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Gordas no shibari: "Ouvia que meu corpo não ficaria bonito amarrado"

Engel, 23, começou a amarrar porque não encontrava pessoas dispostas a praticar shibari nela - Akane
Engel, 23, começou a amarrar porque não encontrava pessoas dispostas a praticar shibari nela Imagem: Akane

Natália Eiras

De Universa

18/07/2019 04h00

A professora Engel, 23, de São Paulo (SP), conheceu o shibari, técnica de amarração japonesa muito usada para o prazer, em 2016, por causa do meio BDSM (um acrônimo para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão e Sadomasoquismo). Porém, na época medindo 1,48m de altura e pesando mais de 100 quilos, eram poucas as pessoas que queriam amarrá-la.

"Foi um começo bem traumático, porque os riggers [como são chamadas as pessoas que fazem as amarrações] homens me davam negativas. Ouvia que meu corpo não ficaria bonito amarrado, que a gordura ia sair para fora nas amarrações. Falaram que, com o meu peso, eu nunca poderia ser suspensa", narra para Universa. Diante das dificuldades, a jovem decidiu tomar as rédeas de sua prática do shibari. "Comecei a fazer o selftie, técnica em que eu me amarro, mas depois me tornei uma rigger e modelo".

Atualmente, Engel é uma das principais mulheres praticantes e tem o projeto "Nós, laços e traços". O objetivo é levar representatividade às performances de amarração, que têm pouco espaço para pessoas gordas e transgêneros. "Infelizmente, o meio fetichista ainda é muito gordofóbico e transfóbico, mas o shibari serve para todos os corpos."

Técnica diferente?

Ainda hoje, o estereótipo de uma modelo de shibari poderia estar em qualquer ensaio do grupo Suicide Girl, conhecido por lançar, em 2007, modelos "alternativas". Entre aspas porque, de fora do padrão, elas só tinham as tatuagens e cabelos coloridos, uma vez que costumavam ser brancas e magras.

Alguns riggers justificam a preferência dizendo que não sabem aplicar técnicas de shibari em pessoas que não estejam dentro desse padrão. "É uma bobagem. Alguém que sabe amarrar de verdade pode fazê-lo em todos os tipos de corpo", fala Sansa Rope, 25, de São Paulo (SP). Ela diz que o argumento é, na realidade, uma desculpa para um gosto estético. "Porque é superpraticável e, inclusive, possível a suspensão de pessoas gordas. Os materiais aguentam tranquilamente."

Porém, é inegável o fato de que ainda se relaciona o shibari com mulheres magras superflexíveis. "Existe a ideia de que é mais fácil de fazer a amarração e de conduzir, mas isso é complicado". Sansa afirma que isto alimenta uma espécie de círculo vicioso. "Não há muitas modelos não-magras de shibari. Porém, como uma gorda vai se sentir confortável em ser amarrada se ela não vê ninguém com o mesmo corpo que ela nesses eventos?", afirma. Essa falta de referência também influenciou Engel. "Eu procurava no Instagram, na internet, e não encontrava. Era bastante difícil."

Renata Torres, 30, encontra mais mulheres dispostas a amarrá-la - Arquivo Pessoal
Renata Torres, 30, encontra mais mulheres dispostas a amarrá-la
Imagem: Arquivo Pessoal

Desculpa esfarrapada

Fã de cultura japonesa, a publicitária Renata Torres, 30, de São Paulo (SP), viu no shibari uma terapia de choque. "Não gostava de pessoas me tocando e não conseguia me olhar no espelho só de calcinha de sutiã. Então ser amarrada foi uma forma de tentar me descobrir, lidar com a minha autoestima e testar a minha ansiedade, porque nas performances precisamos confiar o nosso corpo a outra pessoa", fala.

Ela é, atualmente, uma das poucas modelos gordas de shibari. Porém, percebeu rápido que teria dificuldades no meio. "Assim como as pessoas tem um 'tipo' por quem se interesse romântica e sexualmente, os riggers tem um tipo preferido de modelo. E é comum eles não quererem amarrar pessoas fora do padrão", afirma. Uma vez que o corpo magro e atlético é visto como mais bonito, isso se reflete na escolha de modelos para as performances. Renata narra, no entanto, que o preconceito é discreto. "Eles dão uma desculpa esfarrapada qualquer", fala, rindo. Nesses casos, ela procura "desencanar", da mesma forma que lida quando leva um fora. "É triste para mim, mas é mais triste para os outros porque eles estão perdendo a experiência de amarrar um corpo gordo."

A analista financeira Michele Cordeiro, 39, de São Bernardo do Campo (SP), conhecida como Seeren, diz que, além da relutância dos riggers, o "medo" de mulheres gordas também impede que elas tenham mais visibilidade. "Muitas não gostam de ser fotografadas amarradas, não se acham bonitas. Elas temem ser atacadas, serem xingadas", diz. Engel concorda. "O meu Instagram não reflete a quantidade de mulheres gordas que amarro porque elas não querem que eu publique as imagens". Isso sem falar quando, mesmo quando elas topam divulgar as fotos, os praticantes evitam postá-las. "Não é todo rigger que quer mostrar uma gorda amarrada em suas redes sociais", afirma Sereen.

Modelo alternativa há cinco anos, a paulistana quer tornar o meio do shibari mais diverso incentivando mulheres gordas a serem modelos. "Esse corpo tem que aparecer mais", diz. E de uma forma bonita, não subversiva, como ainda é retratado. "A gordura não serve apenas para chocar a sociedade. Somos bonitas também, queremos fazer fotos femininas, sensuais."

Tanto riggers como modelos são otimistas. Renata, por exemplo, percebe que o meio do shibari tende a ser menos gordofóbico principalmente por causa de uma outra mudança: o surgimento de mais mulheres que amarram. "Antes existia também essa ideia de que só homens podiam ser riggers, porque é um papel de dominação", afirma a modelo. Foi, inclusive, em um encontro de shibari feminista, do qual Sansa e Engel fazem parte, que ela foi amarrada pela primeira vez. "Meninas costumam ser mais empáticas e abertas a praticar shibari em diferentes corpos."