Topo

"Só me livrei do crack porque me internaram à força", diz ex-usuária

Maria do Carmo está há cinco anos livre do crack - Arquivo pessoal
Maria do Carmo está há cinco anos livre do crack Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

De Universa

24/07/2019 04h00

A faxineira Maria do Carmo Rocha separou-se do marido há 17 anos, quando tinha 32. Deprimida, experimentou o crack durante viagem com amigas. Fumou uma pedra, nada. No dia seguinte, outra. Nenhuma reação. No terceiro, "a sensação mais bonita do mundo". Mãe de dois jovens, de 29 e 24 anos, depois desse episódio, ela se viciou.

Viveu nas drogas por 12 anos, apanhou, perdeu os dentes, se prostituiu, roubou e trabalhou com traficantes para sustentar o vício. Passou por dezenas de internações. Algumas contra a sua vontade. Diz que só assim melhorou. Hoje, aos 49, afirma estar há cinco anos "sem colocar uma pedra na boca".

Recaídas após internação

O basta veio em 2014, quando a mãe de Carmo, Maria Aparecida, que hoje tem 69 anos, chamou uma equipe de saúde para levá-la a uma casa de recuperação pertencente ao Estado de Goiás, onde a família nasceu. Ela ficou ali por três meses. Mas, quando saiu, teve recaída. Foi então levada para uma comunidade terapêutica particular, em São Paulo. Ficou nove meses. Saiu, nova queda. A família tentou então outra internação involuntária, desta vez numa clínica privada em Goiânia mesmo.

"O resgate é uma coisa bruta. Eles vão pegando a gente. Um agente segurou pelo meu 'gogó' e outro pelas pernas. Achei que fosse morrer. Senti raiva da família nos primeiros dias, mas com o passar do tempo, você pensa melhor e aceita o tratamento", defende Maria antes de concluir:

Quando se vive na rua e em situação de drogas, não raciocina. Tem que internar mesmo

Hoje a faxineira admite, no entanto, que o diferencial mesmo para conseguir manter-se longe da droga foi o apoio da família. E ter para onde ir após as internações. Porque, sem essa estrutura, avalia ela, o usuário recai mesmo:

"Minha irmã me buscava na rua, em meio a traficantes".

A irmã, Luciana Gomes, 46, resume o esforço da família.

"Uma usuária de drogas que mora embaixo de uma ponte e roubando para comer não tem como responder por si. Quem tem que fazer isso é a família. Os outros falavam que minha irmã ia morrer.

A gente tem que dar amor. Não pode abandonar

Especialistas reforçam importância da avaliação médica

Um relatório de 2012 publicado pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) apontou que aproximadamente dois milhões de pessoas já tinham usado crack alguma vez na vida.

O professor Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra e coordenador geral do PROAD (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da UNIFESP) concorda que há casos em que a internação involuntária é inevitável. Mas, segundo ele, menos de 5% de pessoas em situação de drogas precisam mesmo passar pela medida.

"Se interna a pessoa contra sua vontade, e sem motivação, quando ela volta para seus problemas, a imensa maioria recai. Essa medida (internação involuntária) reforça a ideia falsa de que o melhor método é a internação. Mas a evidência de maior eficácia é a redução de danos (atendimento a usuários sem necessariamente cobrar a abstinência, mas que minimizam efeitos adversos do uso de drogas) ou o tratamento ambulatorial, que é o acompanhamento médico e psicológico em posto de saúde", diz.

Há mesmo pesquisas internacionais apontando chances de sucesso menor na recuperação de pacientes que são internados involuntariamente. Uma delas foi publicada em 2017 na revista eletrônica de artigos e pesquisas em saúde BMC Health Services Research.

Ali, pesquisadores da Noruega, onde a Lei exige tratamento obrigatório para pessoas com "transtorno de uso de substâncias grave e potencialmente fatal", acompanharam, por seis meses, 137 pacientes internados de forma voluntária e 65 contra sua vontade. Na conclusão, o tratamento hospitalar reduziu o sofrimento mental de ambos os grupos, mas aqueles internados de forma involuntária voltaram aos níveis de sofrimento mental anterior após o tratamento. Ou seja: regrediram.

O diretor do Programa de Álcool e Drogas do IPq (Instituto de Psiquiatria da USP) Arthur Guerra discorda. Ele defende que o paciente em situação de droga, especialmente o crack, não tem consciência de seus atos, mas somente quem pode falar em sofrimento ou necessidade de internação é mesmo o médico.

"Tem gente que fala que o paciente vai sofrer se ficar internado, mas, no geral, ele está em sofrimento usando drogas, na rua, na Cracolândia (região central de São Paulo em que há livre uso do crack). Aquilo é um grau de privação maior de liberdade", ele avalia.

Lilian com a mãe: idosa está internada numa clínica para dependentes químicos - Arquivo pessoal
Lilian com a mãe: idosa está internada numa clínica para dependentes químicos
Imagem: Arquivo pessoal

"O problema é a dor emocional"

"Um dia, o gerente do supermercado onde estava bateu no meu ombro e falou: 'não compre nada para aquela senhora, porque ela é usuária de drogas e engana os clientes'. Eu respondi: 'eu sei, ela é minha mãe'. Nós dois ficamos constrangidos, mas nunca a negaria".

Depois desse episódio, a empresária Lilian Arriel, 35, decidiu internar a mãe Maria de Paula de forma involuntária numa clínica para dependentes químicos. A idosa de 61 anos é usuária de drogas desde os seus 16 anos. Repetiu o mesmo padrão de tantos outros dependentes químicos para sustentar o vício: vendia tudo o que podia da casa em que vivia. Ela também vagava pelas ruas, mendigava. Perdeu a visão de um olho após levar uma pedrada no rosto, lançada por um traficante.

A empresária Lilian Arriel internou a mãe de forma involuntária numa clínica para dependentes químicos - Arquivo pessoal
A empresária Lilian Arriel internou a mãe de forma involuntária numa clínica para dependentes químicos
Imagem: Arquivo pessoal

Durante todos esses anos, explica Lilian, a família tentou ajuda com psiquiatras, remédios, mas essa foi a primeira vez em que optou pela internação involuntária, sugestão dada por professores da faculdade de Psicologia, para quem contou o episódio do mercado.

Foram três horas de negociação com uma clínica privada. Lilian acompanhou o momento em que buscaram a mãe em casa, em Goianira, a 40 minutos de Goiânia. A idosa, suja e magra, ofereceu resistência, falou que não iria, xingou a filha, chorou. Lilian autorizou o uso da força, mas não foi necessário.

"O problema é a dor emocional, mas não tem como você ver um ente querido numa situação de rua, levando uma vida miserável, e dormir em paz. Minha mãe falava que era sua escolha, mas se não internar de forma compulsória, a pessoa nunca vai se tratar. É muito doloroso, mas ela está diferente e já até me pediu perdão por tudo que me fez passar, coisa que nunca havia feito. Maria de Paula ainda está em tratamento.

Na política

No início de junho, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) sancionou uma lei permitindo que usuários de drogas sejam internados contra a sua vontade, sem a autorização de um juiz, em hospitais psiquiátricos ou alas psiquiátricas de hospitais gerais. Isso aconteceria após avaliação de um médico, a pedido de familiar, responsável legal, servidor público da área de saúde ou de órgãos integrantes do Sisnad (Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas). Antes, somente a família do dependente químico poderia pedir a internação involuntária. O tempo máximo para desintoxicação será de 90 dias. Os especialistas divergem se esse é o melhor método para livrar uma pessoa do vício.

Política