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Mãe e filha foram falsamente acusadas de bruxaria pela Igreja no século 18

Mulheres eram queimadas sob acusação de bruxaria - Divulgação
Mulheres eram queimadas sob acusação de bruxaria Imagem: Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

21/07/2019 04h00

A Inquisição, criada pela Igreja Católica com a finalidade de perseguir, julgar e punir os desviados da fé, também deixou seu rastro no Brasil. Por aqui, seus agentes atuaram do século 16 até o século 18. Estima-se que centenas de brasileiros tenham sido investigados e dezenas, queimados em Lisboa, onde funcionava a sede portuguesa e os processos eram concluídos.

Quem também quase terminou na fogueira foram duas mulheres de Jundiaí, no interior paulista, injustamente processadas como bruxas pela Justiça Eclesiástica (órgão a serviço da Inquisição), que acreditou numa armação, em 1754. Os registros sobre o caso foram descobertos na Cúria Metropolitana de São Paulo e renderam, em 2018, a pesquisa de mestrado "Feitiçaria paulista: transcrição de processo-crime da Justiça Eclesiástica na América portuguesa do século 18", de Narayan Porto, filóloga da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A filologia é o estudo científico do texto e busca, por meio dele, desvendar aspectos históricos, linguísticos e culturais da sociedade que o produziu.

Bruxas no interior paulista?

Thereza Leyte e Escholastica Pinta da Silva, respectivamente mãe e filha, foram acusadas da morte de Manoel Garcia, primeiro marido de Escholastica. Segundo Narayan, que investigou os arquivos originais em primeira mão, a Igreja havia se convencido de que as duas mulheres mantinham pacto com o Capeta e que, além de terem levado Manoel Garcia a adoecer por meio de bruxaria, teriam feito o mesmo com outros homens, por vingança.

A pesquisadora detalhou à TV USP: "Elas foram acusadas de feitiçaria, e algumas práticas são mencionadas na documentação, como 'Escholastica causou feridas nas pernas do marido, apenas de tocá-las', ou então 'deixou-o cego só de tocar nos olhos dele'. E 'Manoel Garcia ficou enjoado, sentiu dores no estômago, porque a mulher mexeu com as mãos num prato seu de comida'. Também encontraram seus sapatos enterrados com pedaços de uma camisa sua dentro".

As denúncias foram feitas por um escravo feiticeiro chamado Francisco, que havia sido contratado pelos parentes de Garcia para curá-lo dos feitiços e da decorrente enfermidade responsável pelo seu fim. Apesar de a Igreja perseguir também os praticantes de religiões africanas, era comum, por conta do sincretismo religioso, que curandeiros fossem consultados, não só para tratar doentes, como para reverter supostas magias. No entanto, mais perigosos do que escravos místicos cooperando a favor de seus senhores eram os cristãos desviados da fé.

Igreja perseguiu e condenou mulheres no Brasil - Divulgação
Igreja perseguiu e condenou mulheres no Brasil
Imagem: Divulgação
Tudo não passou de armação

O processo contra Thereza e Escholastica foi aberto oito anos após a morte de Garcia. À época, Francisco, o feiticeiro, também já havia morrido. A Justiça Eclesiástica, então, ouviu testemunhas --todas homens. De acordo com a historiadora Laura de Mello e Souza, em seu livro "O Diabo e a Terra de Santa Cruz": "Estigmatizar mulheres --e, mais raramente homens-- era andar meio caminho no sentido de construir coletivamente um estereótipo de feitiçaria".

Porém, mesmo com o cerco montado pela Igreja, as testemunhas foram favoráveis às rés. Mencionaram, por exemplo, que, antes da abertura do processo, Francisco já havia sido preso e açoitado por espalhar boatos contra as duas mulheres, que teriam recebido dele um pedido público de desculpas. Além disso, explicaram que elas não poderiam ter causado crime algum, pois Garcia havia morrido de lepra, que contraiu em uma viagem, e que as duas mulheres "temiam a Deus" amavam o falecido. Garcia e Escholastica tinham ainda um casal de filhos.

Mas, então, por que Francisco, o escravo, queria o mal das duas? A filóloga Nayaran explica que os parentes de Garcia não simpatizavam com Escholastica e sua mãe, e disputavam com elas a herança deixada pelo homem, incluindo alguns escravos, que não constavam em testamento. "Contrataram esse feiticeiro, o Francisco, para que ele levantasse os boatos a respeito das duas mulheres, dizendo que elas eram bruxas e que tinham enfeitiçado o Manoel."

Além disso, era comum que a Igreja convocasse toda a população para delatar pessoas consideradas heréticas e para responder interrogatórios preliminares, a fim de especular a vida social, dominá-la e discipliná-la. Muitas vezes, amigos deduravam uns aos outros, e familiares eram forçados a se voltar contra algum parente.

Com o apoio de civis, que, em troca, recebiam prestígio e poder, "encontrava-se um meio de resolver conflitos internos à vida da comunidade, identificando e excluindo os responsáveis pelas desgraças", informa a historiadora Neusa Fernandes, em seu livro "A Inquisição em Minas Gerais no Século 18".

Feiticeiras eram as vítimas reais

Com a conclusão do processo, em 1755, Thereza e Escholastica foram inocentadas. Quanto aos verdadeiros culpados, os parentes de Garcia, sabe-se que tiveram apenas de pagar as custas do processo (reembolsar gastos com a defesa) por terem levantado injúrias contra as duas.

"Em termos históricos, a importância dessa documentação está, a meu ver, na questão da fragilidade da mulher a partir do falecimento de uma figura masculina forte", explicou, em entrevista à TV USP, Nathalia Fernandes, filologista da FFLCH/USP. Para ela, os ataques por meio de acusações simples e diretas demonstram que as mulheres não tinham facilidade de defesa e que, na maioria das vezes, podiam ser acusadas de bruxaria e heresia contra a fé.

Os documentos históricos relacionados à Inquisição na colônia são mantidos na Torre do Tombo, em Portugal. Sabe-se que as grandes cidades brasileiras eram os principais alvos, a exemplo de Minas Gerais e Rio de Janeiro, especialmente no século 17. As vítimas, porém, podiam estar espalhadas por todo o país.

Em São Paulo, a maioria dos acusados praticava ritos encarados como feitiçaria. Essa "caça às bruxas" só chegou ao fim em 1821, quando o Tribunal do Santo Ofício, conhecido por Inquisição, foi extinto. O resultado final de muitos processos, assim como o destino de boa parte dos condenados, ainda é desconhecido.

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