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Minha história


Pelo Facebook, descobri que tenho 7 irmãs espalhadas entre Brasil e Europa

Kattia Oliveira e suas sete irmãs; no alto à esquerda: Irene, Ester, Miriam e Natália; abaixo, Cyntia, Carolina e Carlota - Arquivo Pessoal
Kattia Oliveira e suas sete irmãs; no alto à esquerda: Irene, Ester, Miriam e Natália; abaixo, Cyntia, Carolina e Carlota Imagem: Arquivo Pessoal

Juliana Sayuri

Colaboração para Universa

15/07/2019 04h00

Kattia Oliveira nasceu e cresceu no Jardim Santa Maria, zona leste de São Paulo, com poucas lembranças da mãe e sem saber a identidade do pai biológico. Kattia, que tem traços asiáticos, sempre achou que tivesse três irmãs negras, por parte de pai: Cyntia, Carlota e Carolina. Recentemente, entretanto, a paulistana de 37 anos descobriu que possui outras quatro irmãs biológicas, brancas, por parte de mãe. Elas estão espalhadas entre o Brasil e a Europa.

As peças do quebra-cabeças da família de Kattia foram se encaixando a partir de fevereiro, via Facebook: pingou no seu inbox a informação da existência de Irene, Miriam, Ester e Natália. Este é o relato de sua história:

"Sempre tive curiosidade de conhecer minhas raízes, de onde eu vim e, assim, descobrir quem eu sou. Não entenda mal: fui muito feliz na infância, amada e acolhida. Mas, na adolescência, comecei a notar que eu era diferente da minha família, o que me levou a questionar minha identidade. Esse questionamento me acompanha até hoje.

Nasci em novembro de 1982. Aos 8 meses, minha mãe (Betânia) me entregou a uma senhora que ela dizia ser minha avó paterna (Nancy). Meu dito pai (Edvaldo) foi assassinado, vítima de um assalto pouco tempo antes, em maio de 1983. Meu avô (José) era mestre de obras, trabalhou em muitas construções e tinha condições financeiras na época. Minha avó, então, me adotou. Ela é uma mulher incrível: ajudou a cuidar de 17 crianças, contando filhos dela, filhos adotivos e netos. Hoje ela tem 86 anos e, além dos bisnetos, cuida de sete cachorros, duas tartarugas e um papagaio.

Sempre me senti muito amada nessa casa, tanto que tinha até vergonha de perguntar sobre o paradeiro da minha mãe, para não parecer ingrata. Vivi a vida inteira no mesmo endereço, na zona leste de São Paulo, e ela nunca me procurou. Tempos depois, soube que ela era alcoólatra e morreu após um AVC, em 1992.

Então cresci acreditando que eu era realmente neta de Nancy e José. E que eu era irmã de Cyntia, Carlota e Carolina, filhas de Edvaldo com outras mulheres. Infelizmente, tive pouco contato com essas três irmãs, que foram criadas pelas mães e não cresceram comigo.

Kattia (à direita) com seus avós adotivos, Nancy e José, e um primo na praia - Arquivo Pessoal
Kattia (à direita) com seus avós adotivos, Nancy e José, e um primo na praia
Imagem: Arquivo Pessoal

Mas, com o passar do tempo, ficou inegável que eu era, digamos, diferente de todos na família: minha mãe era branca, meus avós e meu pai eram negros, mas eu tenho olhos puxados, traços tipo asiáticos. Na adolescência, a fase que questionamos tudo, entendi que meu pai não era meu pai de verdade. E eu pensava: "não tenho lembranças da minha mãe, que me abandonou; nem do meu pai adotivo, que foi assassinado; nem do meu pai biológico, que nunca conheci; quem será que eu sou?" Eu me olhava no espelho e não conseguia me decifrar. Eu era pequena. Além da pele, os olhos, o rosto e o corpo eram muito diferentes das minhas irmãs e primas negras, todas lindas, do tipo modelo.

Aos 19 anos, mudei de casa, namorei, fui estudar. Comecei o curso de gestão financeira, mas desisti e tranquei. Trabalhei na área administrativa de empresas como a Nestlé, mas virei Uber. Tenho dois filhos: Kawany, de 15 anos, com meu primeiro namorado; e Enrico, de 3 anos, com meu marido.

Minha história já era toda fragmentada e demorou para me sentir uma mulher bem resolvida. E, agora, veio mais uma reviravolta. Em fevereiro de 2019, uma jovem me procurou no Facebook para contar que somos irmãs - e que temos outras três irmãs vivendo na Europa, entre Itália e Alemanha.

Não sabia, mas minha mãe teve quatro filhas depois de mim: Thabata, Thalita, Jamile e Natália. Três delas foram adotadas por um casal italiano e cresceram como cidadãs europeias. Thabata foi rebatizada como Irene; Thalita como Ester; e Jamile como Miriam. A caçula Natália ficou com a família do pai, no Brasil.

Quem começou essa busca foi Miriam, que vive na Itália, via Facebook. Ela me mandou um documento de 1994 do Juizado da Infância e Juventude do Fórum Regional 5 de São Miguel Paulista, de São Paulo, em tradução juramentada para o italiano. Elas esqueceram o português praticamente e, enquanto estamos conversando na internet, vamos traduzindo as mensagens no Google.

Irene e eu conversamos bastante por vídeo. Eu digo expressões bem brasileiras como "ah, minha gata" e ela ri demais. Natália mora na zona sul de São Paulo e nós nos encontramos duas vezes. Ela é tímida, mas muito legal. Elas quatro se parecem bastante: o rosto fininho, os olhos, o nariz. No fim, sou a filha mais velha do lado da minha mãe biológica; ao mesmo tempo, sou a filha mais nova do lado do meu pai adotivo. Fisicamente, não lembro muito nenhuma das sete irmãs.

Confesso que fiquei triste ao saber que minha mãe teve outra família e nunca voltou para me pegar. Ela não está mais aqui, então não dá para perguntar o porquê. Nunca considerei a ideia de deixar meus filhos para adoção. Não julgo minha mãe, mas queria compreender. Não adotaria outros filhos hoje por conta da minha condição financeira. Se eu pudesse, adotaria, sim e muito. Eu bem sei que tem muita criança no mundo precisando de casa, carinho, afeto.

Um dia, quero reunir todas as minhas irmãs. Hoje é impossível conhecer as italianas, principalmente por motivos econômicos. Não seria nem um "reencontro" de família, mas um primeiro "encontro", já que nós nunca nos vimos antes. Queria ter tido a oportunidade de cultivar um tipo de relação com todas elas. Queria ouvir suas histórias. Quem sabe nesses encontros posso descobrir um pouco mais sobre mim mesma.