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Mães e filhos


Mães e filhos

Mães divulgam no Facebook cartas que acreditam ser dos filhos mortos

Nara perdeu o filho Marco (foto) há mais de 23 anos em um acidente de moto. Hoje, ela administra redes virtuais para consolar, conectar e compartilhar cartas psicografadas  - Arquivo pessoal
Nara perdeu o filho Marco (foto) há mais de 23 anos em um acidente de moto. Hoje, ela administra redes virtuais para consolar, conectar e compartilhar cartas psicografadas Imagem: Arquivo pessoal

Marcos Candido

De Universa

07/08/2019 04h00

"Estou aqui, querida mãezinha, para te dizer que não morri e retorno para seus braços por meio desta carta".

Assim começa um texto que teria sido psicografado em nome de um garoto chamado Rafael. Junto ao depoimento está uma foto dele, no qual o garoto sorri com certa timidez e direciona um joia com os dedos para a câmera. Na carta, ele conforta os pais.

"Prometa a mim que as suas lágrimas serão apenas de saudades. Reviva, a vida continua", escreve."O acidente foi um pretexto para que eu retornasse".

A carta supostamente psicografada por um médium de Cuiabá não está sob confidência familiar. O texto, na verdade, foi publicado pela página "Nossos Filhos Estão Vivos" no Facebook e tem mais de 50 respostas e 20 compartilhamentos. Nos comentários feitos para a foto de Rafael, pais e mães manifestam o desejo de também terem a carta publicada.

De acordo com a fundadora, Nara Nardez, 71, a página conecta e consola famílias que perderam filhos e entes queridos. A administradora recebe cartas psicografadas por médiuns e pede autorização das famílias para divulgá-las na rede social. A publicação é gratuita.

O filho empresária Micheli Delfino morreu aos 15 anos. Ela, então, era evangélica. É praticante da doutrina espírita desde que recebeu uma carta do filho - Reprodução/Facebook
O filho empresária Micheli Delfino morreu aos 15 anos. Ela, então, era evangélica. É praticante da doutrina espírita desde que recebeu uma carta do filho
Imagem: Reprodução/Facebook

Marco, o filho de Nara, morreu há mais de 20 anos em um acidente de moto. Ele tinha 21 anos. À época, ela já estudava espiritismo e recebeu uma carta que teria sido psicografada do filho. "Ele me dizia que estava num hospital, dormindo tranquilamente sob os cuidados do avô paterno", relembra.

Dona de casa, ela dedica-se a cuidar das plantas e vive em uma chácara em Cuiabá. Além da página no Facebook, também administra um grupo no WhatsApp com 200 pessoas e o mesmo objetivo de conectar e confortar mães. Até hoje, Nara diz que se comunica com o filho. "Meu filho está sempre muito presente. No fim das mensagens, ele nos agradece por mantê-lo vivo", explica.

Para a doutrina espírita, a psicografia é uma forma de contato com o mundo espiritual por meio da escrita à mão. Para o espiritismo, o ser humano que morre parte com as mesmas características para um plano espiritual.

A conexão com o outro plano pode ser feita por qualquer pessoa, mas costuma-se ser realizada por quem estuda mais a fundo a chamada "educação mediúnica" para receber, compreender e transcrever mensagens de quem morreu - ou "desencarnou". "A mediunidade nos foi dada como um instrumento de auxílio, de consolo e de ajuda", Vera Cristina M. O. Millano, diretora da Federação Espírita do Estado de São Paulo.

Auxílio, consolo e ajuda é o que a empresária Micheli Delfino encontra em cartas psicografadas por médiuns e atribuídas ao filho.

Em uma manhã de março de 2013, ela recebeu o telefonema da escola onde o filho estudava, em Cuiabá. Gustavo, 15, estava com febre. A mãe orientou os coordenadores do colégio para enviar o filho de volta para casa. O garoto parecia melhor, mas no horário do almoço, quando Micheli preparava-se para retornar ao escritório, a febre retornou. Os dois foram a um hospital em Cuiabá.

Os médicos diagnosticaram uma virose e depois uma amigdalite. Um soro reduziu a febre. Eles voltaram para casa, mas Gustavo passou a vomitar e ter manchas pelo corpo. Cerca de 24 horas depois, ele foi colocado pelos médicos em uma área isolada. Nesse momento, começaram as convulsões. "Eu pedi a ele: 'me ajuda, filho!'. Foi a última vez que ele me ouviu", lembra.

Gustavo entrou em coma e teve morte cerebral dias depois. Por mau diagnóstico, os médicos não diagnosticaram uma meningite. "No dia 19 de março, às 6h da manhã, ele desencarnou".

Hoje, Micheli já recebeu seis cartas que seriam do filho. Em uma delas, divulgada no Facebook, o texto atribuído a Gustavo elogia a mãe. "Estou orgulhoso de você. Vejo que nossos corações aos poucos vão saindo do luto que parece eterno, mas não é. Você tem tomado atitude e tem saído do túmulo do desespero e da descrença e já cultiva a certeza de que estou vivo e sempre que puder eu irei vê-la para lhe dizer o quanto a amo", escreve a carta psicografada por um médium em Cuiabá.

"Na última carta, ele me diz para orar por ele e que está trabalhando com resgate de suicidas. Ele me diz que eu preciso orar e continuar dando força", conclui.