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Violência contra a mulher


Bar de SP posta vídeos e considera piada violência contra mulher; é crime?

Vídeo em que funcionária é "agredida por chef de cozinha", em casa de carnes de São Paulo - Reprodução/Instagram
Vídeo em que funcionária é "agredida por chef de cozinha", em casa de carnes de São Paulo Imagem: Reprodução/Instagram

Talyta Vespa

De Universa

13/07/2019 22h09

A casa de carnes Underdog foi alvo de críticas ao publicar no Instagram dois vídeos encenados considerados apologia à violência contra a mulher. No primeiro, o dono do restaurante simula uma agressão a uma funcionária que teria errado no preparo do pedido. No segundo, ela aparece com o olho roxo colocando sal no hambúrguer. "Pouco sal", grita o chef.

Em poucas horas, a conta do estabelecimento, localizado no bairro paulistano de Pinheiros, recebeu centenas de comentários. Muitos de pessoas se divertindo com o vídeo, mas a maioria, críticas. "Isso é crime", disse uma mulher. "Parabéns, você sabe de legislação", respondeu a página.

Em entrevista para Universa, o dono do Underdog, Santi Roig, justifica a publicação dos vídeos. Ele defende que foi usado o tom de deboche que o bar sempre teve. Segundo Roig, a intenção por trás das imagens era mostrar que é comum chefs de cozinha serem rígidos com seus funcionários. "Era uma sátira que representava esse comportamento de um monte de chef, que trata bem o cliente e mal o funcionário."

O primeiro vídeo foi removido pelo Instagram, que considerou que a publicação não cumpria as diretrizes da comunidade em assédio ou bullying, segundo postagem compartilhada por Roig. Já o segundo saiu do ar por volta das 21h de sábado (13).

"Cresci vendo South Park, Simpsons, Ary Toledo. Vivi em um momento em que o humor politicamente incorreto era muito presente. Mas agora tem um pessoal que vive buscando coisas para ocupar o tempo e salvar o mundo. Sempre tem quem se sinta ofendido com tudo. Nossa funcionária é formada em artes cênicas e, por isso, sempre participa dos nossos vídeos", diz o chef.

Santi Roig afirma que, coincidentemente, o vídeo foi gravado com a única mulher churrasqueira do bar. "Calhou de ser ela, mas poderia ter sido um homem, não era esse o foco. Sei que é diferente por ser uma mulher, mas isso já é interpretação de cada um."

Para ele, ainda, não é o caso de pedir desculpa. "Seria falsidade. É uma pena que não se pode mais fazer esse tipo de humor. Não pode mais falar de gordo, por exemplo. Teoricamente, eu sou um macho branco e poderia me ofender quando dizem isso para mim."

Questionado sobre a possibilidade de responder pelo crime de apologia à violência, Santi acredita que o vídeo não pode ser considerado um crime. "Se isso virar crime, vão ter que criminalizar todos os tipos de humor, inclusive as novelas que mostram o marido batendo na mulher e pessoas usando drogas. Onde a lei diz que você não pode fazer nenhuma sátira ou brincadeira com temas reais e complexos?"

No artigo 287 do Código Penal, segundo o advogado especializado em defesa da mulher, Angelo Carbone. Ele explica: "A apologia ao crime afronta a lei Maria da Penha, que busca coibir a agressão física e verbal contra a mulher. Além disso, afronta a lei do feminicídio", explica.

Ainda de acordo com Carbone, com base no artigo 40 do Código Penal, qualquer juiz ou tribunal pode, ao tomar conhecimento das imagens, determinar a instauração do inquérito junto ao Ministério Público. "O autor dos vídeos pode ser processado e condenado a até seis anos de prisão, além de ter que indenizar a sociedade em até R$ 1 milhão", afirma.