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Mães e filhos


Mães e filhos

Como em A Dona do Pedaço, mãe foi traída pela filha: "Mandou vídeo íntimo"

Reprodução - Josiane (Agatha Moreira) em A Dona do Pedaço
Reprodução Imagem: Josiane (Agatha Moreira) em A Dona do Pedaço

Luiza Souto

De Universa

11/07/2019 04h00

As maldades de Josiane (Agatha Moreira) contra a própria mãe na trama global "A Dona do Pedaço" parecem coisa de novela. Além de roubar Maria da Paz (Juliana Paes), a vilã armou um casamento entre a mãe e seu próprio amante, Régis (Reynaldo Gianecchini), para arrancar ainda mais dinheiro.

A história já havia acontecido em outra trama de Walcyr Carrasco, "Verdades Secretas". Na novela das 23h, que passou em 2015, a personagem traída, Carolina (Drica Moraes), se mata ao se dar conta da traição. Dessa vez, a boleira vai pegar filha e marido juntos também. Resta saber qual destino o autor escolherá para a protagonista.

A traição que a paraense Cris*, de 38 anos, sofreu comprova a proximidade entre arte e vida real. Ela pegou o marido trocando mensagens íntimas com a sua primogênita, de 23 anos, filha de um relacionamento anterior. E hoje, as duas não se falam mais. "Não quero saber", ela afirma para Universa. Ela e o marido estão juntos há 20 anos.

Na vida real, Cris escolheu bloquear a filha de sua vida. Aqui, ela revela sua história, sob a condição de anonimato.

A psicóloga Marina Vasconcellos, especialista em família pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) dá algumas alternativas para suportar uma situação tão complicada, e como identificar traços de psicopatia, uma provável causa das maldades de Jô.

"Achava que eu tinha que fazer todas as vontades"

Cris tinha 15 anos quando engravidou. A família a expulsou de casa, no Pará, e ela foi morar com o pai da criança no Amapá. Dois anos depois, se separou após sofrer violência doméstica e traições.

Como era menor de idade ainda, o combinado foi deixar a criança com o pai dela até se reerguer. "Voltei para o Pará, mas sempre tive o objetivo de buscar minha filha. Trabalhava e mandava roupas, material escolar, calçados. O pai dela dificultava nosso contato. Tudo era vigiado".

Josiane (Aghata Moreira) arranjou casamento para roubar a mãe em "A Dona do Pedaço" - Rede Globo/Divulgação
Josiane (Aghata Moreira) arranjou casamento para roubar a mãe em "A Dona do Pedaço"
Imagem: Rede Globo/Divulgação

A partir dos seus 18 anos, a filha passou a vê-la com mais frequência, já que ela comprava passagens.

Senti, com o tempo, que ela achava que eu tinha que fazer todas as suas vontades, como se o dinheiro suprisse o tempo em que ficamos afastadas.

Um dia, determinou que só ajudaria a filha financeiramente se ela fosse morar com a mãe, onde estudaria e trabalharia. Ela aceitou e foi, grávida, viver com Cris, mas a deixou um mês depois. Disse que ficaria com o pai do bebê. "Pediu dinheiro e entrou num táxi. Fiquei chateada e não nos falamos por uns dois meses. Neste tempo, recebia mensagens carinhosas dela, dizendo que me amava, mas eu sabia que ela só queria dinheiro. Não dei mais."

Um dia, seu marido perguntou se ela e a filha não voltariam a se falar. "Eu pedi para ele não se meter. Logo depois, numa noite, fui lentamente em direção à rede onde ele ficava deitado mexendo no celular: peguei o meu marido vendo um vídeo íntimo da minha filha. Ela quem mandou. Meu coração quase saiu pela boca. Pensei milhões de coisas. Eu tremia de ódio dos dois".

Cris passou a noite chorando. No dia seguinte, descobriu a senha do celular e encontrou fotos e vídeos da própria filha nua e várias conversas. "Vi que ela começou a pedir dinheiro para ele, já que eu não dava. E que ele mandava R$ 100, R$ 150 a cada 10, 15 dias, em troca de imagens. 'O que ganho em troca?', escreveu ele após ela pedir dinheiro numa das mensagens".

Ela então ligou para a filha e disse que já sabia de tudo. A garota afirmou que só estava testando para saber se o padrasto realmente a amava. "Disse depois que me queria separada, para então voltar com o pai dela."

Decidi abolir minha filha da vida. Não tenho ódio, mas ela nunca gostou de mim, então é como se ela não existisse.

"Não sinto nada. Entendi que o tempo que ficamos afastadas pelas circunstâncias da vida não criou nela um vínculo afetivo. E sim, de interesse. Então, se ela não me faria bem algum, eu não ia me desgastar com isso. Ela tentou pedir perdão através de outras pessoas, mas eu disse que não queria nem ouvir falar."

Amor de mãe e filha não é incondicional

Ao ouvir um resumo da história de Cris, a psicóloga Marina Vasconcellos destaca: o amor materno é uma construção, não vem quando a mulher se descobre grávida. E se não há um vínculo entre mãe e filha, fica difícil mesmo nutrir um sentimento, ela ensina. Em resumo: não é porque é do sangue, saiu do ventre que necessariamente haverá carinho e respeito. Quando mãe e filha aprendem isso, dita Marina, sai aquele sentimento de culpa por não conseguir fazer a pessoa te amar.

Cris contou ao marido o que havia descoberto e procurou uma quitinete para alugar. "Ele chorou, pediu perdão. Mas no dia que eu ia embora, minha sogra morreu, e acabei não me mudando. Hoje, sigo com ele e nosso filho, mas faço o que eu quero: vou a festas, tenho mais liberdade. Ele não me cobra nada e evita o assunto a qualquer custo. A desconfiança é eterna. Não dá para confiar nunca mais."

E o que fazer diante de tamanha traição, como a da filha de Cris? Ou pior: como a de Jô, que irá, inclusive, colocar fogo na fábrica de bolos da mãe? Dependendo da situação, a solução é manter distância emocional mesmo, por mais difícil que seja. "Mas estou falando no geral. Esses casos precisam ser analisados por um profissional. É preciso entender por que houve o distanciamento, o que aconteceu nesse tempo todo", Marina frisa.

A psicopatia

A psicopatia é um transtorno de personalidade em que a pessoa não é capaz de desenvolver empatia por ninguém -- nem mesmo pela própria mãe. No geral, são pessoas inteligentes e sedutoras, com o objetivo único de dinheiro e poder. Não há cura. Uma pesquisa da PriceWaterhouseCoopers com companhias americanas mostrou, em 2008, que havia 69 milhões de psicopatas no mundo, o que daria 1% da população em geral.

"Pelo que você está descrevendo desta Jô, ela parece uma 'psicopatinha'", analisa a profissional, para depois explicar o quadro.

"Eles são capazes de destruir uma vida inteira, passam a perna nos pais. Quem tem um filho ou mãe assim, tem que estar sempre de olho e se proteger, porque a pessoa não sente nada, nem está a fim de conviver. Vejo muito filho de mãe e pai psicopatas, por exemplo, que procura o amor deles e não tem, mas quando entende esse transtorno, essa pessoa se liberta de uma tentativa de algo que nunca vai conseguir. E é preciso fazer um acompanhamento profissional para lidar com essa frustração".