha cinco meses. "Foi quando começou a tentar se comunicar. Sempre fui fazendo tudo muito instintivo, não tive orientação de nenhum profissional. No fim, foi a Fernanda mesmo que me influenciou".

    Para Laís, a linguagem é uma aliada no desenvolvimento dos filhos. "Só tem a agregar na comunicação, a criança não fica tão irritada porque ela sabe que você vai entender o que ela tá passando. Com Henrique, ajudou porque ele falou desde muito cedo, mas não sabia todas as palavras. Sophia já fala menos, então, os sinais estão sendo mais fundamentais ainda".

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