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O que é "normal" no sexo? Especialistas explicam

O que não é normal para você, pode ser normal para outra pessoa. - iStock Images
O que não é normal para você, pode ser normal para outra pessoa. Imagem: iStock Images

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

10/07/2019 04h00

Não existe uma resposta conclusiva para a pergunta acima. O que é considerado "normal" em se tratando de sexo depende vários aspectos: cultura, contexto social, momento histórico, religião e até se o ponto de vista vem da medicina ou da psicanálise. Assim, com exceção de atos sexuais não consensuais envolvendo violência e praticados por portadores de transtornos mentais graves, como sociopatas e psicopatas, a normalidade relativa ao sexo é um conceito bastante elástico e mutável.

Mesmo porque, quem pode definir o que é "normal" ou não? "O principal fator determinante para considerar um comportamento como 'normal' é o que se denomina ideologia dominante, ou, ainda, o padrão que permeia as regras de um grupo social", fala Oswaldo Martins Rodrigues Jr., terapeuta sexual, diretor do Instituto Paulista de Sexualidade (Inpasex) e autor do livro "Parafilias - Das Perversões às Variações Sexuais" (Zagodoni Editora). E essas regras vêm ou são mantidas através de instituições como religião, família e escola, que são diferentes umas das outras conforme a cultura e a época.

Um exemplo é o tratamento dado ao incesto. Se hoje as relações sexuais entre membros de uma família são condenadas socialmente, moralmente e até legalmente no Brasil, há poucas décadas, segundo Oswald, os casamentos consanguíneos eram comuns e oficializadas em cidades do interior muito pequenas e isoladas. Em outras culturas e em determinados períodos históricos, o incesto foi permitido e até servia de exemplo e modelo para o restante da população. "As famílias reais do Egito faraônico e os Incas andinos são dois exemplos. Mesmo as casas reais europeias nos últimos séculos mantiveram formas incestuosas ao produzirem casamentos entre primos com a finalidade de manter poder e laços que garantissem alianças, diminuindo chances de guerras e destruições", comenta o terapeuta.

Em determinadas culturas isoladas, ao longo de muitos séculos ou décadas, comportamentos que hoje consideramos ilegais foram encarados como "normais". É o caso, além do incesto, da necrofilia e da pedofilia. Em grupos étnicos nas montanhas da Nova Guiné (Melanésia), por exemplo, a viúva deveria copular com o marido morto, diante de familiares e conhecidos, como um ritual de liberação da alma do falecido. Sobre a pedofilia, o conceito varia conforme a sociedade. No Brasil, fazer sexo com menores de 14 anos de idade é considerado crime. Porém, em alguns países meninas de 10 anos são tidas como "aptas" para transar porque já menstruam e são capazes de reproduzir. Atualmente, na Áustria e na Holanda, a idade legal para consentimento sexual é de 12 anos.

"A questão maior está na lei, não na moral"

Segundo Carlos Eduardo Carrion, psiquiatra especializado em sexualidade, de Porto Alegre (RS), a clitoridectomia (extirpação do clitóris em algumas comunidades africanas) nos horroriza quando sabemos da sua existência, mas a retirada do prepúcio entre israelentes e muçulmanos é considerado normal ou pelo menos tolerável.

"Quando comecei a cursar medicina, a homossexualidade era tida como um desvio da sexualidade, quase uma doença. Depois, passou a ser uma conduta perfeitamente aceitável. Sexo anal também, da mesma maneira que poligamia, sexo com muitas pessoas, prostituição e assim por diante. Sou tentado a dizer que o 'normal' é algo que está em sintonia com o meio em que a pessoa vive e com ela mesma em relação à sua capacidade de adaptação", fala Carrion.

Com a globalização das informações, a regras passaram a ser mais espalhadas e consideradas universais, mudando o que pensamos e sentimos sobre uma prática ou comportamento.

Muitos comportamentos que neste século 21 se consideram comuns, possíveis, não patológicos, eram problemas, doenças e patologias há 100 anos. "É possível arriscar que, daqui a alguns anos, algo tido hoje como perverso poderá ser encarado com menos reservas, pelo menos no Ocidente. Assim como aconteceu com a homossexualidade, a masturbação, o sexo oral e o sexo anal. A questão maior está na lei e não na moral. A satisfação sexual não pode ser regulamentada por lei, mas as práticas e suas consequências sim", comenta Elizandra Souza, psicanalista e membro do Simpesp (Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo). "Em geral, qualquer prática sexual que tem um embate com a lei não será encarada como 'normal'. Mas acredito que algumas práticas já não são encaradas como anormais, como o masoquismo e o sadismo, o voyeurismo e o exibicionismo. Hoje, as pessoas encaram com mais normalidade e até experimentam mais facilmente", complementa.

No entanto, há certas práticas que dificilmente a sociedade, como um todo, deixará de encarar como "anormal". "Um exemplo é o sexo com cadáveres, que, além de ilegal, é imoral em todas as culturas, salvo aquelas em que ocorre como parte do ritual de luto. Nesse exemplo, nem mesmo os profissionais de saúde discutem sobre ser ou não patologia, tão arraigada é a questão moral", avisa Oswaldo. "É evidente que, mudando a cultura, o que é inaceitável pode se transformar em desejável ou vice-versa. As relações anais, que eram tidas como coisa do demônio em muitos lugares, hoje em dia são vistas como normais, desde que realizadas com consentimento mútuo", observa Carrion, que completa: "Em termos reais ninguém, ou nada, pode definir o que é normal, mas se admite que, do ponto de vista dos grupos sociais, exista um 'normal' que sempre reprimirá ou exigirá de alguém uma conduta que provocará repressão", diz.