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Pepita: travesti bomba na web com dicas amorosas, mas sofre na paquera

Mulher Pepita se tornou a
Mulher Pepita se tornou a 'rainha' dos conselhos amorosos nas redes sociais Imagem: Reprodução/Instagram

Nathália Geraldo

De Universa

14/08/2019 04h00Atualizada em 14/08/2019 11h55

Funkeira, travesti, carioca de Marechal Hermes e a conselheira amorosa que você precisa ter na sua vida --mas ainda não sabe. Mulher trans, Priscila Nogueira, a Pepita, ficou famosa na internet por um vídeo vazado de seu celular em que ela aparecia dançando. Suas pernas, grandes, foram criticadas nas redes sociais.

Seria só mais uma história de ódio destilado nas redes se ela não tivesse feito desse limão uma limonada. Pepita lançou carreira musical com sucessos como "Tô à procura de um homem" e "Uma vez piranha" (versão para o hino do Flamengo), gravou videoclipes e passou a fazer shows pelo Brasil.

Daí, foi bombar no Instagram, nos Stories e no IGTV, com o programa "Cartas Pra Pepita", onde conquistou o coração dos internautas e ganhou o título de "uma das melhores psicólogas da internet", dado por seus mais de 500 mil seguidores.

Pepita é uma professora das palavras de afeto e gosta mesmo é de falar de amor. "Eu conheço o amor. O amor por uma pessoa, por uma comida, por um bichinho. E sempre tive essa voz doce, além de ter aprendido com minha mãe a respeitar o próximo em qualquer lugar. Quando gravo os vídeos e falo com meus seguidores, falo o que acredito."

O sucesso arrebatador fez com que o programa "Cartas Pra Pepita", do IGTV, virasse livro. É nele que ela dá dicas de relacionamento e, principalmente, de autoestima, com base nas mais de 2.500 mensagens que recebeu de seus fãs pedindo ajuda. "É muito bonito, as pessoas me conhecem a partir de uma tela e contam suas histórias. Para isso, elas precisam confiar muito em mim", reflete.

Pepita: "Autoestima na cabeça do Cristo Redentor"

"Cartas Pra Pepita" completou 1 ano em IGTV; agora, conselhos amorosos estarão em livro - Reprodução/Instagram
"Cartas Pra Pepita" completou 1 ano em IGTV; agora, conselhos amorosos estarão em livro
Imagem: Reprodução/Instagram

Mulher Pepita, ou Pepita, como se identifica em suas redes sociais, se tornou uma "coach" de vida para seus seguidores no Instagram. Nos Stories, no feed, em vídeos do IGTV, Pepita espalha a palavra do respeito, do amor e da autoestima que, como diz em uma das suas publicações, precisa sempre estar "lá na cabeça do Cristo Redentor".

Em seus conteúdos, as dicas de vida se misturam à militância como mulher trans e travesti; afinal, o Brasil é o país em que mais se mata esse grupo de pessoas.

"A maioria dos travestis tem uma vida meio perdida, mostram que estão bem, mas estão sofrendo. Ser considerada uma das 'melhores psicólogas da internet no Brasil' é um orgulho. Ao mesmo tempo, é assustador", conta ela, em entrevista para Universa.

Às vezes fico deitada na cama pensando em quantas pessoas estão me ouvindo. Mas, fico muito orgulhosa, porque a gente consegue ter nosso espaço como travesti. Sou a pessoa que foi julgada e criticada pelo corpo e, depois de um ano, tenho o 'Cartas Pra Pepita' virando um livro

Mande sua cartinha

No "Cartas", Pepita usa um formato muito semelhante aos programas de TV sobre relacionamento: depois de escolher a mensagem dos participantes sobre namoro, traição, ciúme e outras vivências, ela analisa a pergunta (às vezes, com participantes) e dá um conselho com o que a pessoa deve fazer.

"Respondo muito sobre amor próprio, porque as pessoas se sujeitam a algumas coisas só para ter alguém do lado. Aí, dou um puxão de orelha -- 'meu amor, vamos se amar, cadê a autoestima?' -- mas sempre com humor, porque se a pessoa me procurou, ela quer uma ajuda", explica.

Melhor que "bom dia" do grupo do WhatsApp

Já nos Stories e no feed do Instagram, Pepita publica vídeos com mensagens motivacionais, frases de autoajuda que se tornam virais e, por vezes, vão parar até no Twitter. "As pessoas estão carentes, muito egoístas, então, as mensagens alimentam a alma de muita gente", explica.

Para Universa, Pepita deu uma pílula de sabedoria sobre "se permitir". "A palavra que eu levo para vida é se permitir. Conhecer pessoas, temperos, locais, ser feliz. Não ficar com medo do que a amiga vai dizer, porque você está com fulano, por exemplo. Só você sabe o que ele oferece para você."

Há também recados com versões mais bem-humoradas. "Quero agradecer a você que fala de mim por trás. Você está no lugar certo. Se você fosse tão bom, você estaria do meu lado, ou do outro, ou na minha frente", alfineta Pepita no vídeo, que pode ser visto logo abaixo.

Pepita, e a vida amorosa?

Mas, será que tanta sabedoria e desenvoltura também se aplicam à vida pessoal de Pepita? "Eu sou tímida. Estou ensaiando um monólogo em que vou contar como é a vida de travesti, mas pisar no palco vai ser um desafio", comenta.

Mesmo sendo uma "fada sensata" ou "cristal sem defeitos", como seus fãs a chamam quando dá conselhos de amor, Pepita conta que "se treme toda" quando alguém demonstra interesse. "Não sei paquerar. Quando alguém está me olhando, me querendo, eu me tremo toda. Preciso tomar uns 'curicutico' para me soltar."

Cerveja, caipirinha, catuaba fazem parte dos gostos de Pepita, o que ela fez questão de divulgar em outro vídeo no Instagram, em um típico convite para "sextar".

E depois da fama, conta a conselheira amorosa, as pessoas passaram a ter medo de se aproximar. "Eles têm medo de mim. Mas, ex tá aparecendo! Linda, linda, voltar pro ex é a mesma coisa que tomar banho e colocar a mesma roupa", explica, ensinando e aprendendo ao mesmo tempo, como só os sábios sabem fazer.

Isso quer dizer que Pepita está à procura de alguém para se relacionar, "com o currículo solto por aí".

Ela, aliás, não se define em relação à orientação sexual. "Eu sou arco-íris, gosto de pessoas. Se eu quiser, fico com drag, homem trans, POC, se eu vejo alguma menina bonita e tenho vontade de ficar, eu fico. É com quem eu me sentir bem."

"A letra 'T' é a que mais assusta, mas temos o maior coração do mundo"

Chamada de "dinda" pela comunidade LGBTQI+, Pepita conta que sofreu muito preconceito no início da carreira, justamente por ser uma funkeira travesti carioca. Mas, uma das referências que a fez seguir em frente foi sua mãe, "que lhe deu seu primeiro peito e o primeiro sutiã" quando tinha 18 anos. "Ela me ajudou muito a me tornar a mulher que eu sou hoje."

Família, aliás, é uma palavra de bastante significado para Pepita. Além de sempre iniciar seus vídeos com "Oi, família", para se referir aos seguidores, ela conta que teve o apoio da mãe, do pai (morto há dois anos) e dos três irmãos, para se tornar quem é hoje, especialmente na transição -- processo comum às pessoas trans.

"Me dou muito bem com eles. Mudei para São Paulo por conta do trabalho e todo dia minha mãe me liga para ouvir minha voz e minha respiração. Sem contar que, quando eu virei Priscila, minha irmã virou Cadu", conta, a respeito de ter um irmão trans.

A história de Pepita é mesmo ímpar. Trajetórias de sucesso de mulheres trans ainda são exceção. "A gente precisa ter travesti coach, travesti advogada, empresária, dentista. A letra 'T' ainda assusta, mas as pessoas precisam saber que temos o coração maior do mundo".

O livro "Cartas Pra Pepita" será lançado em 8 de setembro na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro.

Assista abaixo ao programa Baxaria com Pepita e Dora Figueiredo.