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Autoestima


'Barriga positiva': piercing e tatuagem mudam relação de mulheres com corpo

Luiza Junqueira fez tatuagem na barriga "positiva" e fala na internet sobre autoaceitação - Reprodução/Instagram
Luiza Junqueira fez tatuagem na barriga "positiva" e fala na internet sobre autoaceitação Imagem: Reprodução/Instagram

Nathália Geraldo

De Universa

19/08/2019 04h00

Braço, nariz, barriga, orelha. Se, para muita gente, a sequência de palavras é apenas uma lista de partes do corpo escritas aleatoriamente, para muitas mulheres, ela vem carregada de um significado negativo e de rejeição. Não gostar de uma parte de seu corpo abala a autoestima, sim, e de um jeito bem profundo, mas reparável.

O jeito que elas encontraram foi colocar um piercing ou fazer uma tatuagem nesses lugares. Em alguns casos, deixa de ser apenas uma intervenção meramente estética para se tornar uma forma de fazer as pazes com aquela partezinha do corpo que sempre incomodou.

Neste processo de autoaceitação do físico, ter um brinco ou um rabisco na pele é um símbolo de amor próprio: o nariz grande demais fica bonito com uma argola, a barriga vira motivo de alegria e um espaço a mais no corpo para fazer aquele desenho tão representativo.

É fato que a mulher, desde pequena, sofre com a lógica do "padrão de beleza" e, em maior ou menor grau, com a pressão estética -- a ponto de existir uma cirurgia plástica íntima para se conseguir o formato de vulva "perfeito". Pressionadas por uma ideia de "mulher perfeita", ainda sofremos com a "fragmentação" de partes do corpo que também devem se encaixar em padrões: o braço fino, o nariz fino, a bunda no tamanho ideal, a barriga chapada ou, se possível, "negativa".

Amor e positividade na barriga

Luiza fez duas tatuagens: "Elas são como totens da autoaceitação" - Reprodução/Instagram
Luiza fez duas tatuagens: "Elas são como totens da autoaceitação"
Imagem: Reprodução/Instagram

A youtuber Luiza Junqueira, do Canal "Tá querida", resolveu contrariar a lógica: criou um símbolo de sua "barriga positiva". Ativista do body positive (ela criou a tag Tour pelo meu corpo, no Youtube) e gorda, Luiza fez duas tatuagens na região abdominal muito representativas. Ao começar seu processo de autoaceitação, desenhou um coração de ponta-cabeça no lugar, "que sempre foi de muita rejeição".

"Um dia eu estava bem à toa, em casa, sem roupa e olhei para minha barriga. Pensei em quanto eu já tinha sentido ódio por ela e o quanto agora eu gostava dela. Por isso, tive a ideia de desenhar um coração virado para mim e, agora, quando estou sentada e olho para baixo, é isso que eu vejo", explicou para Universa. "Virou quase um totem no meu processo de aceitação do corpo".

Logo abaixo do coração, a youtuber fez uma carinha feliz, bem simples: dois pontinhos e um parêntese. Pronto, esse virou o símbolo de sua "barriga nada negativa".

"Comecei a usar mais blusa cropped, mostrando a barriga, como uma afronta. Mas a tatuagem de coração não aparecia e eu queria que aparecesse alguma coisa, porque as pessoas sempre notam uma gorda de cropped. Então, no lugar para onde iriam olhar de forma gordofóbica, agora muita gente olha e sorri", explica.

"Acho que, principalmente para mulheres, pode ser que vire uma chavinha no jeito de pensar o corpo. Mas, vale dizer que eu uso cropped com calça de cintura alta, ou seja, a parte mais rejeitada da minha barriga ainda fica escondida".

Tatuagens no braço "gordinho"

Mariana tem feito tatuagens no braço e se sente mais bonita - Arquivo Pessoal
Mariana tem feito tatuagens no braço e se sente mais bonita
Imagem: Arquivo Pessoal

A redatora UX Mariana Amorim conta que sempre gostou de tatuagem, especialmente nos braços, mas costumava achar bonito apenas nos outros. "Eu pensava que, se fizesse uma, iria ficar com vergonha de mostrar, porque meu antebraço já é uma área mais gordinha do meu corpo".

Após anos fazendo as pazes com o corpo, Mariana fez uma rosa na área. E foi colocando mais desenhos na pele. "A mais recente foi no bíceps, a parte mais gordinha do braço. Fiz uma mariposa. Tudo isso tem sido um processo de consciência, porque sempre tive problema com efeito sanfona, fazer dieta, não gostar do meu corpo", confessa.

"Agora, eu me acho bonita tatuada. É a forma que encontrei de valorizar o que eu não gostava.

"Não me considerava magra suficiente para tatuagem"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

A tatuagem de flor entre os seios, acompanhada da palavra resist ("resistir"), também foi a forma da produtora audiovisual Isadora Baptista trabalhar sua autoimagem. Ela teve um histórico de transtornos alimentares e também encanava com a barriga. "Eu sempre gostei de tatuagem, mas não me considerava magra o suficiente para tatuar. Pensava: 'quando eu emagrecer, eu tatuo'".

Fazendo terapia, Isadora sentiu que começou a aceitar mais sua forma física. A tatuagem, na linha do abdômen, foi um marco para a fase nova.

"Toda vez que olho para minha barriga, que é a parte que me incomoda, eu vejo a palavra 'resist'. Não vou dizer que ressignifiquei 100% meu corpo, mas o desenho vai me ajudar nesse processo e, se eu tiver algum dia ruim, isso vai me fazer lembrar que é só um corpo".

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Já a dona de casa Beatriz Pereira Galvão da Silva tinha questões com seu nariz, que achava "muito grande". Aumentou a autoestima depois que fez um piercing justamente nessa área do rosto.

"Eu não gostava do meu nariz, achava ele grande. Sempre tive vontade de por o piercing, e quando coloquei, amei. Não consigo ficar sem e acho meu nariz lindo agora".

Mudar o corpo também muda a cabeça?

Para a psicóloga cognitiva Luciana Gonzalez, a atitude de modificar o corpo com piercing e tatuagem para dar um novo valor a alguma partezinha que gera incômodo tem o mesmo sentido do uso da maquiagem.

"É importante dizer que a mulher está colocando um valor no nariz grande, no braço mais gordo, mas, se não mudar a percepção da autoimagem, se ela ainda for negativa, não vai adiantar", explica. É como a maquiagem. Nos sentimos bonitas, mais próximas do que desejamos, mas não adianta disfarçar o que não gosta apenas. É preciso realmente pensar de outra maneira sobre aquela parte do corpo.

Para Luciane, não adianta mudar só a parte externa. "É claro que o que está por fora e o que está dentro estão ligados por uma questão comportamental, mas é preciso se perguntar: 'quem te falou que o nariz é feio?', 'qual é o padrão?'". E aí, sim, transformar externamente o que quiser.