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Pecado, prazer, frivolidade: o que 7 filósofos dizem sobre sexo

O que sexo pode ter a ver com filosofia? - iStock Images
O que sexo pode ter a ver com filosofia? Imagem: iStock Images

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

05/07/2019 04h00

Valorizado, desprezado e até mesmo condenado, o sexo sempre foi motivo de muita especulação por parte dos grandes pensadores cujas ideias marcaram a história. Veja, a seguir, alguns filósofos que contribuíram para conceituar a sexualidade em livros ou discursos.

Diógenes de Sinope (404 ou 412 a.C. a 323 a.C.)

Para Diógenes, um dos principais nomes da Grécia Antiga, o cinismo devia ser o fio condutor da existência. O cínico, conforme suas ideias, rejeita as regras, a vida em sociedade, a propriedade, o governo e a política, despreza o dinheiro e tem somente o necessário para a sobrevivência. Diógenes ainda defendia que precisamos dar atenção somente às necessidades naturais: comer, beber, excretar, dormir e transar. O cínico exaltava o sexo como uma necessidade natural, no mesmo patamar que comer e dormir.

Platão (427 ou 428 a.C. a 347 ou 348 a.C.)

O filósofo e matemático grego condenava os prazeres, principalmente os da "carne", pois entendia que o sexo era um assunto apenas referente ao corpo, o que limitava sua importância. Para ele, sexo só servia para procriação - chegou a defender, inclusive, que casais que não concebiam filhos depois de dez anos de casamento deviam se separar. Na concepção de Platão, o propósito da vida era cuidar da alma, principalmente através do desenvolvimento intelectual. Ele acreditava que as relações de amor e de amizade deviam priorizar a mente, não o prazer físico. Ao ignorar que o sexo envolve principalmente a mente, Platão subestimava o assunto e achava quem o valorizava não merecia consideração.

Santo Agostinho (354 d.C. a 430 d.C.)

Um dos principais pensadores da Idade Média, época marcada pela desvalorização do corpo, Santo Agostinho foi responsável por reforçar o conceito de "pecado original" e de disseminar o conceito de Igreja como a morada espiritual de Deus, distinta em tudo da terra materialista dos homens. Conforme a tese do filósofo nascido numa província romana da África, o corpo é a sede de tentações, da animalidade e do pecado e, por isso, deveria ser purificado com sacrifícios, jejuns e orações. A alma, ao contrário, é o que assemelha o homem ao divino. Só valorizando a alma em detrimento do corpo é que o homem poderia ser "salvo". Neste período a virgindade passa a ser vista com grande valor, seguindo os modelos de Cristo e sua mãe. O prazer, em contrapartida, é encarado com medo e vergonha.

Arthur Schopenhauer (1788-1860)

Schopenhauer é tido como o mais pessimista dos filósofos. Para o pensador alemão, a única maneira de o ser humano sofrer menos é reduzindo suas vontades a índices insignificantes, inclusive as sexuais. De acordo com Schopenhauer, o ser humano não procura relacionamentos por intimidade ou sexo, mas pela necessidade biológica de procriação. Aliás, ele pregava que o casamento é a melhor maneira de se tornar objeto de repulsa para o outro e que a castidade voluntária seria uma forma de autoaprimoramento.

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Autor do clássico "Assim Falou Zaratustra", o filósofo alemão pregava que era preciso parar de ouvir a "voz da consciência" e voltar a ouvir a voz do corpo. O corpo é o caminho que o homem deve seguir para superar a si mesmo e abrir novas possibilidades vitais. Escreve ele em "Aurora": "Em si, os sentimentos sexuais tem em comum com os sentimentos da compaixão e adoração que aqui um ser humano, através de seu contentamento, faz bem a outro ser humano". Ao contrário de Platão, Nietzsche não via sentido em negar o sexo, o corpo e o amor.

Michel Foucault (1926-1984)

Na obra "História da Sexualidade", o pensador francês trata de uma falsa liberdade e da contradição que a sociedade burguesa, em vários momentos da história, mostrou ao reprimir o sexo para então tentar libertar sua expressão. Foucault entende o sexo como uma expressão da personalidade, argumentando que no Ocidente, durante os os séculos XVIII e XIX, a identidade das pessoas começou a estar cada vez mais ligada à sua sexualidade. O aumento dos discursos sobre sexo, nesse período, visava o controle do indivíduo e da população, segundo o pensador. Na sua opinião, quanto mais se fala sobre sexualidade, quanto mais ela se mostra, mais enredados estamos no jogo do poder da escola, da igreja, do estado, da família.

Simone de Beauvoir (1908-1986)

Ícone do pensamento filosófico feminista e existencialista, a francesa defendia a liberdade e a autenticidade de cada ser humano - tanto que não acreditava no matrimônio como instituição e, apesar de ter vários amantes, nunca quis se casar. Para Simone, não existe uma natureza humana fixa: são as escolhas de cada um que fazem sua vida. Só que essas escolhas, ao mesmo tempo que são a própria liberdade, causam angústia e tornam cada indivíduo responsável por suas ações. Em sua obra mais célebre, "O Segundo Sexo", cunhou a famosa frase "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade." Quando se alude ao "gênero feminino", fala-se em todas as características que a sociedade associa ao "ser mulher". Portanto, "ser homem" ou "ser mulher" não é um dado natural, mas construído socialmente, de maneira que, ao longo da história, cada sociedade criou os padrões de ação e comportamento de determinado gênero.

Fontes: "O Livro da Filosofia - Coleção As Grandes Ideias de Todos os Tempos" (Globo Livros); "Lute Como uma Garota - 60 Feministas que Mudaram o Mundo" (Ed. Cultrix), de Laura Barcella e Fernanda LopesMatheus; Arcaro, mestrando em Filosofia Contemporânea pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), pós-graduado em História da Arte e graduado em Filosofia e em Comunicação Social e autor de "O Lado Imóvel do Tempo (Ed. Patuá).

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