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Racismo: "Nunca aconteceu de me confundirem com uma médica", diz rapper

A mesa na Flip: novos meios de contar histórias - Globo/Gabi Carrera
A mesa na Flip: novos meios de contar histórias Imagem: Globo/Gabi Carrera

Fernanda Ezabella

Colaboração para Universa, de Paraty (RJ)

12/07/2019 18h41

Duas artistas brasileiras de lugares e vidas bem distintos encontraram na internet seu lado comediante e resolveram usar o humor como ferramenta contra a opressão e o racismo que enfrentam no dia a dia.

A rapper paulista Stella Yeshua, 33, e a drag fluminense Aurora Black, 26, participaram na sexta-feira de uma mesa de jovens talentos na Casa Globo, uma programação paralela da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece até domingo.

"Pego uma situação de opressão e trago graça para isso. Quando você vive com tanta opressão, com tanta humilhação, não vê alternativa a não ser tirar uma vantagem daquilo", disse Yeshua. "Você tenta extrair, peneirar, tirar algo e dizer: 'vou rir de você, do meu opressor'".

Yeshua faz parte de um coletivo de mulheres negras chamado Estaremos Lá. O grupo viralizou em 2017 quando fez um vídeo sobre um episódio de racismo que ela passou num shopping de São Paulo. Ao ajudar uma mulher branca a pegar uma bandeja e as comidas que haviam caído no chão, Yeshua foi confundida com uma faxineira.

A mediadora da mesa, a comediante Heloísa Périssé, perguntou como tinha sido de fato a reação da mulher branca, dando a entender que ela poderia ter apenas se confundido. "As pessoas podem mesmo se confundir, mas nunca me confundiram com uma médica, com uma advogada", respondeu a rapper, aplaudida na sequência.

Yeshua comentou que gosta de humor que faz pensar. E nada vem sem consequências: mesmo uma piada pode causar um trauma na vida de alguém.

"O que você vê como uma piada às vezes é uma razão para eu me matar", disse. "A grande maioria das minhas amigas, a minha avó e minha mãe passaram por pequenos traumas por causa de uma piada. A lição que fica é que eu preciso aprender a rebater isso, com graça. Porque minha comunicação é leve, é com graça."

Aurora Black também falou de como o humor lhe ajudou a subverter o bullying, principalmente quando era adolescente, crescendo num ambiente isolado de amigos numa área rural de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Ela se voltou ao Twitter (@mexicanabebada) para comentar sobre seus perrengues e percebeu que não estava sozinha.

"Percebi que eu era engraçada quando as pessoas riam de mim e eu decidi fazer elas rirem comigo", disse Black. "Eu era a bicha, a gorda, a esquisita. Então, transformei esse bullying em algo produtivo, otimizei. Só me tornei uma pessoa engraçada por isso."

Black e Yeshua dividiram a mesa da Casa Globo com Eduardo Hanzo, 26 anos, outro jovem que se descobriu humorista via Twitter. Ele viralizou quando decidiu contar as brigas cômicas que sua avó tinha com a vizinha, apelidada de Boi.

A história está virando série da GloboPlay, chamada "Eu, a vó e a Boi", com estreia prevista para o segundo semestre e autoria de Miguel Falabella. No elenco, estão Daniel Rangel, Arlete Salles e Vera Holtz. Hanzo trabalhou com Falabella e assina como co-roteirista.

"Quando minha avó ficou sabendo [que eu tinha publicado online], primeiro ela queria quebrar minhas duas pernas, mas agora está feliz com meu sucesso", disse Hanzo.