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Não aguenta mais ser um casal que vive brigando? Veja riscos dessa relação

Alexsander Skarsgard e Nicole Kidman, em cena de Big Little Lies: abusivo - HBO/ Divulgação
Alexsander Skarsgard e Nicole Kidman, em cena de Big Little Lies: abusivo Imagem: HBO/ Divulgação

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

09/07/2019 04h00

Celeste (Nicole Kidman) e Perry (Alexsander Skarsgard) vivem um relacionamento muito controverso na primeira temporada de Big Little Lies, série da HBO. O marido dela é agressivo, eles brigam muito e, depois, fazem um sexo violento, como se se alimentassem daquilo -- depois, como a própria personagem diz, tudo fica bem. Ele dá presentes para ela, ela fica contente.

A relação é abusiva e depois tem outros desdobramentos ainda mais violentos, mas brigar direto não é exclusividade de relações com criminosos, com a da personagem de Nicole. A maioria dos casais tem conflitos de vez em quando e atravessa momentos complicados. E são felizes independentemente das desavenças, das crises e das dificuldades passageiras.

Mas os casais que não só discutem o tempo inteiro e parecem ter transformado a "guerra" constante numa espécie de forma de se relacionar, não só entre quatro paredes como no dia a dia, precisam olhar para essa relação.

Normal não é...

Segundo Joselene L. Alvim, psicóloga clínica de Presidente Prudente (SP) e especialista em Neuropsicologia pelo setor de Neurologia do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), trata-se de um padrão disfuncional de relacionamento. "Sempre há alguma forma de compensação nas brigas e que podem ou não ser perceptíveis para cada um, mas quem assiste de fora não consegue compreender o que está por trás desta dinâmica", observa.

Há várias explicações para esse costume. Muitas pessoas agem assim porque acreditam que o romantismo do par ou a afinidade do início do relacionamento vai retornar em algum momento, não percebendo que as brigas desgastaram a convivência a tal ponto que fica difícil. Outra hipótese é que as pelejas podem esconder uma dependência emocional. "Ambos não conseguem admitir a dificuldade de separar e de responsabilizar-se pela própria independência e passam a culpabilizar um ao outro, inconscientemente", explica Joselene. Já viu esse filme?

Brigar para fazer as pazes

Há homens e mulheres que se "alimentam" da contenda, precisam das "DR's" para se sentirem vivos, como se a convivência harmônica e pacífica não tivesse graça. "Eles gostam de brigar para ter o prazer de fazer as pazes, é um estilo bem patológico", diz Triana Portal, psicóloga clínica e terapeuta de casal, de São Paulo (SP). "Pode ser uma espécie de fetiche. Há casais que sentem tesão durante a briga, tornando depois o sexo mais intenso justamente porque consideram que podem se separar. O sexo aqui é uma forma de reafirmar os laços afetivos", completa Joselene. Outra razão é uma espécie de teste do poder, que também funciona como componente afrodisíaco do par.

Brigas constantes vão desgastando o relacionamento e afastando um do outro com o passar do tempo. De acordo com Triana, a provocação mútua -- um irritar, diminuir ou expor o outro na frente de amigos -- deixa claro que há mágoas, necessidades não atendidas, acordos não cumpridos. "Essa forma disfuncional de desabafo é uma espécie de válvula de escape e de um pedido de mudança e acontece quando existem questões mal resolvidas. Assim, nesse tipo de interação a pessoa vai liberando sua raiva, seu descontentamento", afirma.

No entanto, esses casais permanecem juntos porque certamente há outras questões que seguram o relacionamento: amor, amizade, companheirismo, conveniência, cumplicidade, intimidade.

Entretanto, quando o comportamento hostil fica enraizado, sentem estranheza ao tratar o outro com respeito, sem críticas, sem diminuir. Há até quem diga que se sente frágil ao ser doce, polido, cordial, como se estivesse se submetendo ao outro"

Triana Portal, psicóloga clínica e terapeuta de casal

Mas por que maltratar a quem se ama? "Normalmente somos mais ácidos, honestos, críticos e severos com quem a gente sabe que vai nos perdoar depois, com quem temos a certeza de que, por nos amar, vai tolerar nossos excessos e grosserias", responde Triana.

Para Joselene, pessoas que se relacionam assim geralmente são egocêntricas, egoístas, com dificuldade de se colocar no lugar do outro e também de se comunicar de forma adequada. E é por isso que, em longo prazo, a comunicação via brigas vai detonando a relação. O ideal é não deixar esse padrão se cristalizar e virar uma bola de neve: um agride, outro revida e o comportamento vai se replicando. "Esse ciclo vicioso só se quebra quando o mais criticado não engaja mais, não revida nem absorve, ignora e não se permite viver o relacionamento insalubre, pede a separação ou impõe como condição a mudança desse padrão", declara Triana.

Estabelecer padrões mais saudáveis de comunicação dá trabalho e requer investimento mútuo e, em alguns casos, ajuda profissional. Faz parte do processo reconhecer que existe um problema e, a partir daí, identificar as causas, os gatilhos de estresse e as questões que geram conflito, além de buscar entender a dinâmica dessa comunicação verbal agressiva, sair da zona de conforto e ir atrás de melhorar o modo de se relacionar. "A comunicação assertiva, com tom de voz adequando e no momento certo, ajuda muito. Para isso, é preciso perceber o outro para saber de que maneira pode expressar suas emoções sem feri-lo", indica Joselene.

E, importante frisar: uma coisa é discutir com o par às vezes, outra é se ver no ciclo do relacionamento abusivo, como o casal de Big Little Lies citado no começo da matéria. Esse tipo de comportamento é perigoso e pode ser até criminoso. Vale ficar atenta e alertar amigos que estejam nessa situação. Denunciar a violência doméstica é muito importante para evitar novas agressões.

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