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'Quero cantar para o mundo': a vida cheia de energia de uma jovem com Down

A jovem Julia Oliveira Camarão, de 18 anos, tem síndrome de Down - Arquivo pessoal
A jovem Julia Oliveira Camarão, de 18 anos, tem síndrome de Down Imagem: Arquivo pessoal

Willian Novaes

Colaboração com Universa

31/07/2019 04h00

Ela acabou de estrear como mestre de cerimônias. Na última semana de junho, disputou um campeonato de street dance, teve aulas de dança de salão, foi ao colégio e praticou o dedilhado no teclado. Distraiu-se com seus vídeos e pegadinhas prediletas no YouTube, esparramou-se no sofá conversando com amigos pelo WhatsApp, participou de oficinas num projeto social e participou de um curso de gastronomia inclusiva.

Julia Oliveira Camarão tem energia de sobra e carisma de poucos. Em 2020, vai participar do desfile da escola de samba Rosas de Ouro no carnaval de São Paulo, de uma forma "inovadora" -- segredo que escapou sem querer, entre risos, no meio da conversa.

Julia, de 18 anos, tem síndrome da Down. O diagnóstico foi dado em seu 38º dia de vida. Desde então, é estimulada a fazer tudo o que puder para ser feliz. A jovem não teria todo esse ritmo sem sua mãe, Luciene Brito, de 57 anos. Julia é sua filha única.

Luciene teve o choro e o marido como companheiros nos 37 dias de angústia que viveu, antes de ouvir do médico a resposta sobre a condição da filha. Chorou sem parar durante os últimos minutos da fatídica consulta. Ainda na sala do médico, fez a famosa pergunta: "Por que eu?" "Ele respondeu com outro questionamento, e isso mudou minha vida: Por que não você?", conta, emocionada.

Aceitação imediata

A aceitação imediata paralisou as lágrimas e a fez começar a pensar no que poderia fazer para melhorar a vida da criança. O médico, que virou amigo da família, lhe ajudou com alguns conselhos. Do principal deles ela lembra até hoje: estimular. "Saí do consultório outra pessoa. Em dois dias, Julia já estava na fisioterapia", explica. Sessões de fisio, fonoterapia, terapia ocupacional e hidroterapia, entre outras, foram fundamentais para Julia brilhar no que faz.

Universa acompanhou a estreia de Julia na função de mestre de cerimônias do 5º Fórum Gestão da Diversidade e Inclusão, promovido pela CKZ Diversidade, na zona sul de São Paulo. "Tremia tanto que o papel mexia. Depois passou, afinal eu sabia o que fazer", explicou a adolescente, sobre os seus sentimentos no primeiro trabalho. Julia já pensa na conta bancária que será aberta para receber os futuros cachês.
A nova função faz parte de seu desenvolvimento e das aulas de que participa na ONG Simbora Gente. Lá a jovem divide experiências e ouve orientações. É lá que ela discute, por exemplo, como lidar com as emoções, ao lado de jovens como ela. A turma é supervisionada pela coordenadora educacional Fabiana Duarte.

'Quero cantar para o mundo'

Julia tomou consciência de que tinha Down aos 15 anos, assistindo ao programa Domingão do Faustão da TV Globo, ao lado dos pais. A primeira reação foi falar para o casal que estava no sofá: "Viu que eu não sou doente? Só sou Down". Depois de muito choro e sessões com uma psicóloga, a adolescente aprendeu mais sobre sua condição e passou a viver com mais intensidade.

A adolescente quer ser cantora e já canta com uma banda, em São Caetano do Sul, no ABC paulista. Moradora de Santo André (SP), Julia ama de paixão a youtuber, cantora e atriz teen Larissa Manoela. Na sequência do Ensino Médio, pretende cursar a faculdade de música. "Quero cantar para o mundo. É só acreditar nos meus sonhos que eu vou conseguir", afirmou, de maneira espontânea.

Julia tem um carisma enorme. A mãe, que perdeu o emprego recentemente, passou a ficar todo tempo ao seu lado. "Antes de mais nada, não sou rica. Tive pais que me ajudaram muito e fui atrás dos benefícios que passamos a ter por causa da condição de Julia", diz Luciene Brito, que trabalhava com Tecnologia da Informação.

Questionada do que gosta de fazer nas aulas de gastronomia, responde que é nhoque de batata. Para controlar o peso e não ter problemas digestivos, comum entre pessoas que vivem com a síndrome de Down, Julia faz acompanhamento com endocrinologista. "Gosto de fazer tudo o que faço, até palestra eu já fiz. Mas eu gostaria mesmo é que as pessoas parassem com os preconceitos com pessoas diferentes", conclui.

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