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Grupo gratuito de terapia para mulheres ajuda a sair de relação abusiva

Priscila Gomes

Colaboração para Universa

06/07/2019 04h00

Monica Miranda queria apoiar mulheres por meio da terapia. Por isso, em 2017, quando ainda era estudante de psicologia, a moradora do Jardim São Luís, zona sul, criou um grupo para discutir assuntos do universo feminino. Sem cobrar participação, os encontros aconteciam na sala da casa dela. Com o tempo, as reuniões tomaram força e uniu ainda mais mulheres do bairro para os debates.

Batizado de "Círculo de Amor e Cura", o grupo era o trabalho de conclusão de curso da estudante, que hoje tem 32 anos. "O objetivo é oferecer apoio e espaço para que essas mulheres possam verbalizar seus problemas. O primeiro assunto foi relacionamentos abusivo: ficamos por três meses falando disso e depois ampliamos", explica.

Debater relacionamentos abusivos sempre esteve nos planos de Monica. "Me identifiquei com o universo feminino e então iniciei as rodas de conversa com esse tema dentro de casa mesmo com mulheres que eu já conhecia. Desde então, não paramos mais. Hoje, depois de um ano e meio, tratamos de assuntos diversos que surgem a cada semana", explica.

Um assunto bem comum, infelizmente

"De imediato, várias se identificaram umas com as outras e foram compartilhando suas histórias sem medo. O espaço para o discurso e troca por si só já é um curativo. Eu apenas direciono os assuntos e as reflexões", conta Monica.

O grupo tem ajudado muitas mulheres do bairro não só em relações abusivas, mas em outros aspectos da vida. "Eu sofria depressão e estava em um relacionamento do qual não conseguia sair. No início tinha medo de falar, mas com o tempo fui me soltando. Frequentando o Círculo de Amor e Cura minha vida melhorou, pois eu percebi que era muito dependente do meu ex. Hoje estou com outra pessoa e deixei de cometer erros. Tenho feito meditação também, que me ajuda muito", conta uma moradora do Jardim Nakamura de 41 anos, que frequenta a roda de conversa desde o início.

Outra frequentadora do grupo, que tem 36 anos, conta sobre a dificuldade que teve de participar de uma terapia em grupo. "Resolvi entrar porque estava em um relacionamento abusivo. Às vezes não queria falar nada, mas a Monica dizia que a minha história podia ajudar outras mulheres. Parei por um tempo, mas logo voltei. A gente consegue resolver muitos conflitos por meio dos relatos de outras. Criamos um vínculo de amor uma pela outra, relação de confiança, aqui ninguém julga ninguém"

Os sorrisos comprovam que as reuniões e a terapia estão dando certo - Arquivo Pessoal
Os sorrisos comprovam que as reuniões e a terapia estão dando certo
Imagem: Arquivo Pessoal

Uma das participantes*, que tem 34 anos, revela a dificuldade que tinha em falar dos seus problemas para outras pessoas e como o projeto mudou sua vida. "Quando comecei a frequentar, estava mais para ouvir do que de falar. Prestava muita atenção nos relatos e percebia que as pessoas sofriam das mesmas questões que eu e isso fez com o que eu conseguisse falar também. Quando entrei eu já acreditava que tudo iria dar certo e isso mudou minha vida", diz.

Com o Círculo curei traumas da infância, amores não correspondidos. E tudo isso não foi só com conselhos das meninas, mas com uma força que descobri dentro de mim, através do grupo.

A moradora do bairro Jardim Nakamura conta que mudou até em outras áreas. "Todas as minhas relações melhoraram, dentro de casa e até no trabalho, Hoje consigo olhar melhor o outro e para dentro de mim também. Descobri no grupo sobre o sagrado feminino e masculino e que ninguém é feliz sozinho", revela.

Apoio e números de violência na zona sul

Com duração de duas horas, os encontros acontecem todas as quartas-feiras em um lugar próximo ao bairro. "Recebemos o apoio do Instituto Favela da Paz -- ONG criada há mais de 15 anos que oferece além de um espaço cultural, mas também apoio para projetos locais -- e lá temos a liberdade de dar continuidade ao trabalho", explica Monica.

Para o presidente e fundador do Instituto Favela da Paz, Claudio Miranda, foi importante abrir as portas para o projeto, pois na região existem grandes índices de violência doméstica. "Apoiar o Círculo de Amor e Cura é uma forma, de talvez, diminuir o problema. Abrir um espaço para roda de conversa de mulheres do bairro fortalece o sagrado feminino dentro da comunidade. Esses assuntos não estão na escola e nem na mídia. Aqui é um lugar protegido e seguro, onde elas podem falar sobre os problemas, conversar os assuntos em um nível mais profundo", explica.

Segundo o Mapa da Desigualdade divulgado pela Rede Nossa São Paulo, no final de 2018, a zona sul lidera o número de notificações de agressão contra mulheres. De acordo com a pesquisa, a cada 10 mil mulheres de 20 a 59 anos que moram no distrito de Jardim São Luís, 100 delas denunciaram ter sido vítimas de agressão ao longo de 2017.

Ao lado do Jardim Ângela, o Jardim São Luís faz parte da subprefeitura do M'Boi Mirim, onde vivem mais de 560 mil pessoas. O número de notificações de agressão no distrito, no entanto, aumentou 58 vezes em relação a 2016, quando foram contabilizados cinco registros a cada 10 mil mulheres. As moradoras do bairro foram vitimas de agressões 180 vezes a mais do que as moradoras do Jardins, na zona oeste da capital.

Próximos passos com mais temas para ajudar as mulheres

Em breve, Monica quer dar mais um passo para fazer o Círculo de Amor e Cura ajudar mais mulheres. Segundo ela, é importante debater assuntos como estima, papel da mulher na sociedade, entre outros. "Pretendo criar um projeto com duração de seis meses para abordar temas específicos e com até 15 mulheres. Renovando a cada ciclo para dar oportunidade para outras mulheres.

* Omitimos os nomes a pedido das entrevistadas.

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