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"Afroterapeutas": por que elas preferem fazer terapia com psicólogos negros

Ana Cristina mudou para uma psicóloga negra e passou a entender o racismo estrutural - Arquivo Pessoal
Ana Cristina mudou para uma psicóloga negra e passou a entender o racismo estrutural Imagem: Arquivo Pessoal

Nathália Geraldo

De Universa

15/08/2019 04h00

Estar em um consultório para cuidar da saúde mental pode significar mexer em espinhos que foram colocados a vida inteira na subjetividade. Mulheres negras, por vezes, vão ao divã para reviver e elaborar situações de racismo e as batalhas que enfrentam por fazerem parte de dois grupos que são minorias, pelo gênero e pela cor.

Falamos com alguma mulheres que estão atrás de acolhimento para questões que passam por sua cor de pele e acabam preferindo ser atendidas por psicólogas e terapeutas negras por uma questão principal: identificação. O racismo, a solidão na vida amorosa, o preconceito em espaços como ambiente de trabalho, a dificuldade de ter autoestima estão entre os temas. Motivos para tratamento não faltam em um país em que a rapper Stella Yeshua foi confundida com uma funcionária de limpeza por ser negra, por exemplo.

Thalita acha importante ser atendida por uma psicóloga com recorte de raça e gênero - Arquivo Pessoal
Thalita acha importante ser atendida por uma psicóloga com recorte de raça e gênero
Imagem: Arquivo Pessoal

"Ela entende minhas vivências e sabe o que é ser uma mulher negra na sociedade. Acho muito importante ter esse recorte racial e por gênero", explica a designer de moda Thalita Ramos de Oliveira Ignácio da Silva, que é atendida por uma psicóloga negra há três anos em São Paulo (SP). "Ela não vai achar que estou me vitimizando".

Mulher negra e o racismo: formas de entender a dor

A consultora de Marketing e Eventos Nathalia Alves, de São Paulo (SP), é uma mulher negra que foi atrás de terapeuta negra depois de ter vivido uma situação de racismo no ambiente profissional, em que recebeu "áudios agressivos" de uma pessoa envolvida em um trabalho.

"Eu entendi que apenas uma mulher igual a mim entenderia essa dor. E poderia ajudar no processo de 'cura'. Para mim, é isso: o que mais ajuda ser uma profissional negra é que não preciso justificar as situações de racismo para explicar o que sinto. Então, podemos ser mais objetivas".

A produtora audiovisual Ana Cristina Pinho, de São Paulo (SP), faz terapia há 15 anos, mas foi a necessidade de "lidar com o racismo de forma mais aprofundada" que a fez procurar uma terapeuta negra.

"Quis perceber o meu analista como um espelho, o que, segundo Freud, é essencial no processo terapêutico. Para mim, é muito diferente falar sobre isso com alguém que já sofreu, ou ainda sofre com o racismo".

Depois de ter passado por várias linhas terapêuticas, como "terapia em grupo, de 15 minutos pelo plano de saúde, analistas freudianos e lacanianos", Ana Cristina percebeu que suas questões relacionadas ao racismo estrutural -- aquele que se reflete em hábitos, comportamentos que fazem parte da formação da sociedade -- eram tratadas por ela de forma muito superficial.

Ana Cristina passou a falar sobre racismo estrutural com terapeuta negra e rever questões pessoais - Arquivo Pessoal
Ana Cristina passou a falar sobre racismo estrutural com terapeuta negra e rever questões pessoais
Imagem: Arquivo Pessoal

"Como para resolver algumas coisas é preciso resgatar outras, eu sentia que faltava algo. Os terapeutas brancos não estavam preparados para lidar com racismo e preconceito, por exemplo. Agora eu sei que abordava esses assuntos de forma muito superficial, mas não por minha causa, era muito mais pela falta de conhecimento dos profissionais da área".

"A culpa não é minha"

Há três anos sendo analisada por uma terapeuta negra, Ana Cristina passou a enxergar suas vivências, como a vida profissional, sem a culpa que recaía sobre seus ombros pelo fato de ser uma mulher negra em diferentes espaços.

"A mudança para uma afro-terapeuta me fez entender e melhorar muitas questões pessoais. Uma delas foi a de que o racismo estrutural faz parte da nossa sociedade", ela diz.

Não adianta ser a melhor aluna da faculdade ou uma profissional de excelência. É a minha cor que vai determinar quais espaços posso frequentar.

Ela percebeu que não tinha culpa por não alcançar os mesmos salários que os colegas brancos e homens, que fazem a mesma função que ela. "Isso é transformador. Tira um peso dos ombros, ao mesmo tempo em que traz uma certa revolta", pontua.

Da culpa, fala também a terapeuta Mariana da Costa Pedro Nogueira da Luz, de São Paulo (SP): "A mulher negra precisa cuidar da saúde mental, mas não podemos transferir a culpa para quem sofre os efeitos do racismo; a culpa é do racismo", avalia.

Mariana, mulher negra que atende pacientes negros e não-negros, considera que "todos devem passar por um processo terapêutico", independentemente de questões raciais. Pondera, entretanto, que para muitas mulheres negras deitar em um divã de um profissional negro pode fazer mais sentido do que ser ouvida e analisada por um terapeuta branco, amarelo, indígena.

"É importante abordar raça, porque ela não só é um marcador social, ela transpassa nossa existência. E é fato que a mulher negra pode sofrer violências desde a primeira infância (até 7 anos), o que faz com que ela cresça desacreditando de suas potencialidades. Aí, isso se reflete quando ela vai para o mercado de trabalho, em suas relações afetivas, amorosas".

Saúde mental preocupante

A saúde mental da mulher negra, de fato, tem dados preocupantes. De acordo com estudo sobre o índice de suicídios entre jovens negros no Brasil, publicado pelo Ministério da Saúde com a Universidade de Brasília em 2018, adolescentes e jovens negras apresentavam um risco de suicídio 20% maior que as brancas em 2016, ano em que as instituições encerraram a investigação.

"A terapia não é a única forma de se cuidar, mas é uma das maneiras. Estamos olhando para nosso país, de maioria negra, em que estamos nos piores índices de tudo: violência, desemprego, quem mais mata e quem mais morre. Se a gente não cuidar da gente, não consegue resistir em meio a essa sociedade que não é feita para nós", explica a terapeuta.

Vale lembrar que, no mesmo ano, entre jovens e adolescentes homens negros, o risco de suicídio foi 50% maior que entre brancos.

Terapia com plano social

Diante da procura de pacientes negras por psicólogas negras, a psicanalista Tatiane Alves Santos resolveu compartilhar informações sobre seu atendimento em um grupo fechado do Facebook, criado justamente para esse fim: o "Afroterapeutas".

Um de seus diferenciais é o atendimento por plano de saúde -- "para abarcar a população que às vezes não tem dinheiro, mas tem um plano no local de trabalho" -- e os estudos que tentam desvendar o tratamento das relações étnico-raciais dentro do consultório. "Durante minha formação, percebi que havia uma necessidade de voltar o atendimento para uma questão de identidade, não só da comunidade negra, como das pessoas LGBTQI+".

Por ter uma abordagem terapêutica em que considera cada paciente como um indivíduo, Tatiane explica que lida com várias questões de subjetividade ligadas à negritude e ao gênero. Em comum, a solidão da mulher negra e o racismo vivido em situações cotidianas.

Profissionais de Psicologia e a conduta sobre racismo

Vale dizer que a procura por profissionais negros faz parte de uma preferência definida por essas pessoas, sem orientação expressiva de nenhum órgão da categoria. "Pessoas podem se consultar com qualquer pessoa, o paciente também pode encontrar acolhimento com um profissional que não seja negro", explica Mariana.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) tem material de orientação em que destaca a necessidade de que os profissionais entendam que "há um sofrimento psíquico peculiar, sutil e explícito presente no cotidiano da vida de pessoas negras". Há também uma Resolução de 2002 que estabelece "normas de atuação para os psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial".

Universa pediu ao Conselho informações sobre a quantidade de profissionais negros no País, entre outras questões, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria.