Topo

MGTOWs: eles desprezam tanto as mulheres que decidiram ficar sozinhos

O movimento Men Going Their Own Way ("Homens seguindo seu próprio caminho", em tradução livre) ganhou força e visibilidade a partir de 2010 - iStock Images
O movimento Men Going Their Own Way ("Homens seguindo seu próprio caminho", em tradução livre) ganhou força e visibilidade a partir de 2010 Imagem: iStock Images

Natália Eiras

De Universa

29/07/2019 04h00

Em uma reportagem sobre direitos das mulheres durante o processo de divórcio, publicada por Universa em abril de 2019, um comentário chama atenção. "É por essas e outras coisas que o estilo de vida MGTOW tem crescido e com cada vez mais adeptos. Atualmente é o mais recomendável a qualquer homem que queira preservar seus bens e, principalmente, sua paz", dizia o texto escrito pelo usuário, cujo pseudônimo é Spirit in Black.

Comentário deixado em reportagem de Universa, publicada em abril de 2019 - Reprodução
Comentário deixado em reportagem de Universa, publicada em abril de 2019
Imagem: Reprodução

O comentarista cita a sigla em inglês para Men Going Their Own Way ("homens seguindo seu próprio caminho", em tradução livre), grupo que tem crescido em redes sociais como o Facebook e em fóruns do Reddit. Seus integrantes acreditam que a solução para todos os problemas, sejam eles emocionais ou financeiros, é abrir mão de ter relacionamentos sólidos com mulheres. Rodrigo Ferrari, bacharel em filosofia e mestre em sociologia, afirma em um vídeo no canal do YouTube "Platinho" que esses homens costumam obedecer às seguintes regras:

  • Não casar
  • Não morar junto com uma mulher
  • Não engravidar uma mulher
  • Não se envolver com uma mãe solteira

"Essas seriam estratégias para se proteger juridicamente", conta o youtuber. Em entrevista para Universa, Rodrigo Ferrari afirma que, mais do que um grupo ou movimento, o MGTOW é um símbolo. "Ele abarca lugares onde um monte de menino se organiza, o que eles chamam de machosfera."

A reportagem passou alguns meses no ambiente da "machosfera". Em grupos no Facebook, são comuns posts de homens dizendo quanto suas vidas melhoraram quando deixaram de gastar dinheiro com "sanguessugas que querem viver de pensão a vida toda" e que aguardam ansiosos pela popularização dos robôs sexuais para que não seja mais necessário fazer sexo com mulheres. Afirmam ainda que o governo, por meio de leis como a do feminicídio e o Bolsa Família, tem concedido privilégios "injustos" à parcela feminina da população. "Eles criam uma conspiração na política pública, dizendo que o feminismo quer roubar os direitos dos homens. É uma narrativa muitíssimo fantástica na qual eles pautam toda a vida deles", explica a escritora Joanna Burigo, mestre em gênero, mídia e cultura.

Rodrigo Ferrari diz que, enquanto sua geração "se aproveitava do feminismo para ficar com as meninas", os garotos mais novos não veem sentido no movimento pela igualdade entre gêneros. "O MGTOW é um efeito colateral da 'guerra dos sexos' que se estabeleceu nos últimos anos", afirma.

A professora de literatura na Universidade Federal do Ceará e blogueira Lola Aronovich é conhecida por acompanhar de perto as discussões de ativistas pelos direitos dos homens em fóruns e chans. "Eles acreditam que as mulheres ou vivem do Estado ou querem ser sustentadas pelos homens. E que, por isso, o matrimônio seria um sistema para roubar o dinheiro deles", diz a ativista. "Porém, há estudos que dizem que o casamento é mais benéfico para os homens do que para as mulheres." De acordo com um levantamento publicado em 2015 por pesquisadores da Universidade de Londres, da Escola de Economia de Londres e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, citado por Aronovich, homens casados tendem a viver mais que os solteiros.

Lola diz que a "desvantagem" até pode ser a justificativa dos adeptos do MGTOWs, que costumam ser homens de 20 até 30 anos com currículo amoroso atribulado ou inexistente. Então, na realidade, a decisão de abrir mão das relações nem sempre é tão voluntária assim. "São homens muito frustrados, porque não conseguem se relacionar com as mulheres que gostariam. Eles se ressentem porque a mulher tem o poder de escolha, e a consideram horrível por poder recusá-los", afirma a ativista.

Publicações em que usuários se gabam de como a vida é diferente sem mulheres são comuns - Reprodução/UOL
Publicações em que usuários se gabam de como a vida é diferente sem mulheres são comuns
Imagem: Reprodução/UOL

Joanna Burigo afirma que é comum os adeptos se valerem de "casualidades" para justificar sua aversão ao relacionamento com mulheres. "Eles tomam algo que aconteceu individualmente como realidade, casos que não traduzem a estatística", diz ela. Em grupos de Facebook, são muitos os relatos de "um conhecido que perdeu tudo porque foi processado pela ex-mulher", ou de "um primo que apanhou da namorada". "Não duvido que histórias como essas existam, porém elas não acontecem em um volume que justifique esse movimento que antagoniza a mulher. É uma fantasia."

Uma defensora do MGTOW

Em suas redes sociais, a advogada Sara Próton publicou um meme estampado pelo Super-Homem e a frase: "Sozinho me deito, sem processo me levanto". A imagem sintetiza o estilo de vida MGTOW. Autora do livro "Belas e Feras", de 2018, sobre casos de violência doméstica de mulheres contra homens, Sara Próton diz que a sigla ganhou mais destaque com a popularidade do #MeToo. O movimento teve início a partir de uma série de denúncias de assédio sexual contra o produtor Harvey Weinstein.

Sara conta que entrou em contato com o grupo há três anos. "De certa forma, me identifiquei com eles porque, desde a adolescência, falava para os meus amigos não perderem tempo com mulher, mas irem atrás do próprio desenvolvimento." A advogada pontua que o MGTOW não é contra o feminismo, mas uma resposta ao movimento. "A culpa pelo surgimento dele não é da mulher, mas do governo, que cria vários tipos de privilégio para a mulher e desvantagens para os homens. Um exemplo é a pensão alimentícia em caso de divórcio", afirma.

Uma das principais críticas dos adeptos do MGTOW são dirigidas às mulheres que dependem financeiramente do marido -- em outras palavras, às donas de casa. "Porém, se ela trabalha, é uma carreirista, ambiciosa demais. Eles dizem que o ideal de mulher deles é a dos anos 1950, que vivia para cuidar da residência e dos filhos. Assim fica difícil, não há saída para as mulheres", afirma Lola.

Segundo Joanna Burigo, homens se valem de casos individuais para justificar sua posição contra os relacionamentos - Reprodução/UOL
Segundo Joanna Burigo, homens se valem de casos individuais para justificar sua posição contra os relacionamentos
Imagem: Reprodução/UOL

Masculinidade e produção

Joanna Burigo diz que adeptos do MGTOW costumam sentir que o mundo e as mulheres devem alguma coisa para eles. "E, por não conseguirem, acabam adotando essa postura que se assemelha a de um garoto mimado", afirma. Essa reação seria, de acordo com a pesquisadora, uma consequência da masculinidade que foi construída pela nossa sociedade. "Eles cresceram achando que merecem tudo o que querem, mas não é exatamente assim que o mundo funciona. Assim, projetam no feminismo o que eles não conseguem resolver neles mesmos."

Segundo Joanna, todo mundo poderia se beneficiar de uma das principais lutas do movimento feminista: a dissolução dos padrões de gênero. "Eles não precisariam mais ser provedores ou o cara super ativo sexualmente. O feminismo também os livraria de atender às expectativas que a sociedade cria para eles." A reconstrução do que entendemos como um "homem de verdade" diminuiria a frustração que eles sentem.

Vivendo um relacionamento há dois anos, Sara Próton diz que ficou pelo menos três anos solteira por não querer se envolver com alguém que não a respeitasse em sua busca por desenvolvimento pessoal. "Temos uma relação em que somos dois indivíduos independentes, com suas próprias profissões e vidas." A reportagem comenta que a definição que ela fez de seu relacionamento descreve um tipo de envolvimento que muita feminista diz ser o mais saudável. "Mas elas [as feministas] querem humilhar e diminuir os homens, ser melhores do que eles."

Lola Aronovich acredita que os adeptos do MGTOW "sentem ódio das mulheres". Joanna, por sua vez, diz que não é possível fazer um diagnóstico tão amplo. "De qualquer forma, é sim um tipo de misoginia."

A melhor solução para lidar com esses homens insatisfeitos seria, então, a educação. "Precisamos educar os meninos do futuro sobre respeito", afirma Lola. Em relação aos MGTOWs de hoje, a ativista é bastante categórica: "É melhor mesmo que eles fiquem sozinhos, assim teremos menos mulheres vivendo relacionamentos abusivos."

Mais Violência contra a mulher