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Fotos dos pés renderam até R$ 500 por semana para estas mulheres

Fotos de pés são comercializadas em fóruns, grupos do Facebook e pelo Instagram - iStock Images
Fotos de pés são comercializadas em fóruns, grupos do Facebook e pelo Instagram Imagem: iStock Images

Natália Eiras

De Universa

31/07/2019 04h00

"Manda uma foto de agora" é provavelmente uma das frases mais ouvidas por mulheres em conversas pela internet. Algumas têm ganhado dinheiro com o hábito de mandar fotos. Em fóruns de compra e venda e em grupos fetichistas, há pessoas que vendem fotos de seus próprios pés e chegam a lucrar R$ 500 por semana.

Foi por causa dos memes sobre pessoas que comercializavam "packs" (pacotes de imagens de partes do corpo) que a analista de telemarketing Alice*, 23, de São Paulo (SP), soube que um fetiche que ela já curtia podia virar uma fonte de renda extra. "Vendo as imagens porque também gosto dos meus pés, assim como do pé de outras pessoas", diz a jovem que responde pelo pseudônimo Cherry no anúncio em um fórum de serviços online. Alice já foi webnamorada -- garota que é paga para manter um relacionamento platônico pela internet --, mas logo deixou o trabalho de lado para se dedicar às fotos. "[Quando se é webnamorada] a maioria vem pedindo nudes e imagens de partes íntimas, mas eu não faço nudez. Prefiro mostrar as solas dos meus pés", afirma.

A jovem cobra R$ 20 pelo pacote de imagens. O combo, incluindo o pack com cinco fotos e um vídeo "ao gosto do freguês", sai por R$ 50. Ela não quis contar quanto já faturou, mas disse que já atendeu pelo menos cinco clientes. "Achei que ia conseguir mais dinheiro", confessa, aos risos.

A estudante Márcia*, 20, de São Paulo (SP), afirma que o rendimento depende muito do quanto o interessado está disposto a pagar. "Eu cobrava R$ 25 pelo pacote básico, com três fotos, porém já vendi um vídeo de dois minutos, em que mostrava a sola do meu pé e ficava colocando e tirando o tênis, por R$ 100." Ela tinha acabado de ter um bebê quando ficou sabendo, em um grupo do Facebook, que mulheres conseguiam dinheiro vendendo imagens de partes do corpo. Como estava desempregada e precisava pagar as despesas do filho, decidiu pesquisar sobre o assunto e logo foi atrás de clientes. "Eu entrava nos grupos de podolatria, procurava os perfis que pareciam de pessoas reais e oferecia as fotos", afirma. Foi assim que ela vendeu packs para cerca de 10 clientes.

No Instagram e outros serviços

Fóruns de compra e venda e grupos no Facebook não são as únicas formas de angariar interessados. Em alguns casos, uma proposta aparece de surpresa em sua caixa de mensagens. Foi o que aconteceu com a radiologista Renata, 20, de Santos (SP).

Ela descobriu e fez negócios com podólatras pelo Instagram. Um dia, após fazer um "stories" de seus pés, um perfil entrou em contato com ela. "Eu dei block [ato de bloquear um usuário], mas fiquei curiosa, fui pesquisar o assunto. Foi quando vi que era algo comum." Para fazer as vendas, criou uma conta falsa no Instagram. "Não aparecia meu rosto, então não corria o risco de ser descoberta." Ela cobrava, em média, R$ 10 por foto, e a partir de R$ 50 pelos vídeos. "Já mandaram sapatos para mim para que eu fizesse as imagens [com eles]."

E as imagens não são os únicos "produtos" que podem ser oferecidos. Camila*, de São Paulo (SP), por exemplo, foi abordada por um homem que ofereceu R$ 200 por um sapato usado que aparecia em uma de suas fotos.

"Achei esquisito e perguntei o motivo. Ele disse que gostava de cheirar calçados com chulé. Pensei em desistir, mas conversando com ele fiquei com pena, porque ele disse que não conseguia realizar essa fantasia", afirmou a jovem, que precisou se esforçar para conseguir fazer o sapato ficar com mau cheiro. "Eu o usava com o pé molhado e sempre que saía da academia. Entreguei o sapato em uma catraca de metrô. Nem consegui olhar na cara dele." Mas não parou por aí. O cliente de Camila começou a fazer depósitos de R$ 250, duas vezes por semana, para que ela mandasse fotos e áudios xingando ele. "Eu fazia pelo dinheiro, porque era uma forma fácil de conseguir uma renda extra."

Parte do fetiche

Os consumidores desse tipo de serviço costumam ser homens jovens, com cerca de 20 anos, e que são podólatras, pessoas que têm fetiche por pés. Porém, mais do que apenas ver fotos de solas e dedos aleatórios, os interessados também sentem prazer em pagar pela "exclusividade" das imagens, de acordo com o psicólogo Diego Vilas-Bôas da Rocha, especialista em sexualidade humana pela Faculdade de Medicina da USP. "É mais interessante saber que aqueles pés estão ao seu serviço, que a pessoa está oferecendo aqueles pés a você", diz.

Um certo grau de envolvimento também faz parte da fantasia. "Porque acontece uma interação entre o interessado e a vendedora. Se tiver um nome assinado ou uma carta acompanhada, o grau de excitação é maior para o podólatra, porque é uma entrega personalizada", afirma. Vilas-Bôas diz que a comercialização das imagens é algo comum em países como a Inglaterra, mas que, no Brasil, tem crescido a demanda e a oferta. "Está muito mais fácil pessoas que gostam de pés encontrarem pessoas que se colocariam à disposição para realizar esses desejos."

Exatamente por se tratar da realização de um desejo, algumas mulheres acabam, com o tempo, se sentindo desconfortáveis com a situação. Camila, por exemplo, parou de falar com seu cliente quando ele começou a fazer pedidos com os quais não concordava. "Ele pedia para eu falar coisas de que não gostava. Então dei block em tudo."

Por algum tempo, Renata até gostava da atenção que recebia. "Recebia muitos elogios. Fazia bem para a minha autoestima." A gota d'água foi quando uma pessoa pediu que ela usasse um sapato infantil. "Eles gostavam dos meus pés porque são pequenos e branquinhos. Quando percebi que era algo muito próximo da pedofilia, desisti disso", conta ela.

Como já tinha outra fonte de renda, Renata não teve dificuldade em deixar a atividade para lá. O mesmo aconteceu com Márcia e Camila. Apesar da grana extra, o incômodo de estar "prostituindo" os pés falou mais alto. "Não é empoderamento. É apenas mais uma forma de objetificação do corpo da mulher", diz Márcia. "Por mais que não tivesse nada de sexualmente explícito nas fotos, eu sei que muito provavelmente a pessoa que estava comprando usaria as imagens como pornografia", afirma Renata, que acha problemática a popularização da atividade. "Eu não me sentia bem quando pensava na gravidade disso. E, por ser uma forma mais fácil de ganhar dinheiro, um monte de menina está fazendo isso. Conheço até algumas menores de idade."