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Apaixonada por carros, ela criou um curso de mecânica para mulheres

Tainná Santos (de camiseta branca, à dir.), durante aula sobre o funcionamento do motor de um carro - Arquivo pessoal
Tainná Santos (de camiseta branca, à dir.), durante aula sobre o funcionamento do motor de um carro Imagem: Arquivo pessoal

Paulo Gratão

Colaboração com Universa

30/07/2019 04h00

Desde criança, Tainná Santos, 23, sempre preferiu brincar com os carrinhos do irmão a cuidar das próprias bonecas. A paixão por eles e a vontade de entender seu funcionamento a acompanharam durante toda a vida. Depois de ser rejeitada em um emprego por ser mulher, ela resolveu criar o curso de mecânica Mulher Não Fica Empenhada e hoje fatura até R$ 15 mil por mês.

Em 2012, aos 16 anos, Tainná visitou uma ONG com a mãe e a avó. A instituição fornecia cursos técnicos gratuitos na periferia de Porto Alegre (RS), onde moravam. "Quando vi no mural que tinha curso de mecânica automotiva, com fotos de motores, fiquei louca e falei que queria fazer. As duas me olharam sem entender nada e sugeriram que eu esquecesse a ideia e fizesse administração ou gastronomia, algo mais 'de mulher'", conta.

Tainná fez a prova e passou para o curso que queria fazer, mesmo contra a vontade da família. Comemorou a conquista sozinha. "Pouco tempo depois, meu tio Gabriel voltou de viagem e trouxe um presente. Fiquei emocionada quando vi que eram duas ferramentas da área da mecânica. Era um sinal de que alguém estava acreditando no meu potencial", relembra.

"Vai quebrar a unha"

Na sala de aula, Tainná era a única mulher e enfrentou dificuldades para se aproximar dos colegas. Nas aulas teóricas, ela conseguiu se destacar e mostrar que era tão capaz quanto qualquer garoto na sala. "Mas, durante as aulas práticas, eu escutava todos os dias frases como 'você vai quebrar a unha', 'vai sujar o cabelo', 'não vai conseguir levantar isso'. Tudo para me dizer que ali não era meu lugar. Eu ficava triste, ia para casa chateada, mas não conseguia conversar com ninguém sobre isso."

Filha de diarista e pedreiro, ela conciliou o curso de mecânica com o Ensino Médio e o trabalho em uma creche, para custear apostilas e materiais.

Falta de emprego serviu de estímulo

Em 2017, perto de se formar, Tainná começou a entregar currículos para trabalhar na área, mas só ouvia negativas. "Muitas pessoas diziam que não havia vagas no momento, ou que entrariam em contato, mas, em uma das empresas, alguém teve a coragem de falar na minha cara que não contrataria mulheres para a área da mecânica, apenas para o RH ou atendimento, e perguntou se servia para mim. Falei que não, pois tinha estudado para colocar a mão na massa."

Sem oportunidade, Tainná decidiu que trabalharia para mudar essa realidade, ensinando mecânica automotiva para outras mulheres. Meses depois, em 2018, por meio de amigos, ela conheceu uma iniciativa de fomento ao empreendedorismo na Agência Besouro, em Porto Alegre, que a ajudou na criação da empresa. "Aprendi a montar um negócio, com custos fixos e variáveis. Eles me ensinaram a fazer minha marca e como divulgá-la. Tirei o sonho do papel."

Investimento inicial de R$ 300

Cerca de três meses depois de encerrar o curso, Tainná investiu R$ 300 para colocar de pé o primeiro evento de apresentação da empresa. Manteve as expectativas baixas, mas foi surpreendida pela presença de 86 pessoas. "Fiquei apavorada demais ao ver tantas mulheres, com idades entre 18 e 60 anos. Elas tinham vindo assistir", lembra.

Hoje, Tainná tem faturamento mensal que oscila entre R$ 12 mil e R$ 15 mil, dependendo do número de contratos e parcerias fechadas. Atualmente, 16 empresas mantêm contrato regular com a Mulher Não Fica Empenhada. Entre elas, grandes redes de lojas de departamento e universidades privadas. Ela já atendeu mais de 2 mil mulheres e, em 2018, foi reconhecida com um prêmio de empreendedorismo pela Prefeitura de Porto Alegre.

Expansão nacional e internacional

A ideia do curso é fazer com que as mulheres consertem o próprio carro sozinhas, sem precisar consultar um homem, ou impedir que sejam facilmente enganadas ao levar o veículo para uma oficina. Há aulas práticas de troca de pneu, por exemplo. Cada palestra reúne cerca de 100 mulheres.

Tainná, que focou a divulgação em Porto Alegre, acabou fechando contrato com empresas de São Paulo e até da Argentina. Agora, pretende expandir cada vez mais. Para isso, abriu processo de seleção de quatro novas mecânicas, que levarão os cursos para outras regiões.

3 dicas de mecânica para iniciantes

Tainná destacou três dicas para que as mulheres comecem a entender o funcionamento de um automóvel. Confira:

1. Qual a importância do óleo lubrificante para o motor?

Reduz o atrito entre as peças. O ideal é controlar a temperatura e deixar o sistema limpo, livre de corrosões. A troca do óleo do motor é uma das mais importantes manutenções de que um automóvel precisa, juntamente com seu filtro, mas é o que menos ganha atenção dos proprietários.

2. Quando é hora de trocar a vela de ignição?

O carro dá alguns sinais, como perda de desempenho, marcha lenta irregular e dificuldade na partida, mas não é necessário esperar por isso para realizar a troca. Localizadas no cabeçote dos motores, as velas são fundamentais para o funcionamento do veículo, pois conduzem a corrente elétrica gerada no transformador até a câmara de combustão, e podem estar danificadas mesmo com o funcionamento aparentemente normal. A substituição deve ser feita na data estabelecida pela montadora, que pode variar de 15 mil a 100 mil quilômetros rodados, conforme a marca.

3. Sempre cheque o filtro de ar

Também conhecido como elemento filtrante, é o item de inspeção mais simples e de mais fácil substituição. Mesmo assim, muitos condutores adiam sua substituição. A função da peça é filtrar impurezas presentes na atmosfera como pólen, partículas de pó e pequenos detritos que o próprio carro ou o veículo à frente levanta do chão.

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