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Fui ameaçado por ser trans, planejei suicídio e, hoje, sou cineasta

Ariel Nobre fez o curta-metragem "Preciso dizer que te amo"  - Arquivo Pessoal
Ariel Nobre fez o curta-metragem "Preciso dizer que te amo" Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

De Universa

01/08/2019 04h02

"Eu cheguei à beira da vida, lá na pontinha. Planejei me matar. Mas desisti depois de deixar uma carta para uma grande amiga. Nela, eu escrevi várias vezes que precisava dizer que a amava. E aí caiu a ficha que eu queria dizer aquilo para mim, mesmo". Ariel Nobre é um homem trans e dirigiu um curta-metragem baseado na própria história, chamado "Eu preciso dizer que te amo".

Ariel se descobriu homem transexual há quatro anos. Com pouca vontade de esmiuçar os detalhes dessa descoberta para as pessoas que amava, apenas pediu que elas o chamassem pelo nome que ele havia escolhido. O caminho não fácil, claro, especialmente com seus pais. Mas foi o que Ariel escolheu, peitou e, de muitas formas, prosperou.

Leia seu relato a Universa.

"Minha relação com meus pais sempre foi distante. Cresci em família evangélica e, como me considerava lésbica, não tinha espaço para falar sobre isso. Aos 19 anos, decidi sair de casa. Eu morava com a minha mãe em Piracicaba, no interior de São Paulo, e decidi ir para o Rio de Janeiro fazer faculdade de produção cultural. Por um tempo, morei na casa de familiares e, depois, passei a dividir um apartamento com uma galera.

A cada dia que passava, eu me masculinizava mais. E isso tinha pouco a ver com a minha sexualidade, com o fato de eu ser sapatão, mas muito mais, com a vontade reprimida que eu tinha de ser homem. Eu não entendia isso. Comecei a perceber que, talvez, eu não fosse apenas uma mulher lésbica e, sim, um homem, durante um evento promovido na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) sobre gênero.

Pelo que eu lia sobre pessoas transexuais, não enxergava muita perspectiva profissional. Além da expectativa de vida dessas pessoas ser muito baixa, os trans que eu conhecia eram pobres, trabalhavam como gigolôs ou coisas do tipo, e todos me diziam que não conseguiam entrar no mercado de trabalho por causa do gênero. E isso me desesperava. Eu sinto que tentava sufocar o que sentia por medo de ter uma vida como essa, de depender para sempre das pessoas.

Mas, durante esse evento, conheci um homem trans que era professor de natação. Era o primeiro trans que eu conheci que, realmente, tinha uma profissão; que conseguia dizer a profissão em uma frase, sabe? E aquilo me deixou animado. Ele tinha, também, uma namorada, eles eram felizes. Foi meu primeiro contato com uma vida legal de uma pessoa trans. Eu tinha 27 anos nessa época e namorava uma mulher. O segundo contato que me abriu os olhos foi a ida a um show da banda "Verônica Decide Morrer". Verônica, a vocalista, é uma mulher trans tocando rock and roll, as pessoas a admirando ali. Dava para ser admirado sendo trans.

Eu achava que a parte mais difícil seria dizer que meu nome, dali para frente, seria Ariel. Antes de trocar o nome nas redes sociais, fiz uma listinha de pessoas com quem eu tinha que falar para explicar o que estava acontecendo. Os nomes mais importantes eram minha mãe, meu pai e minha ex-namorada. Naquele momento, qualquer resposta diferente de 'eu te apoio' não seria suficiente para mim. Eu precisava de apoio. Então, não tive muitos dedos. Só falei: 'A partir de agora meu nome é Ariel e eu gostaria que vocês me tratassem no masculino'.

É claro que foram conversas tensas e, nesse período, eu ficava exausto. Todo mundo, o tempo todo perguntava um monte de coisa, dizia que eu estava deixando as pessoas confusas, como se minha intenção fosse causar algum tipo de transtorno a alguém. Eu só queria, naquele momento, que ninguém me perguntasse nada e aceitasse meu novo nome. Claro que isso era impossível. E, ali, eu tive certeza de que me assumir um homem transexual seria mais difícil do que eu imaginei.

Quando vi a dificuldade e que não tinha profissão mesmo sendo formado, me desesperei. A gota d'água foi a violência que comecei a sofrer nas ruas. Eu estava acostumado a ser chamado de "sapatão", mas não a ser agredido como são os homens gays. É muito mais intenso.

Eu não podia sair na rua que me xingavam, mexiam comigo. 'Viado', 'bichinha'. Um dia, estava no caixa de um supermercado no interior de São Paulo, em uma visita à minha mãe, e dois caras começaram a me ofender e me esperaram sair. Eu corri muito. E eles correram atrás. Por sorte, não me pegaram. Naquele dia, decidi que não queria mais viver.

Só que eu tinha discutido com uma grande amiga poucos meses antes, e eu achava bem mal criado me matar sem me reconciliar com ela. Enquanto eu escrevia a carta de despedida, percebi que tinha escrito "preciso dizer que te amo" muitas vezes. E prestar atenção naquilo fez cair uma ficha. Eu precisava ouvir isso de alguém.

Não dava para pesquisar sobre pessoas transgênero na internet sem encontrar dados assustadores: 40% dos suicídios de adolescentes são de garotos transexuais. Suicídio é a segunda causa que mais mata pessoas trans no mundo --só perde para assassinato. Eu sabia disso e tudo começou a vir na minha cabeça. Ali, mudei de ideia.

Decidi que viveria, que seria reconhecido, teria uma profissão e ajudaria outros homens trans a viver. Então, decidi fazer um filme baseado na minha vida, nessa história, e ganhei um edital da prefeitura para captar R$ 40 mil e fazer o curta.

Foram três anos até ele começar a ser exibido. A primeira exibição foi no Festival Internacional de Curtas de São Paulo. Depois foi para o Rio. A convite, foi exibido no festival "Afro Queer Massimadi" em Montréal e no "Transcreen", em Amsterdã. Na estreia já ganhou o primeiro lugar como favorito do público.

Agora, estou produzindo uma websérie sobre vida de mulheres sapatões. Não fiquei rico, ainda fico sem nenhum dinheiro quando pago o aluguel, mas, pelo menos, agora vejo uma perspectiva. Sei que vou poder ter uma vida, que vou ter meu trabalho, que vou ganhar dinheiro. Aos poucos, mas vou.

Hoje, trabalho, também, em uma agência de publicidade. Faço consultoria para empresas sobre diversidade, explicando a importância de empregar pessoas trans, negros, pessoas com deficiência. Tenho muito chão pra viver ainda"