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Autoestima


Preta Gil sobre plásticas: "Mutilei meu corpo por conta da opinião alheia"

Dio Bastoge
Imagem: Dio Bastoge

Gustavo Frank

De Universa, em Tulum, no México

10/07/2019 04h00

Quem visita o perfil de Preta Gil no Instagram encontra 7 milhões de seguidores, fotos do cotidiano da artista e milhares de mensagens deixadas por ela para as mulheres que a seguem na rede social. Mensagens relacionadas à aceitação do próprio corpo e ao rompimento de padrões, que têm tudo a ver com a história e a personalidade de Preta, segundo ela mesma, uma mulher gorda, livre e dona de si.

"Meu caminho não foi fácil. Mas, graças a Deus, consegui me reencontrar. A insegurança com o corpo nos afeta tanto que a gente acaba se anulando, perdendo a conexão com nós mesmas", diz. "É o tempo todo gente apontando 'o que é feio' e 'o que não pode'. Meninas sem apoio emocional podem ficar profundamente abaladas, deprimidas, podem cometer loucuras", disse ela a Universa, durante um encontro das embaixadoras da Salon Line em Tulum, no México.

O processo de Preta pode não ter sido fácil, mas a tornou mais forte para levantar bandeiras, como a da representatividade e da visibilidade de mulheres gordas, e compartilhar sua segurança com quem a acompanha."Tudo melhorou quando escolhi passar coisas positivas para a minha vida", relembra.

Aceitação do próprio corpo

Aceitar o corpo levou tempo para Preta, que se submeteu a três cirurgias na região abdominal, uma delas pouco depois de engravidar do filho, Francisco Muller, a quem deu à luz aos 21 anos.

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

"Eu tinha acabado de dar à luz, perdido 30 quilos e estava com excesso de pele na barriga. Senti uma enorme pressão da sociedade para emagrecer. Fiz uma cirurgia e aí comecei a ouvir: 'você está linda magra'. Aí, quando eu dei uma engordada, corri para lipoaspiração", conta. "Seis meses depois, voltei a engordar novamente e fiz mais uma lipo. Quando eu vi, estava mutilando meu corpo por conta da opinião dos outros, sem considerar o meu bem-estar."

Nudez

Capa do álbum"Pret-à-Porter", de Preta Gil, lançado em 2003 - Reprodução
Capa do álbum"Pret-à-Porter", de Preta Gil, lançado em 2003
Imagem: Reprodução

Seu primeiro álbum, o "Pret-à-Porter", virou manchete de muitas revistas, sites e jornais quando foi lançado, em 2003. Não por conta do hit "Sinais de Fogo", mas porque, em uma época em que pouco se falava em gordofobia ou beleza do corpo real, Preta saiu nua na capa e nas páginas internas do encarte do CD. "Ninguém falava em empoderamento. Eu fiz simplesmente porque estava a fim. É a minha realidade, e eu queria estar seminua", diz.

A decisão de expor o próprio corpo, garante, teve menos de coragem e mais de tentar reconhecer-se a si mesma.

"Ser gorda ou ter o corpo gordo ainda causa repulsa. Mas eu sou assim, é o meu natural. Se eu quisesse ser diferente, aí, sim, estaria indo contra a minha natureza. Eu não faço apologia da gordura, só afirmo quem eu sou, minha existência".

Representatividade ou oportunismo?

Por mais que considere que ainda há muito o que ser conquistado em termos de representatividade e diversidade, Preta vê um avanço significativo desde a época do seu primeiro disco. "Hoje em dia, ninguém se esconde mais", diz

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

"As mulheres estão se empoderando e isso é libertador", diz.

Ela admite que a diversidade que se vê hoje estampada em editoriais de moda ou comerciais de televisão ainda está longe de ser natural. "Há muito oportunismo das marcas, ou o receio de serem julgadas. Se não colocar a gorda, vai ser taxado de gordofóbico. Se não tiver a preta, vai ser chamado de racista. Mas isso já é melhor do que nada -- estamos avançando e não há como voltar atrás. De toda forma, é um sinal de que a luta está valendo. Ninguém mais aguenta o perfeito."

*O jornalista viajou a convite da Salon Line